domingo, 11 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody


Todas as pessoas que gostam do Queen – e principalmente seus fãs – conhecem a história da banda. Sabem que Brian May (Gwilyn Lee) e Roger Taylor (Bem Hardy) possuíam uma banda antes de conhecerem Freddie Mercury (Rami Malek). Sabem das extravagâncias de Freddie Mercury no palco e fora dele. Sabem de sua opção sexual de Mercury – batizado Farrokh Bulsara, na religião zoroastriana. Sabe que teve relações com homens e mulheres e que seus principais parceiros, com quem casou foram Mary Austin – de 1970 a 1976 – e Jim Hutton – de 1985 até o dia de seu falecimento. Sabem que ele faleceu das consequências da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Mas o quanto conhecem dos bastidores disso tudo?
Com direção de Bryan Singer, baseado no roteiro de Anthony McCarten – que escreveu a história ao lado de Peter Morgan –, está nos cinemas, “Bohemian Rhapsody – A História de Freddie Mercury”.
O subtítulo dado no Brasil, “A História de Freddie Mercury”, não é o que eu consideraria o ideal. Sim, temos um roteiro mais centrado no vocalista do Queen, mas a história em si parte do momento que May e Taylor após uma festa que eles tocavam com sua banda. Após seu vocalista os abandonar, Freddie lhes fala sobre seu desejo de fazer parte da banda e assim começa a parceira. Com a introdução de John Deacon (Joe Mazzello) nos baixos, a banda decide inovar. Primeiro mudam o nome da banda, depois começam a compor músicas que mais têm a ver com eles. A música que dá título ao filme, “Bohemian Rhapsody” é colocada como o divisor de águas de um momento do grupo, pois é o momento em que eles se tornam mais autossuficientes e assumem o destino de sua carreira.
Um dos maiores pecados do filme, para mim, é os erros cronológicos. Um dos maiores exemplos é a apresentação do Queen no Brasil.
Sinceramente, teria sido fantástico que o grupo inglês tivesse se apresentado na década de 1970, no Rio de Janeiro, com o Maracanã extremamente lotado, mas, como brasileiros, sabemos que o momento culminante da banda no Brasil foi durante o primeiro Rock in Rio, de 1984, onde eles tocaram seus maiores sucessos com o público cantando junto, principalmente, “Love of my Life”. Mas sabemos que coisas desse tipo ocorrem em filmes biográficos, fatos sempre se tornam irrelevantes no período de seus acontecimentos. Mas nem por isso, “Bohemian Rhapsody” perde sua beleza, pois temos ali vários pontos crucias da banda sendo colocados para nosso conhecimento. As composições de músicas, os momentos de crises de Mercury, suas brigas e desentendimentos com a banda. Sua “descoberta” de sexualidade. Sua descoberta da AIDS. E todos os momentos maravilhosos e mágicos da banda.
Eu nunca disse ser fã do Queen, mas sempre fui um admirador assíduo da banda, essencialmente no período que Freddie Mercury foi membro. Não sei se considerarão como spoiler – acho que já soltei alguns, peço desculpas por isso – mas não mostram os momentos finais de Freddie, e acho o mais correto a ser feito, pois o mais importante é sabermos o quanto esse artista brilhou e o legado que deixou. Sua voz, sua música, para sempre encantarão os admiradores, os fãs e toda uma velha – e por que não nova – geração que sempre escutará e agradecerá por Freddie e o Queen terem existido e trabalhado em uníssono.
Quanto ao trabalho de elenco – lógico, não poderia deixar de mencionar – temos que admirar cada dia mais o trabalho de Rami Malek. Começou com trabalhos menores até se tornar o protagonista da série “Mr. Robot”. Alguns duvidavam de sua possibilidade de encarar um personagem tão cheio de personalidade como Freddie Mercury, mas ele demonstra ser totalmente capaz de encarar o papel e o torna bastante crível. O mesmo posso dizer com a atuação Gwilin Lee, Ben Hardy e Joe Mazzello que interpretam Brian May, Roger Taylor e John Deacon, respectivamente. O grupo se torna totalmente verossímil nas telas e, como eu havia dito, temos também os problemas de cada membro sendo citados na decorrência da película.
“Bohemian Rhapsody” vai além da história do Freddie Mercury, narrando o Queen em sua formação original e tudo que pode ser dito para a formação de uma das maiores bandas do mundo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Insubstituível



Em 02 de setembro de 2018 perdemos um dos maiores marcos de pesquisa e história do Brasil, o Palácio de São Cristovão, localizado no Parque da Quinta da Boa Vista, sede do Museu Nacional desde 1892. Nele vários acontecimentos históricos ocorreram, como a assinatura da Declaração de Independência do Brasil do domínio de Portugal, também em seu interior, para demonstrar o fim do Império e o começo da República, foi assinado a Primeira Constituição Republicana do Brasil.
Em 1942, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), o Museu Nacional passou a ser administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Em 06 de junho de 2018, o Museu Nacional completou dois séculos de existência e, mesmo passando por vários problemas estruturais, era ponto turístico costumeiro do Rio de Janeiro, tendo várias visitações. Além disso, servia de sede de várias pesquisas científicas que eram ligadas a botânica, entomologia, geologia, gemologia, etnologia, arqueologia, zoologia, entre outros. Seu acervo tinha um total de 20 milhões de peças, mas com a perda, perdeu-se muito dele.
Em uma campanha iniciada pela administração do Museu Nacional e seus pesquisadores, intitulada Museu Nacional Vive, várias partes do que sobreviveu e foi resgatado do acervo, foi apresentado ao público nos dias 22 e 23 de setembro de 2018.
A constante busca para manter a memória do que se perdeu, vem surgindo em redes sociais com o hashtag #museunacionalvive, dentre elas veio da Mauricio de Sousa Produções.
A empresa, fundada por Mauricio de Sousa em 1959, tem vários personagens criado pelo seu fundador, dentre eles a Turma do Penadinho que é constituída por personagens sobrenaturais que vivem em um cemitério e tem histórias que variam de comédia a conscientização. A Turma do Penadinho já prestou várias homenagens a personalidades que faleceram, como o Papa João Paulo II.
Com a perda do patrimônio de pesquisa e história do Brasil, a Turma do Penadinho retornou para prestar mais uma linda e maravilhosa homenagem ao Museu Nacional, localizado no Palácio de São Cristovão, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Com roteiro de Flavio T. Jesus, desenho de Jairo A. Santos, arte-final de Kazuo Yamassake e letras de Eliza T. K. Lacerda, a turma começa um resgate de nossa memória, trazendo as peças e objetos que se encontravam no interior do Museu. Do meteoro de Bendegó ao crânio de Luzia, várias são as peças que eles prestam homenagem e, possivelmente, se perderam no incêndio criminoso* que ocorreu no interior do Palácio. A Mauricio de Sousa Produções está de parabéns por essa linda homenagem.





P.S.: Agradeço a Sidney Gusman, Mauricio de Sousa e Mônica de Sousa por me permitirem fazer essa postagem.


* Devido ao descaso do governo federal, durante anos, com o Museu Nacional e seu patrimônio, EU considero como criminoso o acontecido.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Assassinaram a cultura do nosso país.


