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quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O Espelho


Um dia, ao levantar, fui como de costume ao banheiro, tomei um banho e quando terminei, me dirigi ao espelho para me pentear e, quando comecei me deparei com a imagem de uma mulher sobre meu ombro esquerdo, mas quando me virei não havia ninguém. Achei estranho, mas não dei importância. Me arrumei e sai para trabalhar. Enquanto caminhava, reconheci a pessoa que havia visto no espelho e ela vinha na minha direção.

Quando nos cruzamos, cumprimentei-a e prossegui, me sentindo estranho por ter feito aquilo, pois nunca havia tido tal reação com pessoas estranhas.

No dia seguinte, segui com minha rotina  e, novamente, ao me olhar no espelho, vi a mulher sobre meu ombro esquerdo. Aquilo era assustador, mas eu precisava sair para trabalhar. No caminho, pensando no que havia acontecido, bem distraído, ouvi uma voz: “Olá, como vai?”, era ela falando comigo, e eu lhe devolvi o cumprimento, seguindo pelo meu caminho, mas no passar do dia não consegui me concentrar no meu trabalho, pensando nela e, com isso, me lembrei que sempre cruzava com ela no caminho para o trabalho.

Quando sexta-feira chegou, uns amigos me chamaram para sair e eu fui com eles em um barzinho. Contei-lhes a minha história e, enquanto uns ficaram assustados, uma amiga minha disse que a conhecia. Aquilo me surpreendeu, mas eu estava determinado a conhecê-la, então pedi que nos apresentasse. No outro dia, recebi um telefonema, onde minha amiga marcou para sairmos à noite, onde nos apresentaria. Passei o dia ansioso e, à noite, me arrumei e corri para o encontro. Chegando lá, minha amiga nos apresentou e começamos a conversar, para nos conhecer. Ela então revelou que estava noiva e aquilo foi um balde de água fria sobre mim. Então, do nada, ela me disse: “Espere, eu gostaria de te apresentar alguém”. Me segurou na mão, me levando até uma outra mesa, onde estava uma outra moça, que ela me apresentou como seu amigo.

“Sente-se!”, ela disse. “Vou deixar vocês conversarem”, e se retirou para a mesa onde estava minha outra amiga. Timidamente iniciamos a conversa e percebemos ter muito em comum. Morávamos perto um do outro, seguíamos o mesmo caminho de trabalho. A conversa estava agradabilíssima, até que, em determinado momento, ela disse: “Eu te conheço do meu espelho”. Aquilo foi surpreendente. Então eu disse que algo semelhante acontecia comigo, mas era a amiga dela que eu via. Foi quando ela revelou: “Todas as manhãs, eu vou ao banheiro e, quando me olho no espelho, vejo aquela moça. Sempre cruzava com ela, no caminho do trabalho, até que decidi abordá-la. Foi então que ela me convidou para vir aqui, hoje, e nos apresentou. Foi quando percebi que era você que eu, verdadeiramente, via no espelho”.

Eram impressionantes as coincidências quanto ao espelho e à história. Eu pedi a ela um minuto e fui à procura daquela moça misteriosa, mas somente encontrei a mesa onde ela e minha amiga estavam, vazia. Elas haviam ido embora. Mas, por mais que eu não soubesse quem ela era, de onde ela viera, eu estava feliz dela ter me apresentado meu verdadeiro amor, meu outro lado do espelho.

terça-feira, 2 de março de 2021

O Pastor

 Durante anos eu fui um leitor ferrenho de romances de ficção e um desses foi O Alquimista, de Paulo Coelho.

Eu era um assíduo leitor de Paulo Coelho, que comecei a ler graças a minha amiga Daniella Navarro, mas deixei de lado tem ano. Só que, a influência de O Alquimista foi grande na minha vida. Então, determinado dia, decidi escrever o conto que vocês lerão abaixo (com algumas modificações, pois eu reescrevi ele). Boa leitura!

O Pastor


Um jovem pastor sempre conduzia suas ovelhas do campo para a cidade mais próxima, onde ele tosquiava e vendia a lã delas. Isso garantia sua sobrevivência por uma longa parte de seu ano, até a próxima safra. Na cidade, ele já se supria de mantimentos para sobreviver ao inverno. No mercado, sempre quem lhe atendia era a filha do dono. Uma jovem de beleza contagiante e um sorriso de despertar o coração do mais frio guerreiro. Ela sempre o tratava com afago e carinho, sempre lhe perguntando como estavam os anhos e se o seu rebanho tinha dado lá o suficiente para seu sustento.

A preocupação da jovem parecia tão legítima, que o jovem pastor estava encantado com ela. O senhor que tosquiava suas ovelhas e carneiros era seu único conhecido na cidade. Ele não o chamava de amigo, pois não tinha um laço mais próximo com aquele homem, mas era com quem conversava enquanto ele trabalhava. Sempre perguntava ao senhor se ele conhecia algum pretendente para a jovem filha do dono do mercado, e a resposta era sempre a mesmo, não, pois os homens ficavam surpresos e perplexos com a jovem, devido sua capacidade de articular e isso os intimidava.

O jovem pastor não se sentia intimidado, mas era tímido demais para abordá-la.

Certa vez, enquanto desfrutava de um pouco de schrobbeler[1] e uma fatia de pão com queijo de cabra e um pedaço de salame, na praça da cidade, enquanto esperava o tosquiar de suas ovelhas e carneiros, o jovem pastor desfrutava da leitura de um livro que ele sempre carregara com ele. Já o havia lido inúmeras vezes àquele livro, mas era sua única distração durante o pastoreio, nas noites do campo em que passava. Ao seu lado estava seu fiel amigo, um pastor holandês, que sempre o acompanhava e cuidava das ovelhas e carneiros, enquanto ele descansava. Então ouviu uma voz doce questioná-lo sobre o nome do animal. Ele levantou a cabeça do livro e viu o admirável e maravilhoso semblante da filha do dono do mercado. Aos raios do sol tardio, ela era ainda mais admirável. Sua pele alva, brilhava à luz do sol. Seus olhos pareciam duas pedras de topázio azul das mais lindas e seus cabelos negros reluziam de forma hipnotizante e, quando ela os mexia, exalava o mais inebriante odor de tulipas na primavera. Ela se sentou ao seu lado e antes que pudesse dizer o nome do seu companheiro, ela perguntou o que ele lia, então ele lhe permitiu que ela visse o título do livro. Mesmo com a capa desgastada do tempo, ela viu e se admirou, pois já havia lido àquele livro. Ela então falou de outros livros que lera, pois seu pai lhe dava tal liberdade, coisa que outras moças não tinham.

Como mercador, seu pai tinha de viajar as outras cidades e negociar com as pessoas as mercadorias para vender e ele sempre trazia um livro para ela, o que a fazia ter um conhecimento amplo sobre várias coisas. Ele já tinha lido desde romances de ficção até livros mais didáticos. O jovem pastor não entendia nada do que ela dizia, mas estava admirado demais para dizer que era leigo nos assuntos que ela tanto proferia. Só pensava em se casar com ela e criar uma família.

O fim da tarde chegava e a jovem então se despediu dele, beijando sua face de forma graciosa. O rapaz estava interessadíssimo nela e, quando voltou ao seu conhecido para pegar o dinheiro da lã, este disse que observou aos dois. Falou que ele tinha sido o primeiro a dar total atenção à jovem, pois nenhum outro ousara algo assim. O jovem pastor não sabia o que dizer, então pegou o dinheiro, alugou um quarto para passar à noite e, após as compras, partiria cedo.

No outro dia, foi ao mercado, mas, pela primeira vez, quem o atendeu foi o dono do mercado, pois a jovem ainda repousava. Comprou seus mantimentos, alugou uma carroça para levar as compras e partiu. Não esperava a hora de poder voltar para a cidade, pois pretendia propor algo à jovem.

