sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Odal Ortuo Od - Segunda Parte

Segue a continuação da primeira aventura de Joshua e Miguel...
Antes leiam a primeira parte. Espero que gostem!
A vila era conhecida como Aiarp e era um enorme contraste com o terreno árido, do qual eles vinham, parecendo algo impossível. Uma grande extensão de mar surgia no horizonte, haviam árvores, gramíneas, diversos tipos de plantações, mas tudo a um limite, como se separasse a região desértica da vila.

Falando praticamente sílaba por sílaba, Joshua perguntou a Ocit, por que chamavam-na de Aiarp, ele apontou para o extenso trecho de água e disse:

- Porque Aiarp nos banha, dando comida e matando nossa sede... – sem mais o que questionar, após conseguir traduzir a resposta, Joshua começou a se concentrar nas moradias a sua volta. Eles moravam em cavernas:

- Por que cavernas? – perguntou e Ocit respondeu:

- São saturg! - Essa tinha sido fácil, mas Ocit ofereceu algo parecido com um lápis. Pegando o objeto, o rapaz ficou espantado com a criatividade:

- Que interessante, é carvão revestido com um tipo de cipó. Engenhoso! – então escreveu na madeira da carroça: - “Por que vocês moram em saturg?”, esperando Ocit ler, ouviu Miguel:

- Como aprendeu a escrever assim?

- Leonardo Da Vinci! – respondeu.

- O que tem ele?

- Nos meus estudos autodidatas de filologia, descobri que Leonardo Da Vinci tinha o costume de escrever ao contrário, então me acostumei a fazer o mesmo, pois assim posso guardar segredos, sem medo de alguém tentar ler. – Disse. Ao perceber que Ocit terminara de ler, lhe entregou o objeto de escrita, esperando a resposta. Com um olhar de desaprovação, ele sacou um bolo de folhas juntadas por um tipo de resina natural e indagou:

- Por que não me pediu o caderno antes? – o nível de vergonha chegou ao extremo em Joshua. Avaliara que, por eles morarem em cavernas, tinham um modo rudimentar de escrever, se expressando em paredes ou em qualquer lugar que pudessem se entender, mas percebera tarde demais que as tábuas da carroça não possuíam nada escrito, a não ser por ele.

Após escrever em uma das folhas, Ocit a arrancou cuidadosamente e entregou à Joshua, que leu em voz alta:

- “Saturg são as moradias que Arret nos deu. Ela é a deusa-mãe, que nos dá o que comer como Aiarp. É a força mantenedora, que unida a Uec, cuida de nós. Los e Aul são seus filhos que dividem o tempo, mantendo o equilíbrio”... – em um tom sarcástico, Miguel falou:

- Não servem pra você, Joshua, eles têm uma religião...

- É mais que isso, Miguel. – Disse o jovem, ajeitando os óculos. – Apesar de um intelecto avançado, eles ainda possuem a crença de que o solo e o firmamento, acima de nossas cabeças, são deuses. Estamos numa comunidade politeísta, eles crêem que tudo a volta deles são divindades, como Aiarp, que é mais do que o nome da vila deles...

- Aiarp? – retrucou Ocit, ao entender o nome, e voltou a escrever. Achava aquilo trabalhoso, mas estava gostando de poder se comunicar com os estrangeiros. Ao terminar, entregou uma nova folha a Joshua:

- O que diz aí, agora? – questionou Miguel.

- Ele só repete e afirma que Aiarp, como Arret, lhes dá comida e cessa a sede. – responde Joshua, e pensando no que falar, arranhou palavras inversamente:

- Quem é o líder? – Aquela conversa, próximo a carroça, chamou a atenção dos outros moradores. Uma mulher saiu da aturg que eles pararam na frente e falou com Ocit:

- Quem são estes gigantes, marido? – Ele a beijou e disse:

- São estrangeiros, esposa. – Pediu a folha a Joshua e escreveu no verso: - “Essa é minha esposa, Aivalf”, e entregou para o rapaz, que tornou a ler em voz alta, para que o primo soubesse de tudo. Vendo a atitude do marido, Aivalf o interroga:

- Desde quando você gosta de escrever, marido? – Percebendo a aglomeração, Ocit chama os três para entrarem. Joshua era mais alto que Ocit e Aivalf, mas Miguel era bem mais alto que ele, o que parecia para os diminutos seres, igual um gigante. Com seus 1,78 m, Miguel ultrapassava Joshua em dez centímetros, então foi certo incomodo para ele, mais do que para seu primo, entrar na aturg. Ao entrarem, Joshua reparou na quantidade de espaço que a moradia possuía, e como fora aproveitado. As estalagmites foram transformadas em locais para se sentar, coberto de almofadas dos mais diversos tipos e tamanhos. Eles tinham muitos enfeites, com pele de animais e, no meio daquilo tudo, eles tinham uma fonte natural, que caía dentro de uma piscina que não transbordava o que Joshua desconfiou fazer parte de um leito que deveria ir até o mar ali próximo, fazendo um processo de reciclagem natural da água. Olhou para Miguel, que parecia espantado com aquilo tudo:

- Meu filho, Onurb – falou Ocit, colocando a mão sobre o ombro de um jovem, que tinha sua altura, mas aparentava ter doze anos. Fez um gesto para ficarem a vontade e entraram mais no fundo da aturg, com o filho e a esposa.

Miguel correu à fonte e colocou a mão embaixo:

- É fria... – encheu a mão e bebeu. – e parece fresca, doce. Podemos bebê-la! – Joshua se aproximou do primo e fez o mesmo. Beberam o bastante para saciarem a própria sede, então Miguel foi em direção do sofá de pedra e sentou sobre as almofadas:

- Caramba, Joshua, estas almofadas são muito macias. – pegou uma na mão e apertou. – São feitas de pena! – Então surgem Ocit e Onurb, fazendo Miguel se levantar no salto. Gesticulando para que se sentissem a vontade, os anfitriões entregaram uma folha escrita a Joshua. Se sentando novamente, o rapaz pergunta ao primo:

- O que eles escreveram?

- “Somos uma família humilde, vivemos do que Arret nos dá para comer, assim como Aiarp, que também supre a nossa sede. Eu, Ocit e meu filho, Onurb, os levaremos até o Dono”... Dono? Ele têm um dono?

- Talvez seja como aturg ou mesmo o nome deles, então seria... Onod? – Falou Miguel, levantando-se do sofá e indo em direção ao primo.

- Você deve estar certo Miguel... – afirmou Joshua. Pediu o lápis a Ocit e escreveu: - “Está bem, mas não nos importamos com quantidade ou qualidade, e sim com hospitalidade. O importante mesmo é que vocês têm o suficiente para si. Se puderem nos ajudar, ajudaremos vocês”, entregando para Ocit, que leu e sorriu humildemente, sacudindo a cabeça em afirmação:

- O que você escreveu? – Questionou Miguel, mas Joshua ignorou e disse:

- Bem, agora vamos até o Onod! – convidou o primo, indignado por não obter uma resposta, e os dois moradores daquela aturg para irem até seu próximo destino.

Ao saírem pela porta, aparentemente a vila inteira estava ali. Abrindo caminho entre eles, um homem de voz grave e rouca, chegava gritando:

- Deixem-me passar! Deixem-me passar! – Era um homem atarracado, com uma aparência robusta, mas apesar do seu tamanho, era mais alto que Ocit.

As definições de altura eram muito estranhas, pois todos eram mais baixos que Joshua, que ainda era dez centímetros mais baixo que Miguel, transformando este em um gigante entre todos:

- O que é isso Ocit? Quem são essas pessoas? – resmungou Solrac.

- São estrangeiros Onod. Encontrei-os perdidos em Otresed, quando eu voltava de Opmac... – Joshua e Miguel não entendiam nada, por mais que prestasse atenção na conversa, as palavras fluíam rapidamente:

- Como nos trás gigantes até o povoado, quando o Espilce está para acontecer? – a palavra foi ressaltada, chamando a atenção de Joshua, que conseguiu traduzi-la como eclipse e pensou: - “Por que temem a um eclipse?”, mas continuou a prestar atenção na conversa, para ver se conseguia captar mais alguma coisa:

- Eles pediram rendição e foram bem simpáticos, apesar de discutirem muito entre si. O maior não entende nada, mas o menor é bem inteligente, como a aiceforp diz. – Outra palavra se destaca e é traduzida facilmente por Joshua, profecia, então ele formula bem a pergunta a fazer para Ocit:

- Que profecia, Ocit? – mostrando a palma da mão aberta, em sinal de espera, para Joshua, o pequeno homem continuou sua conversa com seu líder:

- Estava levando-os ao honorável Onod, mas ele veio até nós! – concluiu, se curvando enquanto falava, em sinal de reverência. A curiosidade de Joshua parecia fervilhar dentro dele, mas Miguel parecia intrigado por perceber a ansiedade do primo, o que demonstrava que ele entendera alguma coisa daquela conversa:

- Joshua, o que você entendeu desta conversa toda? O que você perguntou para eles, que ficou sem resposta?