Eu fico aqui, pensando e repensando em como vou expressar minha revolta com o que aconteceu no dia 02/09/2018 ao Museu Nacional do Rio de Janeiro.
INCÊNDIO NO MUSEU NACIONAL EM 02/09/2018
Quando eu recebi a notícia pela primeira vez, através de um post no Instagram, não quis acreditar, pensei que fosse algo antigo e que estavam relembrando, como o incêndio do Museu de Arte Moderna em julho de 1978 ou o incêndio no Instituto Butantã em maio de 2010 ou o incêndio no Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, em novembro de 2013 ou o incêndio ao Museu da Língua Portuguesa em dezembro de 2015, mas não, era pior, bem pior... Por quê?
MARIA LEOPOLDINA EM UMA REUNIÃO COM O ESTADO, NA
DECISÃO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, EM 02/09/1922
Bem, o Palácio foi criado durante o reinado de D. João VI, servindo de moradia para sua família, até ele partir com sua esposa e seus filhos para Portugal, deixando lá seu segundo filho – e seu sucessor ao trono – Pedro de Alcântara. Em 02 de setembro de 1822, o Palácio serviu de principal local para o início do que viria a ser a independência do país, pois a princesa regente interina, Maria Leopoldina assinou o decreto da independência do país. O local também serviu como palco para a primeira Assembleia Constituinte Republicana do Brasil, em 1889, dando início a Velha República.
AQUARELA QUE REPRESENTA A ASSINATURA
DO PROJETO DA CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA DE 1891
Em 1892, o Palácio foi transformado em Museu – o MuseuNacional já existia desde junho de 1818, criado por D. João VI no Campo de Santana – e em 1938 foi tombado como Patrimônio Histórico pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Dessa forma, podemos ter aí mais de 200 anos de história desse local. Nele existiam um “acervo de mais de 20 milhões de itens, (destacando-se): a coleção egípcia, que começou a ser adquirida pelo imperador Dom Pedro I; a coleção de arte e artefatos Greco-romanos da Imperatriz Teresa Cristina; as coleções de Paleontologia que incluem o Maxakatisaurus topai, dinossauro proveniente de Minas Gerais; o mais antigo fóssil humano já encontrado no país, batizada de “Luzia”, (...); (as) coleções de Etnologia (...) expostos objetos que mostra(vam) a riqueza da cultura indígena, cultura afro-brasileira, cultura do Pacífico e na Zoologia destaca(vam)-se a coleção Conchas, Corais, Borboletas, que compreende o campo de invertebrados em geral e, em especial, dos insetos”.
MUSEU NACIONAL - VISÃO AÉREA
Não estou tentando minimizar as outras perdas que, como o Museu Nacional, prejudicam a memória e a cultura de nosso país, mas diferentemente dos outros, são 200 anos de história que foram destruídos. Tá, alguns dirão que nem tudo foi destruído, pois a Biblioteca Central não foi atingida pelo fogo e, possivelmente, o que estava no subsolo sobreviveu ao incêndio. Mas isso corresponde a, somente, 10% dos itens que estavam no Palácio.
Sem contar que as denúncias não vêm de hoje.
"MEMÓRIA EM CINZAS", MINIDOCUMENTÁRIO DA GLOBONEWS
SOBRE O INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL
No minidocumentário do Globo News, “Memória em Cinzas”, no dia 03/09/2018, foi mostrado que várias foram as matérias a respeito das condições do Museu Nacional. Então as palavras “acaloradas” do ministro Carlos Marun de que “Agora tem muita viúva chorando. Não tenho visto ultimamente alguém destacando a história do museu para torná-lo mais amado. Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas essas viúvas não amavam tanto assim o museu”, não tem verdades. Falta ao ministro uma melhor fonte de informações ou, talvez, assistir mais telejornal.
Também, lembrado pelo The Guardian, em 03/09/2018, “[...] os governos são os culpados por não apoiar o museu e deixá-lo cair em desuso. No seu 200º aniversário em junho, nenhum ministro do Estado apareceu”, ou seja, o descaso sempre foi claro e o desinteresse, também.
Daí surgiram as matérias falando sobre de quem é a culpa? E, sinceramente, não tem como redimir ninguém, mas vale lembrar que os repasses que o governo federal do Brasil faz para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), responsável pela manutenção do Museu Nacional, está ligado a várias coisas.
A UFRJ é responsável pelo salário de vários professores e profissionais que trabalham em seu campus. Esses professores têm reajuste anuais como todos profissionais. Mesmo que serviços sejam terceirizados, há necessidade de pagar as empresas para que os serviços sejam mantidos. Em matéria publicada em 04/07/2017, referente ao Orçamento daquele ano, foi falado sobre uma redução no percentual em 6,7%, e ainda que “O MEC já bloqueou parte do orçamento e informou que poderá haver contingenciamento de 10% a 15% de custeio, 15% a 20% de receitas próprias das universidades e de 30% a 40% de capital. Se confirmado, a UFRJ perderá o equivalente a dois meses de suas contas. É importante lembrar que em 2016 muitas contas somente foram pagas até o mês de setembro, deslocando o pagamento das despesas não pagas para o orçamento de 2017”. Então, mesmo que ele tenha recebido a mais no ano de 2017, devido aos reajuste determinado pela PEC 55/16 (Institui o Novo Regime Fiscal no âmbito dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União, que vigorará por 20 exercícios financeiros, existindo limites individualizados para as despesas primárias de cada um dos três Poderes, do Ministério Público da União e da Defensoria Pública da União; sendo que cada um dos limites equivalerá: I - para o exercício de 2017, à despesa primária paga no exercício de 2016, incluídos os restos a pagar pagos e demais operações que afetam o resultado primário, corrigida em 7,2% e II - para os exercícios posteriores, ao valor do limite referente ao exercício imediatamente anterior, corrigido pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA. Determina que não se incluem na base de cálculo e nos limites estabelecidos: I - transferências constitucionais; II - créditos extraordinários III - despesas não recorrentes da Justiça Eleitoral com a realização de eleições; e IV - despesas com aumento de capital de empresas estatais não dependentes.), o valor não foi o suficiente para todos os gastos da universidade. Isso já foi uma determinação do governo Temer, que hoje busca jogar toda a responsabilidade – que também não deve ser reduzida – para o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.
A ex-presidente, também, fez indiferença com os patrimônios públicos do nosso país, pois como mostra a reportagem do “Hoje em Dia” de 02/05/2016, a presidente destinara aos eventos da Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) um valor de R$ 39,5 bilhões para os gastos de infraestrutura do país para receber as delegações de outros países.
Somados, os custos para a realização da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016 são de aproximadamente R$ 66 bilhões. Desse montante, mais da metade (R$ 39,5 bilhões) saíram dos cofres públicos. No entanto, na avaliação de especialistas, os investimentos bilionários para os megaeventos esportivos não trazem ganhos significativos para o desenvolvimento do país.
“Se comparado a outras demandas atuais, o dinheiro gasto na Copa e na Olimpíada seria suficiente para cobrir duas vezes o valor que o governo pretende arrecadar em 2017 com a volta da CPMF, cerca de R$ 33,2 bilhões por ano. A mesma quantia poderia suprir, ainda, o déficit no orçamento da União em 2016, que será de R$ 60,2 bilhões, segundo o Ministério da Fazenda”.
Sim, fomos o país da Copa. Sim, fomos o país das Olimpíadas. Mas e aí? Com todo esse valor gasto, as quedas orçamentárias foram sentidas e sempre prejudicaram o nosso patrimônio, pois apesar de termos sido país disso ou daquilo, isso passa, mas nossa memória não (pelo menos, não deveria).