O ano passou. Como o jovem pastor era sozinho e a maior parte do seu suprimento era alimento que perdurava doze meses, além da ração para seus caprinos e comida para seu cachorro, ele não precisava retornar à cidade. Quando chegou a época do tosquiar de suas ovelhas e carneiros, o rapaz então, ansioso, voltou à cidade, mas algo estava diferente, pois as ruas estavam vazias. Quando chegou no local para tosquiar suas ovelhas e carneiros, o seu conhecido também não estava lá. Como tinha liberdade para poder deixar seus caprinos em um cercado, ele o fez e se dirigiu ao centro da cidade, onde uma grande aglomeração estava saindo da igreja local, pois um casamento estava ocorrendo ali. Ao chegar mais, perto pensando que aquele seria o local ideal para dizer à jovem filha do dono do mercado o que sentia, ele a viu saindo da igreja, de vestido de noiva, com um homem bem-apessoado ao lado. Era um homem mais alto do que ela, com a pele bronzeada, forte e com aparente vigor. Ouviu comentários que diziam que a moça dera sorte, pois casara-se com o filho de um grande fazendeiro, que tinha uma grande produção de leite e vendia para fora do país, até. Mas o jovem não se importava com aquilo, somente olhou para o sorriso no rosto dela e o sorriso no rosto dele e pensou que ali poderia estar ele.

Amoado e triste, o jovem pastor foi para a praça central e testemunhou, a distância, a jovem saindo com seu esposo em uma carroça com uma comitiva logo atrás, indo à festa que estava planejada. Sabia que não teria como sair dali naquele dia, pois precisava do dinheiro do aparo de suas ovelhas e carneiros para passar mais um ano. Sentou no banco da praça e ficou ali, remoendo seus sentimentos, somente tendo seu cachorro como companhia. Pensou até em alugar um quarto para ficar distante daquilo tudo, mas pensou que a dona da pousada também deveria estar naquela comitiva para a festa. Então, de repente, ouviu uma voz que lhe perguntou por que não participava dos festejos do casamento.

A jovem, que estava à sua frente, também tinha a pele bem bronzeada, os cabelos eram cachos amorenados que caíam sobre seus ombros. Suas vestes eram diferentes das vestes que estava acostumado a ver das jovens que ali perambulavam. Ela se sentou ao seu lado e voltou a questioná-lo, então ele lhe disse que não havia motivos para festejar, pois a jovem que se casava era a mulher com quem ele pretendia se casar. Então a jovem lhe questionou se ela sabia disso, e ele disse que não. Aquela conversa o estava aborrecendo, pois desejava ficar ali, com sua própria raiva. A moça então lhe disse que ela também não tinha motivos para comemoração, pois o rapaz era um prometido dela. Eles haviam jurado que um dia se casariam, mas quando o pai dele enriqueceu com as vendas de leite das vacas que tinha, esqueceu dela. Há cinco meses ele havia conhecido a filha do dono do mercado e ambos iniciaram algo que terminou naquele casamento.

A jovem lhe contou que a família dela tinha carneiros e ovelhas, mas não prosperava como a família do homem que se casava naquele dia. Então o jovem pastor também disse que tinha ovelhas e carneiros e estava na cidade para poder tosquiá-las. Então uma conversa se iniciou entre ambos que perceberam ser muito parecidos entre si. Quando sentiu vontade de comer, o rapaz tirou seu pão com queijo e salame, oferecendo um pedaço à jovem, além de um cálice de licor adocicado, e ambos apreciaram juntos e continuaram a conversa.

O final da tarde chegou e o jovem pastor achou que passou muito rápido. Viu que as pessoas já retornavam para suas casas e, antes de se despedir, pediu à jovem que o encontrasse no outro dia, ali na praça. Ela não entendeu a proposta, mas aceitou o convite.

No dia seguinte, a jovem o encontrou, como combinado, e então ele lhe explicou que sua vida era complicada, pois ele morava distante e somente voltava uma vez ao ano para a cidade, mas que queria conhece-la melhor. Então pediu que ela o esperasse, pois ele gostara muito dela e não queria perde-la. Os olhos esverdeados da jovem pareciam duas jades brilhantes e ela disse que sentia o mesmo por ele e que sim, o esperaria. Então ela o beijou suavemente no rosto e partiu. Agora o jovem pastor tinha que ir até o seu conhecido para o tosquiar de suas ovelhas e carneiros. Lá ele perguntou sobre a família da moça que conhecera e o homem explicou que eles eram pessoas humildes, mas lutadoras e batalhadoras, como ele. O homem viu um brilho nos olhos de esmeraldas do rapaz e sabia que ali era nutrido uma esperança. Depois de pagá-lo, o jovem foi ao mercado e o dono lhe atendeu, fez suas compras e partiu, esperançoso que no próximo ano teria sua futura noiva à espera.


[1]  Schrobbeler - licor condimentado holandês adocicado e herbário. Tem gosto de alcaçuz como um aviso para aqueles que não gostam desse sabor.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

A Pequena Tigresa


Baagh[1] se sentia extremamente valente e amava explorar os arredores do local que sua genitora, Maan[2], construíra para ela e seus irmãos. Quando não brincava com eles, enquanto sua mãe saía para a caça, ela decidia explorar o ambiente. Seu objetivo era ser tão feroz e destemida quanto sua mãe.

Um dia, enquanto sua genitora caçava, Baagh viu, à distância, uma toca estranha e maior do que a dela, então decidiu se aproximar. Desde que sua genitora lhe permitiu sair da toca, Baagh já viu de todos os tipos de seres, mas, em geral, eles andavam como ela. O ser acinzentado, sentado na relva perto daquela enorme toca, além de não se apoiar com todos os membros, tinha uma lanugem somente no topo da cabeça e era bem pouca. Além do que, parecia bem menor do que ela. “Será que era por estar sentando?”, pensou Baagh, “E que jeito estranho de sentar”. Mas, enquanto pensava nisso, o ser estranho pareceu vê-la e, em uma linguagem estranha, chamou Baagh.

Baagh era corajosa, mas aprendera a ser precavida. Sua genitora sempre lhe disse para não se aproximar de outros seres, pois eles poderiam ser capazes de machucá-la, já que era jovem demais. Então, de forma furtiva, ela se aproximou do ser de poucos pelos. Seu cheiro era suave e o tom cinza de sua pele era diferente dos outros. Aquele ser passou as mãos em seus pelos e ela se sentia acariciada, mas de forma macia. Não era como a língua de sua mãe, quando esta lhe banhava, mas sim algo suave e delicado. Então Baagh decidiu retribuir, mas como não sabia articular com os membros frontais, igual àquele ser, decidiu fazer como sua mãe, que sempre lhe falou que uma lambida era uma forma de carinho. O sabor daquele ser era adocicado, algo que Baagh nunca experimentara antes. Quando ela terminou de lambê-lo, ouviu um grito estridente vindo dele. Ela viu que arranhou a pele daquele ser débil com sua língua. Surgiu um outro ser, saindo da grande toca, o que assustou Baagh que correu para o interior da floresta. Ela retornou para sua toca, mas preferiu não falar nada para os outros ou para sua genitora.

Dias se passaram e Baagh e seus irmãos aproveitavam o tempo livre para aprender práticas com sua mãe, além de tentar descobrir quem seria o dominador daquela tribo. Ela sempre vencia. Quanto àquela toca gigante e os seres que lá viviam? Baagh preferiu esquecê-los. Mas eles não tinham esquecido dela.

Em determinado dia, enquanto Baagh, seus irmãos e sua genitora descansavam no interior da toca, um cheiro estranho permeou o ar. Quando despertaram, parecia que Gagan[3] havia decido ao chão. Uma grande escuridão, em pleno dia, tomara a entrada da toca e sua genitora gritou para que eles corressem para fora. Então ouviu-se os estrondos. Parecia Garjan[4] rugindo com Gagan, depois de Bijalee[5] iluminar os céus, antes de Varsha[6] empapar seu corpo, mas eram mais contínuos e repetitivos. Maan, a genitora, percebeu que eles estavam cercados por algo tão iluminado quanto Bijalee e que emitia um ardor que Baagh nunca sentira antes. Mesmo com toda luminosidade, Baagh reconheceu os seres altos que lembravam o pequeno que ela encontrara. Eles apontavam, para sua genitora, objetos finos. Ela ouviu sua genitora suplicando a eles para que se afastassem e a deixassem fugir com Baagh e seus irmãos. Baagh também tentou dizer a eles que ela não havia feito por mal, então viu Maan olhar para ela de forma assustada e ela explicou o que ocorrera. Quando Maan se virou para explicar para aqueles seres o que ocorrera, Garjan surgiu daqueles objetos finos e atingiu Maan, que caiu.