- Somente duas palavras e em frases diferente, vindas cada uma de cada um deles...

- Quê?

- Cada um deles falou algo, que consegui entender uma das palavras, que eles ressaltaram. – Disse. – Eclipse e profecia... Mas não imagino o sentido que elas têm...

- O que eles estão falando? – resmungou Solrac.

- Também não faço a mínima idéia, Onod.

- Eu sei, - disse uma voz no fundo da multidão, que foi se aproximando. – lembra papai, que eu estava aprendendo uma língua nova com o professor Ocirederf. Ele me ensinara a inverter nossas palavras, tanto na escrita, quanto na fala. – Uma linda jovem surgiu do meio da multidão curiosa:

- Alicsirp, minha filha, será que poderia nos dizer então os que eles falam?

- Eles tentam nos entender, como nós a eles. Estão tão curiosos quanto nós. – Disse isso, encarando Joshua, e então falou, de forma completamente compreensível para Joshua e Miguel. – Olá, meu nome é Alicsirp, filha do Onod Solrac, e futura Anod de Aiarp.

Joshua parecia fascinado com aquilo, mas Miguel sentindo aliviado, foi o primeiro a falar:

- Pô, finalmente alguém que fala certo...

- Entendam, para nós, vocês falam errado. – Ela respondeu. Sua voz era aveludada, ressoando docemente aos ouvidos de Joshua. Ele a observava, ela tinha belos cabelos compridos e anelados, que atingiam seu ombro, seu rosto tinha um desenho suave, numa pele num tom amorenado. Seus olhos tinham a mesma tonalidade dos dele, como se fosse um olhar no espelho. Ela possuía também o mesmo olhar de Joshua, de busca de conhecimento, de fascínio:

- Como aprendeu a fala igual a nós? – perguntou, afinal.

- Tive um professor particular, Ocirederf, tinha uma teoria de que existem outros povos além deste plano que estamos. Ele então tentou aprender a língua dos outros povos e as invertia, assim sua capacidade de tipos de falas se triplicava. Ele me ensinou tudo, sempre afirmando que uma Anod deve ter conhecimentos além das fornteiras no tempo e no espaço. Na verdade, nunca pensei que viria a ultilizar este tipo de língua, mas parece que estava errada...

- Você fala muito bem...

- Estudo idiomas desde nova. Sou preparada desde cedo para ser a futura Anod. – falou, encarando fixamente Joshua. E vocês, de onde são? Como chegaram aqui? – Se interpondo, Miguel falou:

- Caramba, pergunta isso não, que ele vai enrolar, fazendo observações científicas...

- Eu adoraria ouvir. – Falou, deixando Miguel no meio de uma fala. Continuou olhando para Joshua. – Conte-me tudo, adoraria aprender.

Exatasiado e fascinado, Joshua sentiu a presença da mão dela, tocando a sua e segurando-a:

- Sua mão é macia. – Ela disse.

- A sua também. – Exclamou, timidamente. Vendo o rosto dela corar e um leve sorriso se formar, ele sorriu também. Então ela disse, na própria língua:

- Vou conversar com este estrangeiro, depois lhes comunicarei o que conversamos... – Solrac se aproximou dela e disse:

- Cuidado minha filha, não podemos confiar nestes gigantes, eles não conhecem nossas tradições...

- Meu pai, eu sei como me cuidar. Quando terminar minha conversa com ele, lhe contarei tudo. – Enquanto isso, Miguel falava com Joshua:

- Qual o lance das mãozinhas dadas?

- Não sei, ela deve querer conversar comigo em particular, acredito. A medida do tempo que passamos aqui, começo a compreender um pouco mais do jeito deles falarem...