Mas as reivindicações não vêm de hoje. Como dito acima, no minidocumentário da Globo News, ´”Memória em Cinzas”, mostraram anos de descaso com o Museu Nacional do Rio de Janeiro. O Palácio teve goteiras, infiltração, cupins e – quase – todo o acervo da Biblioteca precisou ser transferido para outro prédio por falta de condições de abrigar obras como os Pergaminhos de Ivriim, uma coleção de nove rolos da Torá, compilados em hebraico, comprados por D. Pedro II em 1877. Foram anos e anos de diretores, vice-diretores e diretores adjuntos exigindo providências do Estado para melhorias do espaço. Por consciência e ciência de que alguns produtos se deterioram por causa de micro-organismos, os trabalhadores e pesquisadores que constantemente estavam no Museu Nacional, precisaram fazer uma vaquinha para contratar uma empresa para fazer a limpeza do local. As múmias e seus sarcófagos, que precisavam de ambiente próprio para serem conservadas, estavam em decomposição. PENSEM! Essas múmias sobreviveram às intempéries de milhões de anos, para começar a se deteriorar em um museu, em um local onde deveriam ser admiradas e estudadas em ambientes próprios para sua conservação.
DR. LEANDRO KARNAL
O Dr. Leandro Karnal, historiador de renome, com várias obras escritas e dedicadas a história da humanidade, que atualmente atua como professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na área de História das Américas, deu uma entrevista ao BandNewsFM, no dia 03/09/2018, onde falou que “Era uma anacrônica de uma morte imediata. (...) Não apenas queimamos um patrimônio inestimável, mas também era um prédio histórico. (...) Tudo se perdeu por descaso ao patrimônio nacional. (...) A perda da memória é irreparável. Não é como uma crise econômica, que em 10 ou 20 anos a gente pode recuperar, não é como repor emprego, que é um problema grave no nosso país; estamos falando da perda de peças que nunca mais poderão ser colocadas lá. (...) Quantos mais terão de se incendiar para que alguém tome uma providência. (...) O que se perde não pode ser reposto”. E foi mais a fundo, falando sobre como nossos governos, desde o final da década de 1970, vem tratando nossa cultura. “A Cultura recebeu cortes. (...) Existe um projeto de desmontar a memória brasileira. Um projeto para desmontar aquilo que pode olhar criticamente (...) uma série de estratégias para a destruição do patrimônio histórico brasileiro”.
Sabemos disso tudo que o nobre historiador falou, mas o que fazemos? NADA. A mentalidade do brasileiro sempre foi a seguinte: “Está ali, que bom, mas é velho, para que preservar algo que é velho?”, “Deveriam demolir essas coisas velhas e construir algo mais moderno”. “Por que não digitalizaram tudo. Se tivessem digitalizado, nada teria se perdido”. E assim vai.
A pesquisa, o desenvolvimento de novas descobertas, de novos aprendizados, sempre se perde quando espaços dedicados a eles são incendiados, alagados, depredados, abandonados.
Desde 1978, o Museu Nacional vinha requerendo assistência e um melhor apoio do Governo Federal. Nas reportagens abordadas em “Memória em Chamas”, temos reivindicações desde o final da década de 1970 até mais recentemente, em maio de 2018, quando foi necessário remover a ossada do maior bicho-preguiça já encontrado, pois estavam com problemas de cupins, algo antigo, que o museu vinha combatendo com uma empresa terceirizada, contratada. Mas a empresa parou de prestar serviços por falta de dinheiro.
O que ocorreu, acontecerá novamente, pois mesmo que o atual presidente ou um dos candidatos as eleições que poderão assumir, prometam algo, eles não farão muito.
No momento, as mídias estão falando sobre o assunto, então uma abordagem mais ampla está sendo dada. Os presidenciáveis demonstraram seus lamentos quanto a perda (com exceção de alguns que não se pronunciaram), como mostra no Correio Braziliense. Mas até quando ficaremos somente no lamento e uma atitude será tomada? Retomando as falas do Dr. Karnal, também acredito na existência de um projeto de desmontar, destruir a memória nacional, pois assim as pessoas tendem a crer no que um político expressa, enganando-se e não reconhecendo seu passado. Então as falas dos políticos sempre serão a mesma, de pesar, de acusações dos seus predecessores. Mas será que eles farão mesmo algo?
MUSEU DO IPIRANGA
Em 2022, o Brasil completará 200 anos de Independência do Brasil, mas o patrimônio ligado à independência do nosso país, o Museu do Ipiranga (também conhecido como Museu da Independência), encontra-se de portas fechadas desde 2013, devido a infiltrações e risco de queda do teto e, ainda em 2018, cinco anos após seu fechamento, nada foi feito. Havia uma previsão de começo das obras nesse segundo semestre deste ano, mas agora foi transferido para 2019. A Universidade de São Paulo (USP) buscará captar os recursos, orçados entre R$ 80 e 100 milhões, na iniciativa privada, pois não conseguirá com o governo o necessário para que poder reabrir o museu a tempo do jubileu. O mesmo governo que vem acusando a UFRJ de culpa pela negligência com o Museu Nacional.
Sabe qual é a nossa sorte? Mesmo que não tenhamos nosso governo se importando em auxiliar nosso patrimônio – ah sim, do nada surgiram R$ 10 milhões de um fundo emergencial para ajudar na reconstrução do Museu Nacional –, outros países se importam.
Logo após ter ciência do incêndio, o presidente de Portugal apareceu diante das câmeras declarando apoiar e auxiliar o Brasil no que ele precisar. Interessante isso, pois o atual presidente do Brasil, Michel Temer, se esconde atrás dos ministros da Cultura e da Educação, deixando-os determinar o que fazer pelo bem do Museu Nacional, enquanto o governante de outro país não poupa esforços para ele mesmo aparecer diante das câmeras e falar no auxílio ao nosso país, pois dividimos algo semelhante, tivemos o mesmo rei, D. João VI. Aquele que nos deu a independência, que foi nosso primeiro imperador, depois se tornou rei para eles, D. Pedro IV (para nós D. Pedro I). O herdeiro deste foi nosso imperador, D. Pedro II, até que ele teve de abdicar do trono para que nascesse nossa República. E, sinceramente, esse é o comportamento de um governante que se importa com o patrimônio cultural da humanidade.
No dia 06/09/2018, O G1 publicou que o Ministério do Exterior da Alemanha pretende auxiliar a reforma do Museu Nacional com uma verba emergencial de € 1 milhão (algo em torno de R$ 4,8 milhões).
“[...] o Ministério alemão do Exterior informou que coordenará esforços nacionais para fornecer apoio à limpeza e recuperação do Museu Nacional no Rio de Janeiro, (...).
A secretária de Cultura do Ministério do Exterior alemão, Michelle Müntefering, se reunirá com autoridades do governo, estados e da sociedade civil para discutir a ajuda emergencial.
Segundo Müntefering, especialistas alemães participarão de uma missão da Unesco no Museu Nacional no Rio, na tentativa de recuperar itens que podem ter sido poupados pelas chamas”.
Tá, passamos por uma crise tremenda na economia do país, mas volto a lembrar, se tivessem cuidado do nosso patrimônio quando deveriam, não estaríamos tendo um auxílio externo, inicialmente. Pelo contrário, essas pessoas estariam vendo, lá fora, que sabemos cuidar do que é nosso.
Esse texto não parece que terá fim. Ficou longo, eu sei, mas preciso expor essa revolta que me corrói por dentro. Essa revolta que não passará.
Meu estado, o Espírito Santo, tem um total de 80 museus, três deles mantidos pelo governo estadual e os outros setenta e cinco pelos municipais. Alguns encontram-se em condições razoáveis graças ao esforço constante daqueles que trabalham no seu interior. Pesquisadores, cientistas, continuam trabalhando no interior desses museus, batalhando para preservação de seus bens. Artefatos de vários períodos da História do Brasil e do Espírito Santo.
Eu poderia esperar que os próximos governadores e presidente façam algo, mas não vou me iludir, não serei tão inocente. Nosso passado foi arruinado, feito em chamas em poucos minutos. Novas descobertas foram impossibilitadas. Não há arquivos digitalizados que possam recuperá-los. Não a reconstruções e escaneamentos em 3D que refaçam o que se perdeu. Foi a nossa história, a histórias de gerações e do mundo que partiu nas mãos incapacitadas dos nossos governantes. Nossa cultura e nosso passado foi assassinado e a culpa é de quem, DE TODOS NÓS! Aceitem esse fato, pois assim continuará sendo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Prole – Quarta Parte