Baagh já havia testemunhado o decesso, pois era algo comum matar para se alimentar. Maan sempre trazia seres abatidos para alimentar a ela e seus irmãos, então conhecia o odor que saía de sua genitora. Aquilo a aturdiu, pois não esperava algo assim. Se sentiu culpada com aquilo, mas quando viu estava cercada por aqueles seres que se apoiavam em dois membros. Ela olhou para os irmãos, acuados e temerosos. Eles também sabiam o que acontecera com Maan. Se sentindo valente e desejando proteger seus irmãos, ela avançou nos seres e com suas garras, atingiu um dos membros deles e o viu caindo então, do nada, um objeto pesado atingiu sua cabeça e ela caiu, desmaiada.

Quando Baagh despertou estava no interior de um objeto com um cheiro estranho e ranhoso. Ela passou seu membro frontal nele e o barulho era horrível e a sensação era fria. Viu seus irmãos em outras daquelas coisas, igual a dela. Com o passar dos dias, viu pessoas indo e vindo e observando a ela e seus irmãos. Um tempo depois, um outro grupo daqueles seres surgiu e pareceu brigar com os que lhe haviam capturado, então depois de um tempo ouvindo o grunhido deles, viu ela e os irmãos serem carregados dali. Não demorou muito, aqueles objetos em que estavam foram abertos e eles se viram em um maior e com mais espaço, mas ainda não era a toca deles. Seus irmãos iam e vinham e, quando chegou a vez de Baagh, ela relutou. Temia aqueles seres pelo que haviam feito a sua genitora, não queria mais proximidade deles. Ela tentou arranhar – como fizeram antes – e até morder, mas eles tinham a vantagem de serem maiores e usaram algo semelhante ao objeto que tirou a vida de Maan, mas o barulho fora diferente e ela adormeceu.

Baagh acordou momentos depois, com seus irmãos gritando por ela. Nunca se sentira assim antes. Estava tonta e mal conseguia se apoiar em seus membros. Mas aquilo não durou muito e, em pouco tempo, ela já estava bem, mas sentia uma dor perto de sua cauda. Seus irmãos falaram que sentiam a mesma dor.

O tempo passou devagar e Baagh e seus irmãos cresceram juntos. Os seres que os mantinham ali, lhes davam alimentos, mas Baagh sempre lhes falavam que Maan não toleraria que eles se acomodassem. Alguns terminaram fazendo, mas ela ainda tentava manter sua ferocidade. Sempre que os seres precisavam leva-la, a atingiam com aquele objeto que a fazia dormir.

Um determinado dia, Baagh e seus irmãos viram aquela toca abrir e eles saíram para um ambiente totalmente novo e diferente do que estavam habituados. Alguns de seus irmãos pareciam gostar do contato com os seres em dois membros, mas não Baagh, que preferiu desaparecer naquela selva e nunca mais ter contato com nenhum deles.



[1] Baagh (बाघ) = tigre

[2] Maan (मां) = mãe

[3] Gagan (गगन) = céu

[4] Garjan (गर्जन) = trovão

[5] Bijalee (बिजली) = relâmpago

[6] Varsha (वर्षा) = chuva

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O Pomar

Esta história que eu inventei, foi nos verões que passava com meu irmão e meus primos em Piúma, litoral sul do Espírito Santo, que é uma zona rural. Eu criei depois de assistir O Jardim Secreto (1993) e tentei criar uma lenda urbana sobre um pomar e, sempre que podia, contava aos meu primo Attila e meu irmão, Armando Junior. Lógico que dei uma reformulada na história, mas a ideia permaneceu. Esperem que gostem!


O POMAR

Esta é uma história que contavam na região rural, ao sul do Espírito Santo. Dois irmãos e seu primo, todos os verões, iam para uma cidadezinha bem rural. O primo destes dois irmãos tinha uma casa, que conseguia hospedar, praticamente, toda a família deles. Mas os três eram como unha e carne. Iam para o rio tomar banho, jogavam bola no areal, perto da casa e iam, caçavam passarinhos juntos, pescavam juntos e iam a chácara da vizinha desfrutar do farto pomar que ela tinha.

No pomar da vizinha tinha laranjais, limoeiros, pés de carambola, goiabeiras, pequenos – mas fartos – amoreiras, jamelões, fruta-pão, jaqueiras, cajazeiras, cajueiros, mamoeiros, cacaueiros, ananás e abacateiros. Era uma grande variedade de frutas que ela permitia que eles desfrutassem até certo horário do dia. Um dia, sentados em uma área atrás da casa, se aquecendo perto do fogão de lenha em um dia chuvoso e desfrutando das frutas que colheram antes, o mais velho dos três meninos perguntou porquê não podiam colher frutas quando a noite caía e ela lhes contou:

- Quando éramos mais jovens, eu e marido ainda namorávamos, decidimos entrar no pomar, à noite, para ficar longe das vistas de nossas famílias. Foi um grande erro, pois o lugar ganhava vida depois do surgir da lua. Sons tenebrosos podem ser ouvidos, as árvores parecem querer te engolir. É o momento de descanso delas, então não é bom interromper.

Quando voltaram para casa, os três comentavam da história que a dona do pomar contara. O mais velho se sentia confiante, dizia não ter medo de nada. O irmão dele, tentava imitá-lo, mas ouvia-se o tremular de sua voz. Já o caçula dos três não fingia a temerança e não achava certo desafiar as recomendações. Então o mais velho o chamou de medroso e disse que entraria naquele pomar na próxima noite e queria ver quem o seguiria. Seu irmão, que o admirava, falou que iria com ele, mesmo com medo. O primo deles não se sentia tão confiante para isso.

No outro dia, depois de jogarem bola com os meninos da região, irem tomar banho no rio e pescarem, o mais velho disse que naquela noite eles iriam entrar no pomar. De forma reticente, seu irmão abanou a cabeça confirmando, já o primo caçula continuava incerto. Ao cair da noite, eles perceberam que os mais velhos estavam na sala, conversando e decidiram sair pelas portas dos fundos. Seguiram de cabeça baixa pela garagem e, sem fazer muito barulho, saíram pelo portão.

Adentraram pelo portão de madeira da chácara e ouviram o latido do cachorro que eles conheciam. Deram biscoitos para ele ficar quieto e seguiram em frente. Quando estavam de pé no portal da horta, o mais novo falou que dali ele não passaria e, novamente, o mais velho o chamou de medroso e puxou seu irmão – que parecia querer desistir, também – para dentro do pomar. Eles estavam de lanternas acesas, os três, mas o mais velho e seu irmão foram tão fundo no pomar que o breu tomou conta do lugar, sem conseguir enxergar o brilho da lanterna de seu primo. Então, de repente, sons guturais começaram a ser ouvidos, os dois sentiram espinhos dos limoeiros arranhando suas pernas e braços e, de repente, suas lanternas falharam. Do lado de fora do pomar, o primo deles ouvia os gritos dos dois e se desesperou. Correu para a casa de seus pais, chamando-os para irem ao pomar. Ele terminou acordando a dona da chácara e seu marido. Percebendo o que tinha ocorrido, os pais dos meninos foram até uma guarita, que ficava do outro lado da pista, no sopé de um morro e chamaram os guardas para ajudarem nas buscas.

Os pais, o dono da chácara e dois policiais, munidos de lanternas, entraram no pomar, mas estava muito escuro para poderem ir mais fundo. No outro dia, bem cedo, antes de sair para a roça, o dono da chácara entrou no pomar, para ver se encontrava os dois meninos perdidos, mas nada achou, além de suas lanternas e o boné que o mais velho usava. Ele levou o que achou até a casa do seu vizinho e entregou o que achou para os pais. Inconformados com isso, chamaram várias pessoas para buscar pelo pomar. Por dias procuraram, mas nada acharam.

Depois disso, ninguém nunca mais visitou o pomar. Ele se encontra abandonado, mas dizem que, à noite, ainda pode se ouvir os gritos assustadores dentro dele.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Uma estória simples

Bem, esta... estória - se assim posso chamá-la - foi escrita há... muito tempo por mim, por isso, peço desculpas se existe um exagero de um adjetivo e seu advérbio, mas é como eu a imaginei.