- Aê Joshua, chega de blá-blá-blá... Ela pode ser a mó gatinha, mas cuidado. Não conhecemos nada dos hábitos deste pessoal, eles falam super-diferente, não nos entendem e nem nós a eles, aí aparece uma mina mó linda, sei não... Sinistro demais!

- Acredito que você está desconfiado a toa. Pelo menos, agora, posso descobrir mais como aquelas duas palavras se encaixam... – ela se interpôs entre os dois:

- Vamos?

- Peraê, aonde cês vão? – retrucou Miguel, preocupado.

- Precisamos conversar, em particular. – Ela respondeu, puxando Joshua e deixando Miguel atordoado:

-Peraí, faz isso não! Ô Joshua! Joshua, num me deixa aqui sozinho, não! Pelo menos você escreve, como vou fazer pra me entender com esse pessoal? – Só que era tarde e ele viu o primo pelas costas, tomando distância. Apesar dos gritos e berros, que levou a todos os moradores olharem estranhamente para ele, ficou no vácuo e completamente solitário, no meio de tantas pessoas da vila. Olhou para eles, que os observava, e disse:

- Let’s play?

Joshua e Alicsirp se distanciaram bastante da aglomeração, indo parar as margens de Aiarp. Que quebrava em pequenas marolas, com espumas cintilantes.. Sentaram-se no solo fofo e deixaram os pés, que eles descalçaram, serem molhados pelas quebras d’água. Sentindo uma vontade crescente em interrogá-la, Joshua foi o primeira a quebrar o silêncio:

- Por que somente eu? Meu primo também tem direito de participar desta conversa...

- Sim, eu sei, mas de acordo com Ocit, você é o mais inteligente dentre os dois. Ele já deve ter lhe contado algo sobre nossas crenças, não?

- Sim ,ele mencionou sobre Arret, Uec, Los e Aul, mas durante a conversa de seu pai com Ocit, consegui identificar duas palavras, espilce e aiceforp, o que significam?

- Bem, não sou tão crente quanto o resto do povo, mas vou lhe contar nossa mitologia...

- Você não é tão crente?

- Na verdade, não acredito no mesmo que eles. Ocit e todo o povo acreditam em uma aiceforp que já foi desmistificada pelo professor Ocirederf, só que ele foi considerado um descrente, foi xingado de oxurb e sacrificado.

- Sacrificado? – Joshua engoliu a seco, assustado. – Mas por que fizeram isso?

- Bem, para você entender melhor, preciso lhe contar nossa mitologia: - “Tudo se inicia com Uec. Quando este decidi se unir a Arret e untar os dois reinos, geram filhos, Los e Aul. Los se casa com Aid e Aul com Etion. Los, sempre fiel, nunca deixa Aid sozinha, enquanto Aul, sempre larga Etion só, o que a leva a ter um ciúmes doentio. Quando Aul reina sobre Etion, com seus filhos, salertse, chamamos de Aralc Etion, mas quando Aul desaparece do firmamento, deixando Etion sozinha com seus filhos, chamamos de Arucse Etion. Só que, de vinte em vinte anos, Etion explode de ciúmes, e cobre Aid e expulsando Los, achando que Aul é seu amante, e solta seus sovroc, causando o Espilce.

- Um eclipse solar!

- Um o quê? – perguntou Alicsirp, surpresa.

- Um eclipse solar é um acontecimento muito raro de se acontecer, podendo variar de tempos em tempos, mas é o momento em que o satélite natural que rodeia seu planeta se interpõe diante da estrela, causando uma enorme sombra, ou melhor, uma escuridão temporária. Os eclipses podem ser totais, onde a escuridão é plena, parcial, onde somente um canto da estrela é tampado, ou anular, onde se cria um anel de luminosidade em volta do satélite natural, no caso de vocês Aul.

- Fascinante! – Ela exclamou. – Você tem a mesma noção de Ocirederf... Mas isso não explica os sovroc!

- Devem ser morcegos, – pensou bem na resposta. – ou melhor, sogecrom.

- Sogecrom?

- Sim, eles devem sair mais cedo em período de eclipse... Isso sempre acontece?

- Não sei, pois nunca sai durante o Espilce, e nunca foi permitido a ninguém fazê-lo. Só que, dias atrás, Ocirederf testemunhou ter saído durante o último. Foi no dia em que eu nasci. Ele disse que não era nada demais, somente um breve desaparecimento de Los, depois ele retornava, como se nada tivesse acontecido. Só que a relatos nos livros antigos que falam sobre ataques de animais enormes, mas nunca pensei em sogecrom. Os que eu vi, durante o dia, eram pequenos...