Caramba, desde 2009 que eu não publico uma continuação do conto – que está virando uma novela – “Em Busca do Conhecimento – Prole”. Também foram três anos de faculdade, que me exigiam tempo integral de dedicação, junto com meu trabalho, o que dificultou, e muito, alguma publicação ou mesmo escrever alguma parte a mais de Prole.

Para se orientar e saber um pouco mais, ou mesmo recordar (pois recordar é viver!), leiam a primeira, a segunda e a terceira parte novamente, antes de ler essa nova! Boa leitura para todos!

Colonos italianos chegando na Hospedaria de Imigrantes

Durante todo o almoço, Miguel parecia vidrado em Minerva, enquanto Joshua se entretia conversando com seu bisavô, que nunca conhecera, nem mesmo por fotos:

-... E quando nós chegamos aqui, eu ainda era uma criança de fraldas. Vim a conhecer Ceres quando estudávamos no primário. Ela veio a mim quando tínhamos dez anos e me falou: “Você será meu marido!”, parecia determinada e era isso que gostava nela. Quando crescemos, meus pais me enviaram à capital, para completar meus estudos, quando retornei, nos casamos e montamos família. Acho que é isso!

- Então o senhor é um legítimo italiano? Pensei que tivesse nascido aqui. – Retrucou Joshua.

- Não, meu jovem. Vim com minha família para a cá. Desembarcamos no Porto da capital e com uma enorme caravana, viemos para este lugar, onde fundamos a primeira colônia de italianos... Ah, agora precisarei traduzir para os nossos amigos italianos.

- Se non si preocupa, farei isso pelo senhor. – disse Giácomo, e enquanto ele falava com seu irmão e Miguel – que entendera, mas precisa continuar se submetendo a traduções -, Joshua permanecia a conversa com seu bisavô:

- Para mim, é simplesmente maravilhoso conhecê-lo. Meus avôs sempre falaram da chegada dos imigrantes no estado, mas nunca pensei que conheceria algum de vocês...

- Por que não? Tudo bem que foi no século passado, mas vieram muitas crianças com seus pais, então a possibilidade de vir a me conhecer e a minha esposa, além de muitos outros que aqui residem, era bem possível.

- É verdade. – Joshua disse, sem pensar. – Ainda bem que tive a idéia de virmos para cá.

- Eu pensei que haviam vindos para a cá, por causa de vosso primo. Pois ele queria saber para onde seus descendentes haviam vindos. – Percebendo que cometera um erro, Joshua enrubesceu, mas deu sorte, pois as filhas de Enéias haviam descido. – Ah, as flores da minha vida. Minerva, sabia que estes jovens falam inglês? – Com um belo sorriso em seu rosto, ela respondeu:

- Sim, eu percebi babbo. – Joshua e Miguel trocaram olhares, enquanto ela os observava. – Estou indo à casa de Cassandra, ver uns materiais de estudo. Será que alguns dos senhores poderiam fazer companhia a esta jovem dama?

- Minerva, sabe que não é certo... – Mas ela interrompeu o pai, falando em italiano.

- Il signore Miguel, mi poteva accompagnare, se non ti disturba? 59 – Miguel abriu um largo sorriso e se levantou, respondendo.

- Sarà un grande piacere di accompagnarla. – Olhou para Joshua, que aparentava reprovar, - Se tuo padre per permettere, naturalmente.60 – Terminou dizendo, olhando diretamente nos olhos de Enéias.

- È la non certezza, - viu que a filha lhe olhava com suplica. - ma se il desiderio di mia figlia, mi fido di lei, il signore Miguel. 61

Quando ambos saíram pela porta, Miguel perguntou:

- Dove questa è la casa della sua amica?62 - Parando a frente dele, Minerva lhe olhou com seriedade e falou, em inglês:

- I know very little of this language, but enough to understand that you are not here! 63

- I do not know what you're talking about! 64 – Respondeu Miguel, virando as costas para Minerva. Ela andou graciosamente para frente dele:

- Of where you it’s? Or better, of where you they are? You and it’s cousin… 65 - Aquilo estava constringindo Miguel. Ele sabia que se falasse em português, se denunciaria, por causa de seu modo de falar, além de sentir um a certa atração por aquela jovem, que ele sabia não poder acontecer nada, pois ela era sua tia-avó. Queria que Joshua estivesse ali, para ajudá-lo. Foi então que pensou, esta era a idéia dela, separar os dois. Com certeza, percebera que Joshua era o “cabeça” dos dois e separando-os, conseguiria descobrir o que desejasse. Aquilo fez com que Miguel crescesse em determinação e num jogo de esquivas, ele seguiu seu caminho, esperando que ela lhe mostrasse para onde ir. Percebendo que não conseguiria que ele falasse, Minerva se prontificou a ficar à sua frente, levando-o até a praça da cidade:

- So che stai nascondendo qualcosa e non mi dice, ma io sono molto persistente. 66 – Ela disse, ao se sentar em um banco. Miguel permaneceu em pé, tentando manter sua impassividade. A praça parecia estar deserta, possivelmente as pessoas se preparavam para o almoço.

- Che cosa vuole di me? 67 – Ele terminou perguntando, sem esperar uma resposta agradável.

- Desidero la verità! 68 – Ela respondeu. Seus olhos pareciam duas fontes de brilho verde e apaixonante. A mente de Miguel lhe dizia que ela era sua tia-avó, mas seu coração parecia não se importar, como se fosse seu destino cruzar o caminho daquela jovem e ela o dele:

- La verità? Minerva credere che non si creda la verità ... Scherzi! – Sentou-se ao lado dela. - Le cose non sono così semplici, se sai cosa voglio dire. Non importa quanto mio cugino Joshua parlare con me su di esso, ancora non ci credo, anche. 69

Minerva olhava profundamente nos olhos castanhos de Miguel. Acreditava no que ele dizia, mas algumas coisas estavam inexplicadas:

- Joshua? Ma il nome del relativo cugino non è Josué? 70 – O rosto de Miguel enrubesceu e Minerva percebera a mudança de tonalidade na face dele. Miguel sentia seu rosto aquecer e não sabia o que dizer. O silêncio pairou durante alguns segundos, até ser quebrado por Minerva. – Você fala português, Miguel? – O olhar questionável de Minerva fazia o corpo de Miguel esquentar, ao ponto dele sentir um incomodo calor. Se ele falasse qualquer coisa, ela perceberia que ele entendera o que falara. Sentiu novamente a falta do primo. Então veio algo a sua mente. Sabia que se falasse aquilo, as coisas seriam bem piores, mas na falta do que dizer e com medo que ela o argüisse mais, falou:

- Già avete letto il libro “La Macchina del Tempo”? 71 – Acreditando que Miguel não entendera seu questionamento, Minerva respondeu:

- Sì, ho letto questo libro di recente. Si tratta di un ottimo libro…72

- Eu o vi em DVD! – Minerva tomou um susto com a resposta. Estava intrigada com aquilo e ao mesmo tempo assustada. Não entendera a última palavra, mas percebia que Miguel a compreendia muito bem.