UMA ESTÓRIA SIMPLES

Um simples escritor chegou a um simples vilarejo aonde, simplesmente, desejava morar. Ele havia comprado uma simples casa, em uma simples rua e, um simples dia, viu uma simples jovem linda passar diante do seu simples portão e ela lhe deu um simples sorriso. Ele simplesmente se apaixonou pela jovem naquele simples momento que a viu. Descobriu aonde ela morava e, todos os dias, lhe mandava simples flores com uma simples mensagem: “Eu, simplesmente, estou apaixonado por você”. Foram dias, semanas, meses, mas ele nunca achou que era recíproco. Então, em um simples dia, ele decidiu, simplesmente, terminar com a sua vida. Ele foi enterrado no simples cemitério, atrás da simples igreja daquele simples vilarejo e, em uma simples lápide, estava escrito: “Um simples escritor que, simplesmente, decidiu deixar de viver”. Mas, todos os dias, com o passar do tempo, aquela simples jovem era vista colocando simples flores no túmulo do rapaz e um dia puderam a ouvir falar: “Se você tivesse simplesmente dito que me amava, simplesmente estaríamos juntos”.

O Porto

 Meus sonhos, minhas inspirações. Mais um conto para vocês - este é bem mais curto -, mas que achei interessante compartilhar. Espero que goste... e comentem!


O PORTO

Ele despertou em uma praça. Não lembrava o próprio nome, mas lembrava que estivera ali com seu filho. Que morava em uma ilha, nas proximidades, que tinha um barco e, ele e seu filho tinham ido para o porto comprar suprimentos... mas não lembrava do próprio nome. Algo estava confuso.

Saiu para procurar pelo filho e foi fazendo os passos que fizera antes. Primeiro, passou no bar que os dois tinham parado para beber e comer algo, mas não encontrou ninguém. Na medida que procurava as pessoas que conhecia, não encontrava ninguém, mas percebeu que o bar estava todo molhado. Saiu do bar e foi até o mercado, onde tinha ido comprar suprimentos. Suas compras ainda estavam no balcão, mas o rapaz que ficava no caixa não estava ali. Andou pelo local, gritando o nome do próprio filho, mas não o localizou. A preocupação começou a assolar sua cabeça. Desesperado, saiu do mercado, pensando, “depois venho pegar os suprimentos”, e foi até o posto policial, para pedir ajuda. Entrou no posto policial e não viu ninguém. “Não pode”, ele pensou, “Sempre tem um policial que possa nos atender”. Andou por todo o local e, como no bar, somente poças de água no chão.

Voltou para as ruas, gritando pelo nome do filho ou mesmo por ajuda. “Por que não lembro do meu nome?”, ele se questionou. Era impressionante, pois aquela era uma vila portuária e as pessoas, à noite, saíam para se divertir, mas não tinha ninguém, como se, do dia para a noite, aquilo se tornara uma cidade fantasma. O que mais o impressionava é que aparentava ter chovido na vila, mas ele não estava molhado. Sua cabeça latejava, “diga seu nome”, ele pensava – ou acreditava que estava pensando. Procurou em cada viela, em cada beco escuro e nada. “Filho, onde está você?”, ele gritou, quando voltou a praça, “Aonde está todo mundo!”. Então ele ouviu uma voz bem baixinha, “pai?”, e perto do chafariz, coberto com o casaco do pai, estava o jovem de 12 anos, “o que aconteceu?”, ele questionou. “Venha, temos de pegar as compras e voltar, sua mãe e suas irmãs devem estar preocupadas”. Os dois se deram as mãos e foram ao mercado. Chegando lá, perceberam poças d’água espalhadas pelo local. “Cadê todo mundo, meu pai?”, questionou o filho. Ele preferiu não responder, pegou o pacote de compras no balcão e saiu, em direção ao porto.

Chegando no pequeno barco, de relance, ele acreditou ver um rosto difuso nas sombras, uma mulher, que lhe sorriu, mas não era um sorrido cordial, ele percebeu algo de maligno. Seguiu com o barco, remando de volta para casa. Ao desembarcar na ilha, sua cabeça começou a latejar fortemente. “Pai, você está bem?”, perguntou o filho. “Pegue as compras e vamos para casa”, ele respondeu. Atracou a pequena embarcação e andaram em direção da própria casa. A cabeça do homem latejava cada vez mais. “O que está acontecendo comigo?”, ele se questionou, “E por que não me recordo do meu nome?”. Pensou em questionar ao filho, mas não queria parecer fraco diante da criança. Ele precisava se mostrar forte, era o homem da família. Ao entrar em casa, gritou por uma saudação, “Mulher, chegamos!”. A esposa veio, com ar de preocupação no semblante. “O que aconteceu com vocês?”, ela perguntou, “Passaram o dia todo fora. Saíram para as compras bem cedo e só retornaram agora. O que houve?”. Ele não quis responder, mas precisava se sentar, pois sua cabeça latejava muito e ele sentia uma tontura surgir. A esposa então disse, “Ezekiel, o que houve?”. “Ezekiel. Este é meu nome” e, então, veio a sua memória o que ocorrera naquele dia.

Conversara com sua esposa, bem cedo, que levaria o menino para fazer as compras dos suprimentos. Ambos pegaram o pequeno barco e ele colocou o filho para remar. “Você precisar criar músculos neste corpo franzino”, ele disse, “já está na idade de poder sair comigo para pescar”. Assim que ensinou o filho a amarrar a embarcação no porto, subiram para a cidade, mas, na beira da escada estava uma mulher maltrapilha. Ela lhe pediu um pouco de comida, mas ele preferiu ignorá-la. “Não dê atenção”, disse ao menino. A mulher lhe agarrou na roupa e ele a rejeitou. Ela novamente segurou na barra de sua calça e ele disse “vá arranjar um marido para sustenta-la. Não tenho e nunca terei nada para ti”, e quando ia retirar a mão dela de sua calça, ela o segurou e seu filho com uma força que ele não esperava que ela tivesse e a ouviu dizer:

- Por não ajudar, se amaldiçoará! Nunca se lembrará até seu nome alguém mencionar, e quando isso ocorrer a pessoa irá se desfazer “. – Repentinamente, ele viu sua esposa se tornando líquido. Roupas, olhos, cabelo, pele. Tudo virou líquido. Ele se desesperou, gritando e, correndo em sua direção, veio seu filho dizendo, “Pai, minhas irmãs. Elas viraram água”. O pescador lembrou o que ocorrera então. Como havia nascido e crescido naquele vilarejo, conhecia a todos e, com isso, aqueles que vinham em seu socorro ou que gritavam seu nome, terminavam se tornando líquido. A bruxa os amaldiçoara. A ele e seu filho, e nada poderiam fazer.



segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Em Chamas

 

Eu sou uma pessoa que acredita muito que devemos respeitar o Brasil. Respeitar as pessoas que estavam aqui antes de ser Brasil, respeitar aqueles que sabem viver com nosso ecosistema, sem abusar demais. Respeitar fronteiras e respeitar, antes de qualquer coisa, nossa biodiversidade.

O texto a seguir se baseia em um sonho que tive e, sinceramente, espero que gostem.

Silmara havia se formado há pouco tempo em Biologia e decidiu entrar para uma ONG voltada para ajuda às tribos indígenas e manutenção do bioma amazônico. A ONG era liderada por sua maior inspiração, Thereza Gouveia e, entregar para aquela organização era seu maior desejo.

Mesmo tendo nascido e crescido em uma comunidade carente, Silmara sempre desejou vivenciar a vida nas selvas tropicais brasileiras. Quando terminou sua pós-graduação, se inscreveu para várias organizações, mas sempre torceu pela de Thereza, mesmo que não fosse voltada para reserva ambiental, trabalhava em ambientes no interior do Amazonas, onde ela poderia testemunhar e ver os mais diversificados ambientes de fauna e flora do Brasil.

Thereza era uma antropóloga com um trabalho renomado e que lutava pelas tribos indígenas e quilombos em todo o território ao norte do país. Sua luta era tão acirrada que, por vezes, recebeu várias ameaças de morte e suas redes sociais eram inundadas de violência verbal e desmerecimento de seu trabalho. Mas isso não a fazia desistir, pois constantemente pessoas buscavam fazer parte do seu empreendimento, que não visava lucros, somente auxílio e apoio a essas sociedades discriminadas. Quando ela entrevistou Silmara, lhe questionou o motivo dela querer fazer parte da organização – ela sempre fazia isso com todos os cientistas que desejavam embarcar naquela empreitada, principalmente porque não era algo com glamour, pelo contrário, as pessoas tinham de enfrentar os ambientes mais inóspitos, dormindo em barracas improvisadas, sendo picadas por mosquitos e formigas e correndo riscos com pessoas que não desejavam elas ali. Silmara a impressionou na entrevista, pois falou de seu amor pela fauna e flora, de sua busca pela preservação por aquele tipo de ambiente.