- Mas com as asas abertas, eles aumentam a própria envergadura, parecendo maiores do que são. – argumentou. Alicsirp estava encantada com Joshua, completamente extasiada com todo seu relato. Ele a lembrava tanto de seu mestre, por quem um dia revelou uma paixão. Ocirederf, meio encabulado com tal revelação, lhe disse:

- “A confusão que faz é completamente natural. Sinto-me honrado com tal revelação, mas acho que está confundindo os sentimentos. Você é jovem, Alicsirp, está em período de descobertas, um dia aprenderá a entender melhor seu sentimentos. No momento acredito que esteja confundindo o seu sentimento com admiração. Um dia, encontrará um jovem, da sua idade provavelmente, no qual sentirá esta paixão, mas talvez não saiba identificá-la, e confundirá com admiração”. – Aquela lembrança veio como um baque para ela, tanto que Joshua se assustou com o olhar perdido dela:

- Aconteceu alguma coisa? Você está bem?

- Ele rop adanoxiapa uotse? – falou, num murmúrio e rapidamente.

- O quê você disse? – retrucou Joshua, que não entendera nada.

- Não... Nada... Estou bem, sim, é que me lembrei de algo que meu professor me falou...

- Você gosta muito dele, não é?

- Sim, - disse de forma sonhadora. – eu tinha uma grande admiração por ele. Tudo que ele estudava, o que ele aprendia, sua sabedoria... Mas era só isso. – E sentiu um frio na barriga, ao confirmar.

- Que bom. – Respondeu Joshua, sorrindo. O sorriso dele fez o rosto dela corar e esquentar, o corpo começou a formigar:

- No que você acredita, Joshua? – perguntou com uma voz melodiosa, que até mesmo ela estranhou.

- Eu... Bem, num contexto geral, acredito que sempre existe uma explicação para tudo...

- Não é disso que estou falando. – Falou, meio contrariada, mas retornou rapidamente ao tom anterior. – Você acredita que existe uma pessoa para cada um? Romances espontâneos? Amor à primeira vista?

- Por que está perguntando isso? – retrucou Joshua, sentindo a boca secar.

- Não, nada... – respondeu, como se despertasse de um transe. – É que, há muito tempo atrás, meu professor soltou a teoria sobre amores repentinos, e eu queria se você tinha a mesma teoria. – Achando aquilo sem cabimento, Joshua preferiu ignorar e retomar a conversa anterior:

- Bem, mas você não falou sobre aiceforp. O que isso tem haver conosco?

- Com vocês, não, com você! Isso é parte do mito. Dizem que um gigante, munido de enorme sabedoria, convenceria Etion de que Aul não a trai com Aid, e que era para desistir de tomar o lugar que pertence a ela, deixando-a em paz com Los. Dizendo em poucas palavras, o Espilce acontecerá dentro de três ciclos e você será nosso salvador, expressando seu feito na pedra de frente à alupúc, onde nos escondemos. – Joshua ficou estático com aquilo. “Ser salvador” não estava nos objetivos dele.

Levantaram-se. O Los já havia se posto, dando lugar a Aul, Etion e Salertse, seus filhos. Eles voltaram ao centro, que já estava vazio. Alicsirp retorna ao seu lar, enquanto Joshua volta para a aturg de Ocit, onde Miguel o espera, sentado na carroça:

- E aí?

- E aí, o quê?

- Se beijaram?

- Fala sério, Miguel?! Nós fomos lá para conversar, não para paquerar...

- Ah sei... Então tá, ô virgem, sobre o que conversaram? Ela falou o que queria dizer as tais palavras, no contexto geral?

- Sim, fazem parte de um crença deles, um tipo de profecia. – falou, enquanto se sentava ao lado do primo:

- Então conta aí! – Exclamou Miguel e Joshua iniciou o relato, de tudo que Alicsirp havia lhe falado:

- Você, herói e salvador? – ponderou Miguel, em tom de surpresa, ao fim da revelação, e então argumentou, pesadamente. – Cê tá ferrado, cara! Só espero que estejamos de volta a nossa Terra, quando daqui a vinte anos, eles perceberem que vocÊ não fez nada...