- Você fala português? – Ela gaguejou. – Entendia tudo que os outros falavam? Por quê? Por que escondeu isso de nós, Miguel? – Os olhos de Minerva se marejavam de nervosismo. Ela estava assustada, intrigada e nervosa. Eram sentimentos mútuos que rondavam sua cabeça, quase a deixando incontrolável.

- Sim, eu entendo português, mas não pretendia enganar ninguém. Nem você, nem sua irmã e muito menos seus pais, muito menos Giácomo e Giancarlo. – Miguel estava com vontade de enterrar a cabeça no centro do parque, como um avestruz. “No que você me meteu Joshua!”, ele pensou. – O lance é que nem eu e nem meu primo somos daqui, ou melhor, não somos deste tempo, entende?

Aquilo parecia mais intrigante ainda, mas a primeira reação de Minerva foi:

- Você está brincando comigo? – Ela começou a ficar nervosa, à medida que falava com ele. – Quer dizer que vocês viajaram no tempo? E onde está a máquina de vocês, hein? Encontraram algum Morlock ou quem sabe um Eloi?...

- Olha, sei que não deve ser fácil... Pô, até agora nem eu entendo. Não tem exatamente uma máquina do tempo, é um tipo de portal, que leva as pessoas para outros lugares. Antes, eu e Joshua fomos pra um lugar muito doido, aonde todo mundo falava de trás para frente. Loucura pura! Agora viemos pra cá, pois o Joshua queria conhecer nossos parentes, com quem não teve muito contato na infância... Dá pra entender? – Minerva prestava total atenção em Miguel e quando ele terminou, ela começou a rir. – Do que ‘cê tá rindo?

- Seu jeito de falar, – ela disse entre o riso. – é muito estranho. – Aquilo deixou Miguel desconfortável: “Maldita hora pra contar a verdade.”, ele pensou. Mesmo com a risada dela, Miguel estava encantado. Era uma risada gostosa e prazerosa. Esperou que ela terminasse e quando isso aconteceu, começou a falar:

- Terminou de tirar uma com a minha cara? Então, acho que tu entendeu o que eu quis falar com aquele barato todo, não?

- Olha, pelo jeito que você fala, com certeza não é daqui, mas viagem no tempo? Não acha que está delirando, Miguel?

- Acredite Minerva, bem que eu gostaria de tá brincando, mas num to não. – E começou a contar a ela toda a história, somente dispensando dados relativos à descendência dele e de Joshua e a ligação sanguínea entre ele e Minerva, coisa que ele não queria acreditar que existia.

- Este seu relato é fantástico, beirando o delírio. Então Josué, ou melhor, Joshua tem um amor em outra dimensão, sendo que esta é neta do professor dele? Percebes a loucura do que me diz?

- Minerva, vai por mim, ninguém acha isso mais louco do que eu, mas é a verdade. Quando fomos para Aiarp, nunca imaginaríamos que algo tão louco aconteceria. Vivemos entre eles durante três meses e só ficamos sabendo disso no final de nossa estadia, e foi o próprio Joshua que chegou a esta conclusão, enquanto se encontrava em cárcere. Quando voltamos, ele tentou contar ao professor dele, sobre o fato, mas não rolou, pois o cara só queria saber de fatos ligados a cultura do local e à forma de vida de lá...

- E por que vocês vieram para a cá? Por que não retornaram ao tal local?

- Ah, isso é coisa do Joshua. Ele disse que seria quase impossível termos certeza da época em que havíamos chegado em Aiarp, por isso preferiu vir pra cá.

- Com qual objetivo?

- Oras, conhecer nossas origens, onde nossa família morava e tudo o mais. Como eu disse, Joshua não teve muito contato com nosso avô, então ele veio conhecê-lo.

- Se for verdade, o avô de vocês é jovem ainda, e desde que chegaram, somente estiveram conosco. Quando vós ireis procurá-lo?

- No momento estamos ajudando Giácomo e Giancarlo...

- Ajudando com o quê? Giácomo fala português muito bem, pode cuidar do irmão... Ah não ser que tenham um interesse a mais... Então, qual deles é o seu avô? – Miguel ficara constrangido com o questionamento.

- Você tá indo muito além do que é verdade. – Disse ele, taxativamente. – Só estamos ajudando Giácomo e Giancarlo, nada mais. Se eles fossem mesmo nossos parentes, estaríamos atrás deles, não seria um encontro acidental na estação de trem.

- É, tu tens certa razão nessa avaliação. Bem, quando decidirem procurar seus avôs, eu gostaria de ir junto, se for possível.

- Acho que não vai rolar. – Disse Miguel, com um ar de mistério. – ‘Cê já tá sabendo muito, na verdade, acho que Joshua vai querer me trucidar quando ele souber que a deixei a par disso tudo. Pô, foi uma loucura quando Giácomo descobriu, imagina quando ele souber que ‘cê sabe...

- Mas como Giácomo ficou sabendo?

- Ele nos pegou conversando em português.

- Então existe uma diferença, você me contou, eu não o peguei conversando com seu primo... – Miguel levantou de onde estavam e estava em polvorosa.

- Pior ainda. – Ele disse, ficando-se a frente dela. – Quando ele souber que lhe contei de livre vontade, vai querer me trucidar. – Aquilo parecia um absurdo, ainda mais pelo porte físico dele e do primo, mas sabia que Joshua poderia simplesmente transformar o resto da estadia de ambos num verdadeiro inferno.

Minerva se pôs de pé diante dele, a diferença de altura de ambos era bem perceptível. Ela lhe tocou o rosto preocupado com sua mão macia, segurou pelo queixo e disse:

- Me beije? – Aturdido, ele pela primeira vez ficara sem reação:

- Como?

- Eu quero que você me beije. – Os olhos dela cintilavam um brilho inebriante. – Será que existe algo que o impeça de fazer isso? – “Na verdade tem.”, ele pensou:

- Mas se alguém nos pegar? Tudo bem que na nossa época isso não era problema, mas nosso nonno sempre dizia que as moças não podiam beijar rapazes, pois era um afronta a família da moça e... – Os lábios de Minerva tocaram o dele, suavemente. Ela ficara na ponta dos pés para cometer o ato de beijá-lo.

O beijo dela era quente e confortável. Nada mais passava pela cabeça de Miguel, só queria aproveitar aquele momento. Esquecera tudo, somente se preocupava em sentir os macios lábios dela sobre os dele. Na medida em que ela ia deixando de ficar nas pontas dos pés, ele abaixava o próprio corpo, sem deixar de tocá-la nos lábios. As mãos dela seguravam delicadamente o rosto dele, enquanto ele tocava os longos cabelos negros dela, que passavam pelos seus dedos. O mundo havia parado, mas de repente voltara a se movimentar. Abrindo os olhos calmamente, ele sentia aquela sensação viciante que esquentava seu corpo e gaguejando disse:

- Por que fez isso?