Silmara lhe contou sobre sua origem humilde. Sua mãe era funcionária doméstica que não tinha nada além do fundamental e seu pai trabalhava como operários em construções, as vezes fazendo bicos para completar a renda familiar. Eles nunca pensaram que um dia teriam uma filha na universidade, mas sempre a incentivaram a estudar bastante para ter um futuro melhor que o deles. Silmara era a segunda filha de cinco. O primeiro, um menino, terminou se envolvendo com o tráfico de drogas e morreu novo, o que deixou sua mãe muito abalada e temerosa por seus outros filhos. Quando Silmara começou a demonstrar interesse por cuidar de plantas, seus pais pensavam que ela poderia trabalhar em uma floricultura. Ela chegou a trabalhar em uma, como jovem aprendiz, mas isso somente lhe serviu para juntar dinheiro quando fosse fazer universidade. Ela contou o que desejava fazer na universidade e seus pais a ajudaram a pagar um cursinho noturno. Ela passou na universidade e quando ela chegou em casa – toda suja, pois sofrera trote quando foi se matricular – sorrindo, eles ficando orgulhosos. Foram quatro anos que ela sofreu muito, principalmente porque precisava encarar ônibus lotados de manhã bem cedo. Às vezes, levando pequenos lanches, pois não tinha condições de pagar nem um almoço no restaurante da universidade. Usando materiais, algumas vezes, precários, pois não tinha como comprar os seus instrumentos de uso, precisando contar com os da universidade. Mas foi gratificante a colação de grau e a formatura. Logo depois embarcou em uma pós-graduação de Biologia Vegetal, com bolsa patrocinada pela universidade. Chegou a trabalhar como assistente de seu orientador, mostrando que era aquilo que ela sempre desejou. Teve uma excelente nota no seu TCC e, logo depois, seu orientador preparou cartas de recomendação e pediu que ela fizesse mestrado. Mas Silmara desejava ir para a floresta, onde teria contato direto com o ambiente da flora que desejava, além de conhecer mais daqueles que cultivam e vivem naquele ambiente.

Thereza não entendia o que viu naquela jovem, mas gostou dela de imediato e colocou-a sob sua tutela. Ciências diferentes, mas objetivo semelhantes, Thereza logo levou Silmara para uma reserva indígena que vinha precisando de ajuda, pois estava ameaçada por madeireiros que desejavam explorar o ambiente que circundava a reserva e sabiam que seria impossível enquanto eles permanecessem ali.

Os indígenas sofreram ameaças, tiveram membros da tribo desaparecendo, ataques noturnos as suas reservas. Mas, lógico, não tinha como provar nada contra as madeireiras. Sabendo dos ataques as colheitas e suprimentos dos indígenas, Thereza junto um grupo de ativistas de sua organização e partiu para ajuda-los com o que poderia. Recorreu a conhecidos para fornecer alimentos orgânicos e material biodegradável, que manteria a aldeia até eles se restabelecerem. Silmara ajudou com as sementes que seriam mais úteis para o cultivo nas tribos, como banana, milho, abacate, guaraná e mandioca. Ela fez a seleção, separação e cultivo, pois desejava levar provetas, facilitando e agilizando o cultivo.

Depois de meses conversando com as empresas e separando o material, o grupo selecionado por Thereza embarcou em um ônibus locado e partiu em uma viagem de cinco dias. Silmara ficou fascinada por aquilo, pois poderia testemunhar ambientes agrícolas e locais que somente vira em documentários ou fotos na universidade. A cada parada, Silmara via se suas provetas estavam bem, pois precisavam de atenção constante quanto o ambiente agressivo que estavam enfrentando.

Assim que chegaram à tribo, Thereza foi falar com o cacique e pedir sua permissão para desembarque e, com ajuda de membros das tribos, tudo foi desembarcado mais rapidamente. Com orientação e muito cuidado, as provetas foram levadas para fora do ônibus. No outro dia começariam a plantá-las.

Horas depois de se alojarem em uma maloca, chegou a reserva dois jipes do exército com DEZ soldados, sendo o tenente deles um conhecido de Thereza. Ela, junto com o cacique e o pajé, foram recebe-los. Silmara ficou impressionada com aquilo.

Ela conhecia um pouco da história de Thereza. Sabia que ela era filha de um coronel da reserva e que sua mãe era uma pessoa ligada as causas sociais. Thereza se formara em Ciências Sociais, mas se dedicou a Antropologia e, após a morte de sua mãe, usou dos seus contatos para ajuda-la nas suas próprias causas. Já, após o falecimento de seu pai, usou da pensão por morte para investir de várias formas, assim não precisaria passar dificuldades, e manteve contato com vários militares, que sempre corriam em seu socorro, para ajudar na sua proteção e de sua equipe.

Os soldados armaram barracas nos limites das tribos, pois não queriam interferir muito no trabalho que seria desenvolvido.

No dia seguinte, depois de sua primeira noite em um ambiente desconhecido, Silmara começou as atividades com as provetas. Percebendo que os indígenas não entendiam o que ela pretendia, contando com um tradutor, ela lhes explicou que aquelas pequenas plantas agilizariam no cultivo e na colheita, mostrando cada um dos brotos, mas, em especial, os de guaraná. Seu trabalho de pós-graduação se concentrou na domesticação que os indígenas desenvolveram com o guaraná, então ela estava ansiosa pelos plantios destas provetas.

Enquanto isso, Thereza conversava com o cacique, o pajé e o tenente sobre os ataques à tribo. Eles explicaram que empresas madeireiras têm destruído grande parte das árvores nas proximidades, sem respeitar os limites territoriais da tribo. E, como principal intuito de expulsá-los de sua reserva, sumiram com grandes caçadores da tribos, deixando-os sem condições de caça – algo que estava escasso há algum tempo, pois os animais fugiam ou eram capturadas ou era mortos com o desmatamento – e, os ataques mais recentes foram às plantações e aos galpões com os produtos colhidos e processados pelos membros da tribo. O pajé também falou que teme pelas crianças, que não podem mais ir ao rio se banhar, sozinhas, e teme que o poço possa secar, já que ele viu a madeireira fazendo barreira do leito do rio. O tenente ouviu àquilo tudo e prometeu que averiguaria a situação, mas que eles estariam seguros, enquanto seus homens estivessem ali. Ao saírem da reunião com o pajé, Silmara viu Thereza se despedir do tenente com um selo nos lábios e questionou ao tradutor que a ajudara se eles eram namorados, pois nunca soube que Thereza tivera um relacionamento. O tradutor lhe disse que eles haviam sido casados, quando Thereza era mais jovem. Não tinha sido uma cerimônia glamourosa, somente um casamento no civil. Mas, desde que Thereza iniciou suas lutas pelos direitos de nativos brasileiros e dos quilombolas, perceberam que era uma relação impossível, e se divorciaram dois anos após o casamento.

Thereza não abria muito este lado de sua vida, então era algo que não se encontraria em redes sociais ou canais de notícias. Para a antropóloga era melhor divulgar seu trabalho do que sua vida pessoal. Ela sabia que, devido a amplitude das redes sociais e das pessoas gostarem de fuxicar a vida dos outros isso poderia vazar, mas somente se preocuparia quando acontecesse.

Até o final do dia, contando com a ajuda dos membros da tribo, Silmara conseguiu plantar mais da metade de suas provetas. Demorou, pois muito a paravam para lhe perguntar que planta era aquela, e ela não pode contar com eles o dia inteiro, pois tinham outros afazeres na tribo que não podiam ser deixados de lado. À noite, as índias haviam preparado um maravilhoso jantar – melhor do que o almoço, que também tinha sido ótimo – com os suprimentos nutritivos que Thereza trouxera. Quando iam se recolher na maloca, Silmara foi procurar Thereza, que estava cercada de mulheres indígenas, conversando. Elas pareciam fascinadas pela cor da pele de Thereza e de Silmara. Falavam que parecia a cor da noite e que eram abençoadas por Jaci – Silmara ouviu isso o dia inteiro e ficou maravilhada ao saber quem era Jaci. Sentou junto com as índias para ouvir as histórias de Thereza. Era fascinante poder conhecer mais um lado de sua ídola. Quando as índias se afastaram, ficaram somente as duas e Silmara quis insistir com o assunto sobre o tenente do exército que deixou oito de seus homens cuidando deles e da tribo. Thereza sorriu, parecendo acanhada – Silmara mencionou o beijo dos dois.