- Eu não quero estar aqui amanhã! – exclamou Joshua, abruptamente. – Não quero ser a pessoa a mentir para este povo dentro de três meses, e nem quero ser morto, por tentar revelar a verdade. Amanhã escreverei a Ocit, pedindo para nos levar aonde nos encontrou.

- Mas por que isso? – Pergunta Miguel, espantado com a reação do primo.

- Pra que ficarmos mais aqui? Você já teve sua aventura, até de gigante eles te chamaram, e eu tenho fatos e relatos suficientes para o resto do meu período na universidade. Poderia fazer uma defesa de doutorado com o que testemunhamos aqui. O que mais temos para fazer?

- E a... Como é mesmo o nome dela?

- Alicsirp?! O que tem ela?

- Nomezinho complicado... – comentou Miguel, em voz baixa. – Olha, posso não entender esses nomes ou mesmo o jeito de escrever ou falar desse povo, mas quando pinta um clima, dá pra sacar...

- Que clima? – retruca Joshua, com o rosto esquentando. – Não sei do que você está falando...

- Ah Joshua, cê acha que eu sou otário? Eu vi a tua cara quando aquela moça, a Acipre... sei lá das quantas, pegou na tua mão! – respondeu Miguel, fazendo Joshua corar. – Sem contar que a pergunta dela, sobre amor à primeira vista...

- Ela perguntou sobre romances espontâneos... – argumentou, pois não contara sobre a outra frase, guardando para si.

- Dá na mes ma! – garfou Miguel, percebendo o acanhamento do primo. – Você sentiu o estômago embrulhar? Sua cabeça girar? Seu corpo suar frio? – Joshua tenta falar, mas Miguel continua. – Não tenta argumentar sobre o que você entende pouco... Aí, encontrei uma coisa da qual você não entende nada, sentir algo por alguém...

- E o que você entende disso? – falou Joshua, nervosamente e sem pensar. – O único relacionamento sério que você teve foi... foi... – preferiu não continuar, pois percebera a besteira que falou. Miguel então retrucou aborrecido:

- Continua... Vamos, fala de Cynthia! Vamos ver o quanto você sabe sobre relacionamento...

- Foi mal, Miguel, eu não quis te ofender... – falou Joshua, tentando se desculpar, mas Miguel já saltara da carroça, lhe dando as costas:

- Melhor entrar pra dormir, – disse, numa voz soturna. – acredito que teremos um dia longo amanhã. – Seguiu em direção à aturg de Ocit e entrou.

Joshua, por um momento, esquecera totalmente do sofrimento que o primo passara com a ex-namorada. Raramente eles falavam sobre assunto, mais raro ainda era mencionar o nome dela. Cynthia e Miguel haviam começado o namoro na quinta série e continuaram durante todo o ensino fundamental. Faziam planos de viajar juntos e cursar o ensino superior fora do estado, talvez até mesmo fora do país. Mas um desastre aconteceu na vida de Miguel, a avó dele e de Joshua, havia adoecido seriamente e internada. Aquilo abalou toda a família, piorou mais ainda quando ela faleceu. Sua mãe ficou completamente arrasada e ficara inviável abandonar a família, só que Cynthia não queria saber. Terminou com Miguel, dizendo que eles tinham incompatibilidade de prioridades, arrumou as malas e se mudou antes da conclusão da oitava série.

Miguel ficou e fez o vestibular. Dá última vez que tiveram notícias dela, estava trabalhando em uma loja de roupas e namorando um artista performático, em Nova Iorque.

Joshua sentiu-se mais culpado ainda, depois de lembrar daquele fato e entrou, cabisbaixo e cheio de remorso.


A Terceira parte já está disponível também, caso queiram lê-la.

Um comentário:

Luciana disse...

Olá... como comentou anteriormente na primeira parte, o despojamento e a coloquialidade contracenam. Isso tem muito a ver com o público alvo, não? Atualidade...Imagem escrita... a distribuição da carga pelo total, sensações...hum ... aprendo rápido... foi uma coincidência escrevi esta semana um texto inicial de um conto num teste que fiz em um novo blog que comecei... eis o link, puxa é muita coincidência... http://www.contosombrio.blogspot.com/ ... foi um escrito aleatório para um teste de layout ...