- Porque você fala demais. – Ela respondeu. – E eu queria beijá-lo. – Quando terminou de abrir os olhos, Miguel tinha certeza que uma aura de luz iluminava Minerva, como se ela fosse uma divindade. O cheiro dos cabelos dela lhe davam uma sensação de prazer espiritual.

- Se nos pegam. – Ele se curvou para tocá-la nos lábios novamente. Ela sorriu e concordou com o beijo, que fora menos duradouro que o anterior. – Eu esqueci do mundo agora. – Ele terminou dizendo.

- Então somos dois. – Ela o abraçou como se quisesse apertá-lo. – O que faremos agora?

Traduções (Via Google Tradutor):

60 - Será um grande prazer para acompanhá-la. [...] Se o seu pai para autorizar, é lógico.

61 - Não é o certo, [...] mas se for o desejo da minha filha, eu confio nela, senhor Miguel.

62 - Onde esta é a casa de sua amiga?

63 - Eu sei muito pouco dessa linguagem, mas o suficiente para entender que você não é daqui!

64 - Eu não sei do que você está falando!

65 - De onde você é? Ou melhor, de onde eles são? Você e seu primo...

66 - Eu sei que você está escondendo alguma coisa e não quer me contar, mas eu sou bastante persistente.

67 - O que você quer de mim?

68 – Eu quero a verdade!

69 - A verdade? Acredito Minerva que você não acreditaria na verdade ... Sério! [...] As coisas não são tão simples, se é que me entende. Não importa o quanto o meu primo Joshua fale sobre isso comigo, eu ainda não acredito, também.

70 - Joshua? Mas o nome de seu primo não é Josué?

71 - Você já leu o livro "A Máquina do Tempo"?

72 - Sim, eu li este livro recentemente. É um livro muito bom...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A perda de um herói

Renato Russo em sua música “Love In The Afternoon” começa cantando:
“É tão estranho / Os bons morrem jovens / Assim parece ser / Quando me lembro de você / Que acabou indo embora / Cedo demais...”.
Algumas vezes o destino nos carrega pessoas preciosas que tem o costume de iluminar nossa vida e fazer dela melhor. Os céus exigem esta pessoa que nos dá alegria, para que ele venha a alegrar o reino divino.
Esta manhã de segunda-feira (08/07/2013), através da atriz Lilian Menenguci, tomei conhecimento do falecimento do meu amigo, o ator Gleison Dutra.
Gleison anos atrás lutou contra uma leucemia, fez transplante e conseguiu uma vitória, que exigiu muito de sua saúde. Ele lutou arduamente todos os dias, fazendo o que mais amava em todo o mundo: o teatro.
Gleison era um rapaz com saúde exemplar, ia de bicicleta de sua casa (em Cariacica) até a – hoje – Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música Fafi, que se localiza em Vitória – ES, para fazer suas aulas de teatro, na qual teve graduação no final do ano de 2000.
Eu tive o prazer de trabalhar ao seu lado em duas peças: “Os Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki, e
“O Casamento Suspeitoso”, de Ariano Suassuna. Em ambas, Gleison demonstrou toda sua paixão pelo palco na construção de dois personagens magníficos, sendo que o último, o gago Gaspar, é o que todos mais recordam, pois ficamos em temporada com a peça “O Casamento Suspeitoso” duarente o ano de 2001.
Gleison lutou bravamente como um herói que entra em um combate com o objetivo de vitória. Trabalhou com o diretor, ator e produtor José Luiz Gobbi em vários trabalhos de palco, além de auxiliá-lo como diretor e professor na Escola Leonardo da Vinci, onde dava aula de interpretação para os alunos.
Mas como todas as batalhas, nem sempre elas são favoráveis aos maiores guerreiros. Agora Gleison se encontra no Elísio, auxiliando Dioniso e Apolo, atuando ao lado dos grandes Moliére, Shakespeare, Nelson Rodrigues, e tantos outros. Mas ele nos deixa uma lição que nenhuma batalha deve ser considerava vencida. Que devemos sempre lutar por aquilo que acreditamos e que nos empenhamos a acreditar que é o melhor para nós. A batalha pela vida de Gleison e sua eterna continuidade junto àquilo que ele mais amava, só nos mostra que somos pessoas que devemos crer mais em nós mesmos.
Obrigado por isso, Gleison. Uma vez – durante uma aula na Fafi – falei em sala que considerava a todos como minha família, então posso dizer que sempre te considerei como um irmão, que demonstrou para mim que a felicidade sempre está dentro de nós e precisamos sempre buscá-la, não importa o que aconteça.


ADEUS MEU GUERREIRO!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

VII Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica Saberes


E vamos ter mais dois dias de seminários na Faculdade Saberes. É o VII Seminário de Prática e Pesquisa Pedagógica Saberes, que este ano acontecerá nos dias 27 e 28 de novembro de 2011 (terça-feira e quarta-feira), com apresentações de pesquisadores e discentes da Faculdade Saberes.Nestes dois dias teremos alunos das turmas de História e Letras apresentando suas monografias para o Trabalho de Conclusão de Curso.

Eu mesmo estarei participando da mesa mais diversificada desses dois dias.

No dia 28/11/2012 (quarta-feira), as 18h30, estarei eu compondo uma mesa com mais quatro colegas do curso de História. Na mesa, orientada pelos professores Mestres Roney Marcos Pavani e Jorge Vinicius Monteiro Vianna, teremos Amor Cortês (Dinny de Oliveira Tesch), D. Pedro II (Lucio Rocha Barbosa), Governo do Espírito Santo - Jerônimo Monteiro (Moisés Rosa de Paula), Punk no Brasil (Vinicius Wolkartt Vivaldi) e A Construção do mito do vampiro no século XIX (eu).

No seminário do ano passado, eu dei uma prévia sobre o assunto, falando sobre o imaginário do vampiro nos séculos XVIII e XIX, este ano farei minha apresentação de monografia, tomando como base a obra Drácula, de Bram Stoker, publicada pela primeira vez em 1897. Os dois dias de apresentações estão aberto para todos que desejarem assistir. Abaixo segue a programação completa.

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domingo, 27 de novembro de 2011

Seminário sobre o imaginário no século XIX

Nos dias 21 e 22/11/2011, aconteceu na faculdade que sou discente o VI Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica Saberes. Todos os anos, alunos – como eu – apresentam projetos de pequisa que estão desenvolvendo ou que já estão em finalização.
No dia 22/11. eu apresentei o que pretendo realizar como meu Trabalho de conclusão de curso (o famoso TCC). Este meu trabalho pretende abordar o imaginário do século XIX, tão rico de escritores que se encantavam com o fantástico, como Mary Shelley, Robert Louis Stevenson, Lord Byron, John Polidori, H. G. Wells, Edgard Allan Poe, Sheridan Le Fanu e tantos outros. Mas minha concentração fica em “Dracula”, escrita por Bram Stoker e publicada pela primeira vez em 1897.
A diferença de Drácula para as outras obras com referência ao vampirismo foi o sucesso arrabatador que fez e todo o mito que ronda sobre ele. De cavaleiro que combateu os turcos-otomanos no século XV, com o nome de Vlad Ţepeş, a monstro literário da litaratura do século XIX, a trajetória do personagem passa por um surto de pânico nas Europas Central e Oriental, culminando na exumação de vários corpos que foram mutilados, duas dissertãções por catedráticos da Igreja Cristã-Católica, inúmeros poemas, romances de suspense, peças teatrais, pesadelo, até a obra de fato. Apesar de ter conhecimento do sucesso que possuía em mãos, Stoker – acredito eu – não tinha ideia do quão sua criação poderia ser uma influência e ainda gerar mais mitos em cima do mito. Abaixo segue o texto do trabalho que apresentei e ao final disaponibilizo um vídeo para apreciarem (está meio escruto, mas dá para ouvir).