Ela contou que, quando tinha 20 anos, seu pai havia sido transferido para um pelotão na região norte do país e lá ela conheceu um jovem sargento que foi muito gentil com ela. Sabendo que Thereza havia estudo ciências sociais na universidade, havia se pós-graduado em Antropologia Social e tentaria mestrado na mesma área, o sargento a levou para conhecer um quilombo ali perto, que o exército ajudava com suprimentos. Dali por diante os dois começaram um romance que terminou em casamento. O pai dela terminou sendo transferido para a região Centro-Oeste do país, mas Thereza permaneceu ali, com o marido. Passado dois anos, Thereza percebeu que havia adiado demais sua ambição, mas era algo que seu marido também havia percebido e ele a chamou para conversarem. Dessa forma, em comum acordo, os dois decidiram se divorciar. Thereza não era tão conhecida, então deixou isso reservado somente entre seus pais e o pelotão em que vivera. Sabia que isso um dia viria a público, como aconteceu quando descobriram que ela foi dependente do fundo da pensão por morte do pai, julgando-a por isso. Mas ela somente se preocuparia com aquilo quando ocorresse, precisava se concentrar com seu trabalho.

A forma como Silmara ouviu aquele relato era como uma pessoa deveria agir quando tivesse uma conversa pessoal com um cantor famoso, ou um escritor consagrado. Para ela, Thereza era uma pessoa fabulosa e interessantíssima. Sim, ela sabia da diferença de ambas em seus estudos, mas a luta de Thereza ia além das tribos, pois sabia que a manutenção dos indígenas e quilombolas coincidiria com a preservação da natureza a sua volta.

Tanto os indígenas quanto os quilombolas exploram o ambiente de forma saudável, respeitando o ambiente da fauna e da flora e a biodiversidade existente, sem excessos. As tribos e os quilombos sabem que dependem da natureza para sobreviver, então busca “domesticá-lo” e se adaptam a ele.

Os dias correram de forma tranquila, sem intromissões de madeireiros, pois temiam o exército fronteirando a reserva. Mas, após seis meses, o tenente amigo de Thereza voltou a reserva e lhe disse que não poderia manter mais seus homens auxiliando. “Ordens de cima”, ele disse, “Temos de deixa-los por conta própria, concluiu. Thereza conhecia este tipo de situação, não era uma novidade perder apoio, pois o governo não achava que reservas indígenas ou quilombos merecessem proteção contra ataques. Ela então foi com seu amigo até o quartel, pois queria entrar em contato com amigos que ajudariam na proteção. Quando retornou, avisou a todos que eles demorariam uma semana para chegar, e Silmara pode sentir a tensão cair sobre seus colegas. Alguns sabiam o que isso poderia significar, outros, como Silmara, estavam nesta aventura pela primeira vez.

Quando a noite caiu, quase ninguém conseguiu dormir, até que sentiram o cheiro de mato queimado. Quando saíram, viram animais correndo em desespero e, mesmo sendo o momento mais escuro da noite, o céu acendia em laranja e amarelo. Os responsáveis por aquilo não desejavam mais expulsar os indígenas, mas sim queimá-los de forma derradeira. Um grande desespero se abateu sobre todos, pois eles se viam cercados por enormes piras de fogo incandescente. O calor era insuportável, mas precisava ser contido. Silmara somente conseguia pensar nas plantações e decidiu correr para lá. Thereza e outros gritaram para ela, mas foi sem sucesso. Quando Silmara chegou as plantações, viu seu trabalho se tornando cinzas e o fogo parecia desejar lamber sua face. Um de seus colegas a abraçou e carregou dali, pois precisavam dar um jeito de sair dali.

Quando os dois voltaram para o grupo, o pajé já havia iniciado um grupo que retirava água do poço para jogar nas chamas e, vendo isso, Thereza fez sua própria fileira, para ajudar. Silmara e seu colega entraram na fileira e começaram a jogar água em determinado ponto das chamas. Todos saíram das malocas e se reuniram no centro da aldeia. As primeiras malocas consumidas pelas chamas, não demoraram muito para cair. Os chumaços inflamantes alçaram voo até as outras malocas e a aldeia parecia perdida.

 Thereza correu para seus equipamentos e pegou um rádio para entrar em contato com o quartel do exército, mas a única coisa que conseguiu foi que eles estavam de mãos atadas.

O medo era desesperador e as malocas foram totalmente dizimadas. Gritos assustadores vinham das crianças e dos jovens, principalmente. O fogo começou a se extinguir no começo do amanhecer, pois não foi expelido para o interior da floresta. Fora calculado para consumir somente o interior da aldeia. Quando o sol começou a aquecer a todos, alguns já encontravam quase desidratados e com vários tipos de queimaduras. Alguns suprimentos médicos sobreviveram e, com isso, os feridos foram cuidados. As pessoas que estavam nas fileiras não se desidrataram muito, pois um dos colegas de Thereza era bombeiro e recomendou que eles se molhassem antes de tentar conter as chamas, o que os manteve somente com um tipo de bronzeado.

Silmara nunca testemunhou nada parecido. Seu rosto estava sujo de fuligem e o calor que enfrentara foi insuportável. Quando a adrenalina baixou, ela sentou no chão e chorou, até sentir uma mão sobre seu cabelo e olhou para cima, vendo Thereza. Ela sentou ao seu lado. Seu rosto também estava bem sujo, seu cabelo parecia ter sido tingido, devido as cinzas e ela tinha uma queimadura no braço direito. Na tentativa de acalentar os ânimos de Silmara, ela lhe contou uma história que havia ocorrido com ela cinco anos atrás, quando estava em um quilombo que estava em um terreno desejado por agropecuários. Ela viveu com eles por um ano inteiro e testemunhou atrocidade dos mais diversos tipos, mas a pior foi quando o quilombo se viu cercado de grileiros armados e eles disparavam para todos os lados, em tiros cruzados. Ela vira crianças serem feridas, mortas. Pareciam mosquitos mortais, devido aos zumbidos das balas. Ela tinha suas marcas de memória daquele dia. Levou dois tiros, um acertou em seu ombro e o outro na parte de trás de sua coxa. Eles dispararam até acabar as balas e foram embora. No final, vários feridos e seis pessoas mortas. Aquilo virou notícia mundial, repercutiu em todo o Brasil, mas não teve presos. Alguns pensaram que, depois daquilo, Thereza desistiria de continuar sua luta, só que foi o contrário, intensificou ainda mais tudo o que ela acreditava. Ela foi ao Congresso Nacional, conversar com os Deputados e Senadores. Se tornou ativa em redes sociais para mobilizar as pessoas e, mesmo as ameaças e as provocações, não eram o suficiente. Depois de sobreviver a um fogo cruzado, palavras ofensivas eram pequenas demais. Thereza explicou para Silmara que, no momento que ela deixasse esmorecer sua luta, seria o momento em que estaria dentro de um caixão. Também disse que entenderia se Silmara decidisse desistir, mas que ela precisava entender que sempre seria bem-vinda a continuar.

Horas depois um caminhão do exército chegou à aldeia e, junto dele, o ônibus de viagem do grupo de Thereza. O coronel falou com o cacique e o pajé que estavam ali para realoca-los, pois a reserva havia sido reposicionada para outro local. Thereza foi ouvir a conversa e sabia que nada poderia ser feito. Foi decepcionante para Silmara. Passou por sua cabeça que aquela luta era inútil e sem cabimento. Eles faziam aquilo tudo e depois viam tudo se perder. Por que continuar a lutar se nada é feito? Olhou para Thereza que, mesmo com aquela queimadura no braço, continuava a ajudar a tribo. Olhou para todos que, mesmo sofrendo com tudo que passaram, ainda estavam de pé e lutando por mais um dia, ela queria entender e percebeu que não seria desistindo que descobriria. Levantou de onde estava e, tentando limpar as lágrimas da melhor forma possível, começou a ajudar a todos, pois precisavam continuar a luta.

domingo, 17 de março de 2019

O Começo do Fim - Primeira Parte


E aqui começo o último conto de "Em Busca do Conhecimento".
Comecei essas histórias como uma válvula de escape em 2008. As primeiras linhas foram escritas às mãos durante o primeiro encontro de blogueiros do Espírito Santo, o BlogcampES. "Odal Ortuo Od" mostrava um universo paralelo, inverso, onde Joshua e Miguel conheciam Aiarp, Alicsirp e se metiam em um grande problema com a chegada a Espilce.
Sim, são nomes estranho e difíceis de dizer, mas nunca sabemos como nossa imaginação funcionará, não é?
"O Começo do Fim" é um retorno a esse mundo paralelo, no qual, desta vez, vai Fred, professor de Joshua e criador do Interpotal.
Não sou físico, mas sou fascinado pelas teorias e estudos da Fisica (longe dos cálculos, pois odeio cálculos). Devo ter cometido vários equívocos no transcorrer das histórias, mas a ficção científica torna o impossível no possível, mesmo que cometa alguns erros no processo.
Ok, vamos parar com a ladainha e partir para a história. Espero que curtam a terceira e última parte de "Em Busca do Conhecimento" que começa aqui.