O fascínio pelo imaginário e fantástico no século XIX através da obra
de Drácula e a construção do seu mito
Drácula é o personagem-título do romance criado por Bram Stoker e publicado em 1897, se tornando o vampiro mais conhecido da modernidade e incitando no mundo a ideia de um ser poderoso e sem escrúpulos, capaz de qualquer coisa para saciar seus desejos. Seu inimigo, Van Helsing, o destrói se munindo de objetos relacionados à religião cristã-católica romana, como o crucifixo e a hóstia, além de usar o alho para afastá-lo e estacas para ataca-lo, crenças populares da Europa Oriental, região rica de mitologia vampírica. Mas antes de Drácula surgir ao final do século XIX, o mito do vampiro chegou a Europa Ocidental através de um surto de manifestações que levaram a investigações da igreja, que realizaram duas dissertações a respeito dos casos, assim como incitou o imaginário de muitos escritores que usaram o mito como base para suas obras.
Para melhor compreensão disso temos o caso de Arnold Paole, soldado sérvio que retornou para casa após um período de serviços prestados na Sérvia Turca, como era conhecido o exército daquela região. Ele comprou terras, se tornou agricultor e casou-se. Mas ele revelou a esposa que durante o período de serviços na Sérvia Turca fora atacado por um upirina[1], ao qual ele perseguiu até o cemitério e o matou. Comeu a terra do túmulo e cuidou das feridas com o sangue na intenção de se livrar dos efeitos do ataque, mas temia que ainda tivesse marcado, como uma maldição.
Paole então morre após um acidente, só que dias após sua morte um surto de visões começam a surgir e pessoas que disseram tê-lo visto, morrem. No 40° dia após sua morte, decidem desenterrar seu corpo. Acompanhados de dois cirurgiões militares, o povo da região aonde Arnold Paole residia abre seu caixão e o encontra como se tivesse sido enterrado há pouco tempo, somente com uma pequena camada de pele velha sobreposta a uma pele nova e com as unhas ainda crescendo. Eles estaqueiam o corpo do morto e ouvem um gemido, além de o sangue jorrar da ferida, mas não para por aí, pois as pessoas mortas, supostamente, por Paole, têm o mesmo fim. Em 1731, quatro anos após as mortes de Paole e suas supostas vítimas, uma jovem disse ter sido atacada por um homem chamado Milo, que havia falecido há pouco tempo. Desta forma o imperador austríaco nomeou o cirurgião Johannes Fluckinger para investigar o caso. Fluckinger se dirigiu a região de Medgevia, ao norte de Belgrado, aonde Paole havia nascido e residido e também local da aparição de Milo, para inspecionar o desenterro do corpo. Descobrindo-o em estado semelhante ao de Paole, foi ordenado o estaqueamento e a incineração do falecido. Numa busca pela resposta do motivo de uma pessoa ter se tornado vampiro depois de quatro anos, fora determinado que Paole houvesse “vampirizado” diversas vacas, sendo este o motivo do mais recente caso. Sendo assim, sob ordens do cirurgião nomeado pelo imperador, várias pessoas que haveriam falecido há pouco tempo foram desenterradas, estaqueadas e queimadas.
Essa pantofobia[2] relativa aos ataques de vampiros que tomou a região das Europas Central e Oriental foram abordadas pela Igreja Cristã-católica romana em dois trabalhos. O primeiro foi realizado em 1744 pelo arcebispo de Trani, região da Itália, Giuseppe Davanzati (1665-1755), que se chamava Dissertazione sopra I Vampiri[3].
Davanzati fora nomeado pelo papa Benedito XIV como patriarca de Alexandria quando a onda vampírica chegou à Alemanha. O bispo de Olmütz, Cardeal Schtrattembach, o convidou para participar das discussões acerca deste surto, que se originara com o caso de Paole, em 1727, daí então escreveu sua dissertação tendo como base os relatos deste caso e de estudo relacionados ao assunto.
Vampiri[4] era uma terminologia do vampir húngaro, que se originara do upír[5], e define o que Davanzati chamou de fantasia humana, com possibilidades de origem diabólica. Na sua argumentação, as aparições vampíricas se realizavam aos camponeses e analfabetos das classes mais baixas, cujo imaginário eram mais tendencioso do que para pessoas letradas. Mas sua dissertação foi superada pela do acadêmico francês Don Augustin Calmet, que escreveu em 1746 a Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons e des Esprits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, et de Silésie[6], que fora seu único trabalho a respeito do assunto.
Calmet, como acadêmico católico romano, havia lecionado Filosofia e Teologia na Abadia em Moyen-Moutier e trabalhara em um comentário maciço de 23 volumes sobre a Bíblia, além de tentar popularizar o trabalho de interpretação dela. O papa Benedito XIII chegou a oferecê-lo um bispado, mas ele recusou. A pesquisa de Calmet sobre os vampiros iniciou da mesma forma que a de Davanzati, por conta do surto de aparições que se iniciou em 1727 na Europa Oriental e se alastrou pela Alemanha. Na França não existiam relatos como aqueles, mas o acadêmico ficou impressionado com os detalhes dos testemunhos que corroboravam com a existência do vampirismo e não achava certo que fossem ignorados.
A definição de Calmet sobre os vampiros era que eles seriam pessoas mortas que retornavam de seus túmulos para perturbar os vivos, bebendo de seu sangue e, possivelmente, leva-los a morte. O único meio de eliminá-los seria desenterrando o corpo do suposto vampiro, cortando-lhe a cabeça, estaqueando uma madeira no corpo e queimando-o até que virassem cinzas. Mas Calmet tinha sérias críticas à histeria desenfreada que causou a exumação de vários corpos, aos quais achavam terem sido vampirizados, e suas mutilações. Também amainou o que Davanzati havia escrito sobre o fenômeno atingir somente as classes iletradas, referindo-se ao folclore popular das regiões, o parco conhecimento sobre as alterações dos corpos após a morte e sobre sepultamentos prematuros. Ao fim, Calmet deixa o assunto em aberto, não o concluindo, mas aparentando acreditar na existência de vampiros ao escrever “[...] que parece impossível não apoiar a crença que prevalece nesses países de que essas aparições na realidade provêm do túmulo e que são capazes de produzir terríveis efeitos tão difundidos e atribuídos a eles”[7].
Calmet, ao deixar em aberto a discussão sobre a existência ou não de vampiros, incentivou a busca por respostas a respeito deste ser folclórico que começara a se desenvolver na mente de poetas alemães, tanto que dois anos após a publicação de sua dissertação surge o poema Der Vampyr de Heinrich August Ossenfelder. Após a publicação de Ossenfelder, outros poetas alemães desenvolveram obras semelhantes, como Lenora de Gottfried August Bürger, Die Braut von Korinth de Johann Wolfgang von Goethe. Esses poemas chegaram a Inglaterra na década de 1790, quando William Taylor de Norwich traduziu Lenora para o inglês, que incentivou Samuel Taylor Coleridge a escrever Christabel em 1801 e Robert Southey que escreveu Thalaba the Destroyer.
Dois dos maiores incentivadores da literatura vampírica no início do século XIX foram Lorde George Gordon Byron e Percy Bysshe Shelley, tanto que em 1816, devido ao tempo que não permitia que transitassem pelas ruas de Genebra, Byron sugeriu que fossem escritos histórias de fantasmas para serem compartilhadas entre eles. Entre os convidados estavam, além de Shelley, Mary Wollstonecraft Goldwin, Claire Clairmont e John Polidori. As histórias começaram a ser escritas naquela noite e somente duas ganharam relevância após o encontro, uma delas fora escrita por Mary Goldwin, que mais tarde se casaria com Percy Shelley, e era intitulada Frankenstein. A obra se tornou extensamente popular, pois narrava um cientista que buscava descobrir como reanimar um corpo morto e quando conseguiu, este se torna um monstro, mas somente da ideia de infringir todas as leis da natureza, Mary Shelley, como é mais conhecida, conseguira imputar no imaginário humano a possibilidade de que a ciência era capaz de tudo, até mesmo dar vida aos humanos.
Outro membro da reunião que teve certo sucesso com sua obra foi John Polidori que escreveu o primeiro romance The Vampyre. A obra foi publicada em 1819 no New Monthly Magazine[8], e foi a primeira a gerar interesse dos ingleses pelos vampiros, antes somente interessantes para poetas. The Vampyre se tornou peça teatral na França e incentivou outros escritores a criar obras literárias sobre vampiros, como James Malcolm Rymer, que em 1840 publicou Varney, the Vampyre, e Joseph Thomas Sheridan Le Fanu que em dezembro de 1871 iniciou a publicação de Carmilla na revista Dark Blue[9] em quatro partes.
Carmilla contava a história de uma vampira que atormentava uma jovem e foi esta história a principal incentivadora para a criação de Drácula, pois depois de lê-la, Bram Stoker teve um pesadelo e iniciou o projeto para um livro sobre vampiros.
Impressionado com a abordagem do fantástico pelo escritor de Carmilla, Bram Stoker, que nessa época já havia escrito livros adultos e infantis, decide iniciar uma pesquisa.
Conforme descoberto pelo editor e pesquisador Marcos Torrigo e citado por ele na Introdução do livro “Drácula”, Bram Stoker aparentemente fez parte da Hermetic Order of the Golden Dawn[10], que buscava respostas sobre o imaginário que permeava o século XIX, e que possuía documentos que poderiam ser associados a Vlad Dracul[11], pai de Vlad Dracula, personagem-título da obra de Stoker.
Em um melhor entendimento sobre isso a necessidade do uso de um personagem da história da Europa Oriental na obra de Bram Stoker, cito Sandra Jatahy Pesavento que escreve sobre o imaginário:
“(As) representações teriam, na sua concepção, um fundo de apoio na concreticidade das condições reais da existência. Ou seja, as ideias-imagens precisam ter um mínimo de verossimilhança com o mundo vivido, para que tenham aceitação social, para que sejam críveis.” (S.J. Pesavento, 1995, p.22)
Dessa forma podemos compreender que Stoker ao usar Vlad, que também era conhecido como Vlad Ţepeş[12], busca criar alguma ligação com a realidade, já que este havia sido um sanguinário guerreiro da Igreja Cristã.
Com as informações sobre a família de Vlad e seu passou, e tendo como leitura o livro The Land
Beyond to the Forest
, de Emily Gerard, que narra com detalhes os costumes e tradições da região da Transilvânia, Bram Stoker desenvolveu sua obra. Ele junta as lendas do leste europeu, o envolvimento da Igreja na perseguição a estes seres demoníacos, um guerreiro romeno que lutou contra os turcos no século XV, para criar uma obra que influenciou – e ainda influencia – muitos trabalhos voltados para este tema, criando um mito que permeia o imaginário até os dias de hoje, pois como cita Roland Barthes em seu livro Mitologias: “O mito é um sistema de comunicação, uma mensagem.” (BARTHES, 2010, p.199), e Drácula funciona muito bem neste contexto, pois passa a mensagem da existência do vampiro dentro da sociedade vitoriana, abastecida pelo imaginário do fantástico com obras como Frankenstein de Mary Shelley e O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson, que trabalham a ciência e o ocultismo lado-a-lado. Já o trabalho do mito e do fantástico desenvolvido por Bram Stoker se diferencia e dá mais destaque, pois busca em lendas que já vinham enriquecendo a literatura europeia sua base, usando uma região totalmente rica deste conteúdo, como a Transilvânia.
Bram Stoker não parece desconhecer o que criara, tanto que, com seu sócio e amigos, o ator Henry Irving, lança a peça Dracula, or The Un-dead no Lyceum Theater em 1897, no intuito de garantir os direitos sobre a obra, mas vinte e cinco anos depois, na Alemanha, o roteirista Henrik Gallen e o diretor Friedrich Wilhelm Murnau, apoiados por Albin Grau, diretor da Prana-Film, desenvolvem o filme Nosferatu, Eine Symphonie de Garuens[13]. O termo nosferatu vem do eslavo que significa portador de pragas. A locação se muda da Transilvânia para a cidade de Bremen, na Alemanha, e os nomes dos personagens se alteram, como Drácula passa a se chamar Conde Orlock, mas o filme é nitidamente baseado na obra de Stoker, o que trás problemas para a
película, que sofre um processo de direitos autorais e é ordenado que todas as cópias sejam queimadas, alimentando ainda mais o mito sobre Drácula.
O que alimenta o imaginário acerca de Drácula são todos os trabalhos midiáticos desenvolvidos com base na mitologia por trás da obra, como o sol, o espelho, os objetos religiosos (no plural mesmo), alho, rosas silvestres, sendo que alguns desses já foram desenvolvidos para o cinema, como o sol.
O mito do vampiro ficou mais enriquecido após a obra Drácula, escrita por Bram Stoker, e se tornou um fenômeno, mesmo tendo anteriormente escritores do mais diversos, se baseando neste folclore do leste europeu. Desmentindo Davanzati, podemos ver, com o crescente de obras sobre vampiros, que a influência do mito vai além do imaginário de um povo iletrado e camponês, podendo enriquecer-se na mente até mesmo de eruditos e assim construindo um mundo fantástico.

Referências bibliográficas:
BARTHES, Roland. Mitologias. 5 ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
MCNALLY, R. T.; FLORESCU, R. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
MELTON, John Gordon. O livro dos vampiros: A enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil, 2003.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Em busca de outra história: Imaginando o imaginário. Revista
Brasileira de História. São Paulo, v. 15, n. 19, 1995.
STOKER, Bram. Drácula. São Paulo: Madras, 2002.

[1] Termo servo-croata para definir vampiro.
[2] Temor mórbido de um mal desconhecido (HOUAISS).
[3] Dissertação sobre vampiros.
[4] Vampiro, em italiano.
[5] Nome dado ao vampiro pelos bielorrussos, tchecos e eslovacos.
[6] Dissertação sobre as aparições de anjos, demônios, dos espíritos e fantasmas e vampiros na Hungria, Boêmia, Morávia e Silésia.
[7] MELTON apud CALMET, 2003, p. 223.
[8] Revista inglesa criada por Henry Colburn em 1814.
[9] Revista inglesa criada por John Christian Freund em 1871.
[10] Ordem fundada em 1888 por Samuel Liddell MacGregor Masters que estuda ocultismo.
[11] Nobre que se tornou membro da Ordem do Dragão em 1431.
[12] Vlad, o Empalador, em romeno.
[13] Nosferatu, Uma sinfonia de horror, de 1922.
Seminário “O fascínio pelo imaginário e fantástico no século XIX através da obra de Drácula e a construção do seu mito”