O COMEÇO NO FIM
Era o último ano de Joshua na faculdade e, desde o último retorno dele e de Miguel pelo Interportal, muitas coisas haviam acontecido e a mais significativa era que ele havia deixado o cargo de estagiário:
- Desculpe-me professor, eu sei que com isso eu estou lhe deixando na mão, mas Miguel, meu primo, não se sente bem-vindo até aqui, e para falar a verdade, o laboratório me traz muitas lembranças de coisas que me aconteceram e nas quais tenho certeza que não ocorrerão novamente. – Fred fitava Joshua de forma inexpressiva. – Mas eu ainda quero que o senhor continue a ser meu orientador na monografia, lógico, pois meu trabalho sobre wormholes não teria sentido sem a sua orientação.
Fred já havia percebido a ausência de Miguel, mas não por ele não aparecer mais no laboratório, fazendo gozações ou brincadeiras das pesquisas, mas sim por suas atitudes obtusas sempre que encontra ou mesmo esbarra com o professor na universidade:
- Eu acho que entendo pelo o que vocês dois estão passando, por isso falo que não precisa se preocupar com isso. Independentemente de você ser meu estagiário ou não, Joshua, eu continuarei com a sua orientação, pois John Wheeler[1] é o nosso grande desafio. – Falou sorrindo para seu aluno.
Fred mais do que achava que entendia Joshua e Miguel. A reclusão dele, na qual Miguel tanto reparava tinha um motivo, apesar dele não se abrir, mantendo somente o envolvimento professor-aluno, Fred já havia vivido também uma aventura amorosa.
Fred era jovem quando se apaixonou por uma moça na sua cidade e, por impulso, terminaram se casando. A ilusão da vida a dois acabou no primeiro mês morando junto com ela.
Enquanto ele trabalhava como balconista em uma farmácia, ela só queria saber de sair à noite, com as amigas, curtir fins-de-semana na praia, como se nada tivesse mudado. Não demorou muito, por causa das brigas, se separaram.
Com um pouco de dinheiro que recebeu de um acordo que fizera com o dono da farmácia, Frederico Bispo – seu nome completo - se mudou para a capital e iniciou um cursinho para fazer o vestibular. Foram doze anos entre a graduação e o doutorado, aos quais ele se dedicou com afinco, sem nada que pudesse intervir.
Quando Fred conseguiu a vaga para professor na universidade, ele transformou o laboratório em sua casa, pois aonde ele residia só servia de local para dormir e tomar banho. Todos os seus livros e suas anotações estavam no laboratório, e nunca ele confiou em alguém para cuidar de suas coisas, até conhecer Joshua.
Fred via Joshua como um rapaz com uma sede por conhecimento que não vira em nenhum outro dos seus alunos em todos os seus seis anos lecionando.
Joshua havia sido seu primeiro estagiário e conseguia entende-lo como ninguém. Mesmo quando ficava nervoso e balbuciava, era coerente. Para Fred só existia um problema com Joshua, o seu primo Miguel.
Miguel era inconsequente, atrevido, valentão, que por vezes Fred ficou de não permitir seu acesso ao laboratório, mas seria o mesmo que perder seu melhor aluno, pois percebia a ligação fraternal de ambos, e mesmo que fosse tudo o que de pior o professor pudesse achar, sabia que ele faria de tudo pelo primo.
Terminou que ele se tornou de muita utilidade, pois se não fosse por sua curiosidade, o Interportal nunca teria sido testado em humanos. Não que Fred tivesse planejado antecipadamente o uso da máquina, mas, mais cedo ou mais tarde a curiosidade primitiva de Miguel o faria agir de forma pouco ortodoxa, tornando o experimento em humanos possível.
O experimento terminou se saindo melhor do que o esperado, apesar de todo o sofrimento que causara a Joshua. Quando entrevistou seu aluno, procurou evitar que ele lembrasse da jovem que ele havia deixado, mas sabia que era impossível, pois ele mesmo nunca havia esquecido de sua esposa. Na segunda vez, Fred esperava que seu melhor aluno optasse por voltar à Aiarp, mas decidiram, graças a sensatez de Joshua, ir para um período aonde a possibilidade de controle era maior.
Parecia que Joshua sabia que eles deveriam estar lá, pois o passado de seus avôs e de seu tio-avô estavam ligados intimamente com a presença de ambos naquela época. O que não se esperava – Joshua sim – era que Miguel se apaixonaria por sua tia-avó. Fred soube de uma breve conversa com seu aluno o que ocorrera, pois, depois disso, nada foi igual.
Fred tentou mudar a situação várias vezes, mas o afastamento de Miguel foi instantâneo, não demonstrando mais nenhum interesse pelo laboratório ou pelos experimentos com o Interportal.
Joshua, como era muito ligado ao primo, terminou se afastando também, aos poucos. Mas como era seu aluno mais aplicado e mais empenhado, Fred buscou de todas as formas mantê-lo como seu estagiário, mas foi em vão.
Durante alguns meses ficou a incerteza quanto à orientação da monografia de Joshua, mas então lhe chegou a proposta, o que lhe deu um certo alívio. Marcaram as datas dos encontros, mas quando eles aconteciam, Joshua parecia distante. Então, em seu tempo livre Fred trabalhava uma forma de ter seu melhor aluno de volta, trabalhando com ele.
Fred passava madrugadas acordado, buscando informações que pudessem elucidar a conexão entre dimensões, tentando compreender como manter o fluxo paralelo.
Buscou os estudos sobre a Teoria das Cordas, Espaços Pandimensionais, Fluxo Temporal e Relatividade, com o objetivo de conseguir informações que o pudesse guiar por um caminho correto para levar Joshua ao momento certo em Aiarp, para reencontrar Alicsirp observando Aul e as salertse em Uéc.
Ao fim de coeficientes, cálculos complexos, Fred acreditou ter achado o denominador comum que poderia levar Joshua à Aiarp. Usou seu computador novamente com objetivo de controlar a viagem e jogou nele seus cálculos. Não tinha certeza se daria certo e por isso ficou receoso de contar para Joshua na reunião que tiveram após a descoberta. E o seu receio fez com ele retornasse a fase de testes, iniciando com objetos inanimados até partir para algo com vida.
Como muitos, Fred era um amante dos animais da universidade. Há algum tempo havia adotado um dos cachorros que circulavam por ali. Antes de adotá-lo, Fred sempre deixava um prato de comida e outro de água, em frente ao laboratório para o animal. Mas quando uma ONG de proteção de animais chegou na universidade para recolher os cães e gatos, para dá-los a novos lares, Fred tomou o cachorro nos braços e se prontificou a cuidar dele. Então um dos voluntários o orientou a procurar uma clínica veterinária para cuidar de doenças, dar um banho e vermifugar o animal, e foi o que Fred fez antes de leva-lo para casa.
Deu-lhe o nome de Wheels[2]. Ele era o principal motivo de Fred ainda ir à residência que se encontrava suas roupas, pois não podia manter Wheels no laboratório, já que era proibido manter animais que não fossem cobaias lá dentro. E como não era a favor de usar animais para pesquisa, o laboratório dele não possuía nenhuma cobaia.
Com o tempo que vinha passando no laboratório, em cima das pesquisas com o Interportal, Fred recorreu a Joshua para que fosse ao seu apartamento para alimentar e passear com Wheels, e este lhe questionou:
- Professor, não tenho nada contra ir ao seu apartamento e passear com Wheels, mas o senhor precisa sair um pouco do laboratório. Precisa visitar seu cachorro.
- Eu não posso no momento. – Respondeu Fred. – Estou concluindo algo muito importante, faça isso para mim, como um último favor.
Joshua ficou preocupado e lhe foi sincero:
- Professor Fred, não tenho nada contra o senhor. Eu e Miguel fizemos as viagens, pois desejávamos ir. Nunca fomos forçados ou ludibriados pelo senhor a fazer nada. Nem eu e nem Miguel achamos isso, só que o laboratório nos traz muitas lembranças que precisamos esquecer. Lógico que eu farei este favor para o senhor e irei no seu apartamento para dar comida, água e passear com o Wheels, mas por que tem ficado até tão tarde no laboratório? – Fred sabia que a pergunta era inevitável e já com a resposta na ponta da língua, disse:
- É uma pesquisa que estou fazendo que precisa de minha total atenção. Não posso falar mais nada, mas em breve você verá. – Finalizou, deixando Joshua com uma pulga atrás da orelha.
- Espero que não tenha relação com o Interportal. – Retrucou. – Apesar de ser um objeto fantástico, ele pode ser um problema muito sério também. – Fez uma pausa antes de continuar e falou. – Eu não sei por que o senhor ainda não o apresentou à comunidade científica. É uma das maiores descobertas e foi feita em um simples laboratório de uma universidade federal sem amplos recursos.
- Como eu lhe contei uma vez, sonho com uma máquina do tempo desde que li Wells na minha juventude. Hoje o Interportal é minha maior realização e divulga-lo para a comunidade científica seria inicialmente motivo de piadas, chacotas e difamação. Depois, alguns começariam a acreditar, e questionariam como eu fiz, até que viessem a tentar roubá-lo, ou então espionar-me, até por fim, intencionarem destruí-lo. Eu poderia torna-lo um peso de papel – apesar do tamanho dele –, mas nunca permitiria sua destruição. E, sinceramente, não sei se seria forte o bastante para aguentar os escárnios dos meus colegas. – E com isso encerrou a conversa. Fred retirou a chave de seu apartamento e entregou a Joshua, que comunicou:
- Hoje mesmo eu passo lá. – Se levantou e estendeu a mão para Fred, para cumprimenta-lo. – Quando será nosso próximo encontro?
- Bem, te passei material o suficiente agora, então vamos marcar para daqui a três meses, que aí você já me traz o trabalho finalizado, que tal?
Joshua tomou um grande susto com a proposta de Fred:
- Mas como assim? Daqui há três meses é um tempo longo demais e, mesmo tendo material o suficiente, ainda haverá a necessidade de seu conhecimento acerca de certos pontos que poderão ser para mim complexos e posso terminar divergindo de minhas ideias quanto ao material... – Fred percebeu que Joshua começar a divagar.
- Acalme-se Joshua, não fique nervoso. Nossas conversas têm demonstrado que você vem seguindo pelo caminho certo, agora só lhe falta escrever e aplicar os cálculos. Acredite quando digo que não faria isso se não tivesse total certeza que você está pronto. Terei de me ausentar por um tempo da universidade, devido a minha pesquisa, mas coloquei uma pessoa no meu lugar em que eu confio. Ele é um dos meus orientados em doutorado e adora Wheeler, como você. Ele estará ministrando minhas aulas e se você precisar poderá te ajudar também, já o deixei a par do seu trabalho.
- Professor Fred, o que pretende fazer? – Questionou Joshua de forma apreensiva e desconfiada, e não entendendo a preocupação, Fred disse:
- Como assim? Qual o motivo de seu questionamento?
- Professor, como bem sabe o Interportal é instável. Apesar de ter um certo controle do espaço-tempo com os acontecimentos nesta dimensão, qualquer tentativa de enviá-lo para uma outra poderia ocasionar em uma quebra, sem padrão exato de tempo onde desembarcar. – Ponderou Joshua. Fred fez ares de ofendido, mas se impressionou com a dedução de seu pupilo:
- Ainda falando sobre o Interportal? De onde tirou a ideia que eu vou usar ele para ir a algum lugar?
- Posso estar muito preocupado com minha monografia, mas ainda consigo reconhecer a fórmula de Laplace[3] no quadro branco quando a vejo. – Pontuou Joshua, apontado para o quadro que continha uma fórmula bem complexa. – Já discutimos e debatemos que é praticamente impossível ter certeza plena do tempo em que se pode parar.
- Não vou mentir dizendo que desisti disso, pois acredito que deva haver uma possibilidade, mesmo que remota, de encontrar o momento exato em que você e Miguel saíram de Aiarp. Foi então que pensei na Inversão do Tempo. – Fred tomou uma caneta na mão e foi em direção ao quadro.
- Pensamos no Tempo como algo linear e correto, enquanto em Aiarp seria inverso ao nosso, mas não no sentido de regressão temporal, mas sim de negatividade, de anterior ao ponto zero. – Mostrou no esquema que desenhara. – Este ponto seria o de encontro entre os dois planetas, como se eles colidissem, caso fizessem parte da mesma dimensão, mas com rotações em sentidos diferentes.
- Isso poderia ser certo, – alegou Joshua. – Como poderia ser totalmente errado. Professor, mesmo com o uso da Teoria da Impossibilidade de Arrow[4], as possibilidades de certezas são remotas, podendo enviar o viajante para outra dimensão, um outro tempo ou até mesmo os fins do Tempo de alguma dimensão ou da nossa própria. Não somos o Superman e nem Benjamin Bottom para conseguir correr o tempo ao contrário, pois seria remotamente inconcebível.
- Joshua, acalme-se. – Amainou Fred, receoso de que seu aluno voltasse a divagar. – Eu falei de uma possibilidade, mesmo que remota. Acredite, não pretendo enviar mais ninguém pelo Interportal. Mas pretendo fazer uma viagem de conhecimento. Eu pretendo – aumentou o tom da própria voz ao perceber que Joshua pretendia interrompê-lo. – me afastar um pouco do laboratório, só isso. – E sorriu para o seu discípulo.
O que Fred não tinha ideia, pois preferiu que Joshua não se aprofundasse no que havia descoberto em Aiarp, é que seu aluno buscava adiar o inevitável. Fred iria para Aiarp, se tornaria Ocirederf, seria mentor de Alicsirp e nem Joshua e nem Miguel nunca mais o veriam.
Fred não podia mentir para si mesmo dizendo que não estava preocupado com tudo que Joshua havia dito, mas ele tinha certeza de que seus cálculos estavam corretos.
No dia após a conversa com Joshua, decidiu tomar um café da manhã mais leve, pois lembrava dos relatos dele e de Miguel a respeito de refluxos estomacais após o transporte pelo Interportal ser finalizado. Joshua acreditava que tinha haver como o ponto de repuxo da máquina, que era o umbigo. Não importava a altura do sujeito, o ponto era sempre o mesmo.
Deixou comida e água para Wheels e escreveu uma carta de recomendações para Joshua e Miguel, pois sabia que terminariam ambos indo ao seu apartamento.
Ao chegar ao laboratório Fred escreveu outra carta, desta vez destinada a Roney, seu substituto, orientando-o como proceder em sala de aula e na orientação da monografia de Joshua. Depois passeou pelo laboratório até chegar a sua sala. Apagou a fórmula do quadro branco e foi ao computador, para programar um religamento de mês a mês, permanecendo assim por doze horas. Quando designou o ligamento, um brilho prismático surgiu de um dos lados do Interportal, enquanto o outro lado tinha uma luz branca fraca.
Fred respirou fundo, preparando-se para o que viria em seguida, e colocou-se em frente ao Interportal, sentindo a puxada central do ponto umbilical. Seu corpo parecia que estava sendo dobrado no meio e os órgãos internos pareciam ser tirados para fora de seu corpo. Uma luz envolveu-o e ele sentiu-se viajando em uma velocidade estupenda, até que tudo apagou.



[1] Físico estadunidense que criou a expressão “buraco negro”.
[2] Rodas, em inglês, mas o verdadeiro objetivo era brincar com o nome de H.G. Wells, autor de A Viagem no Tempo, A Guerra dos Mundos, entre outras grandes obras de ficção.
[3] Pierre-Simon, marquês de Laplace (1749-1827) foi um astrônomo e matemático francês que ficou conhecido como “Newton francês”, trabalhando a matemática astronômica, cosmologia e várias outras teorias, sendo a Transformada de Laplace uma teoria que analisa sistemas dinâmicos lineares.
[4] Kenneth Joseph Arrow (1921-2017) foi um economista estadunidense que criou a Teoria da Impossibilidade, dizia “que a soma das racionalidades individuais não produz uma racionalidade coletiva”.