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Leonid Afremov |
A Máquina dos Sonhos.
Era o
verdadeiro desejo de consumo de todos, pois, de acordo com os comerciais que se
via, levava você para onde desejasse e você poderia viver nesse lugar o quanto
quisesse.
Carlos
sempre desejou ter um desses aparelhos nas mãos, ainda mais quando viu o
cenário de Amsterdã, durante o final da década de 1950, quando explodiu o jazz
na cidade. As ruas iluminadas por postes antigos, passando sobre a ponte
Torenluis, com bicicletas. Ele pensava embarcar nessa viagem como um beatnik,
curtindo à noite e permanecendo o máximo que pudesse, mas ele era um professor
e não ganhava o suficiente para adquirir aquele aparelho, que era somente
acessível para pessoas com uma renda alta.
Então,
seu irmão Rogério, que trabalhava com desenvolvimentos de sistemas avançados,
chegou na casa de Carlos e trouxe, com ele, uma Máquina dos Sonhos.
Sabendo
do desejo do irmão mais velho de experimentar o aparelho, Rogério recebeu uma
para fazer um experimento e dar sua análise sobre o aparelho e, com isso, decidiu
dividir a experiência com seu irmão, por isso decidiu viajar para levar até
ele.
Quando
abriram a caixa do aparelho, ele tinha quatro ventosas brancas para serem
colocadas nas têmporas da cabeça. No manual estava escrito que as ondas
correriam entre as duas ventosas, levando-os ao local que desejassem. Junto das
ventosas, estava um aparelho com uma tela pequena e um pequeno teclado numérico
abaixo. No manual havia uma lista mostrando para onde cada número os levaria e,
no número cinco estava o desejo de Carlos. Rogério acreditava que o irmão
desejaria ir ao número cinquenta, que era um mundo de super-heróis, mas Carlos
insistiu em irem para o sonho número cinco.
Daí
escolheram seus trajes. Carlos logo escolheu o estilo beatnik, com uma camisa
de gola alta preta, um colete cinza por cima, um chapéu fedora da mesma cor e
uma calça com pregas cinza, também. Decidiu se parecer com vinte anos, mas
mantendo o bigode e o cavanhaque. Já Rogério escolheu algo parecido, mas sem o
colete, sem o chapéu e usando calças jeans.
Carlos
estava ansioso pela experiência, mas Rogério o preveniu com o alerta sobre o aparelho,
pois dizia que a pessoa não poderia interromper o sonho de outra, caso essa não
quisesse, pois poderia causar um problema neural sério. Carlos fingiu entender
o que seu irmão dizia, mas não se importou e logo colocou as ventosas nas
têmporas. Rogério fez o mesmo e ativou o aparelho, embarcando os dois em um
mundo glorioso de sonhos.
Carlos
percebeu que conseguia sentir tudo. O ar úmido, a garoa que caía, o pouco calor
emitido pelos postes. Era uma grande imersão em um novo mundo de sonhos.
Reparou em si mesmo no vídeo de uma vitrine próxima e viu uma pessoa que não
via há anos a sua frente, lembrando-se de uma foto que havia tirado anos atrás.
Quando olhou para seu irmão, ele mais parecia o co-fundador da Apple, Steve Jobs.
Ele achou aquilo engraçado e sentiu a própria risada, algo que não ocorria em
um sonho normal.
Os dois
andaram pelas ruas e repararam em algo estranho, haviam homens que pareciam membros
da Schutzstaffel, algo totalmente anacrônico com o período que estavam, e
questionou isso com seu irmão, que lhe explicou que eram códigos de proteção do
sistema, estavam ali, pois pessoas estavam abusando do uso da Máquina. Carlos
passou por eles e os cumprimentou em alemão, o que o espantou, pois ele nunca
havia falado o idioma. Rogério lhe disse que isso era algo da Máquina, também,
assim todos podiam interagir, sem o problema de fronteiras.
Uma das
coisas que Carlos mais reparou eram cartazes com o nome “George Farewell, trombonista
do Jazz”, e queria muito assistir à apresentação, pois havia reparado nisso nos
comerciais e era um de seus desejos e, com isso, ele e Rogério foram a um bar
para assistir ao músico.
O
ambiente era intimista, com luz fraca, um bar largo, com um bartender atrás
servindo drinques. As mesas eram redondas e pequenas, com quatro cadeiras cada.
As pessoas fumavam, conversavam e dava para sentir tudo, até mesmo o ambiente contagiante
do local. Os dois se sentaram em uma das mesas e pediram ao garçom duas
bebidas. Carlos pediu uma cerveja e quando Rogério pediu uma água, o garçom
achou estranho e Carlos olhou desconfiado para ele. Então, depois de engolir
seco, Rogério disse uísque com água. Quando o garçom partiu para pegar as
bebidas, Carlos disse que Rogério precisava relaxar e aproveitar.
A bebida
de ambos chegou e, junto, George Farewell subiu ao palco, com seu trombone na
mão direita. Então ele começou a tocar a música, que parecia adentrar no
interior de Carlos. Ele sentia as notas musicais que soavam do trombone, como
se preenchesse todo seu íntimo. Ele sentia aquela imergência tomando conta
dele.
Quando o
músico acabou, foi na direção dos dois e chamou-os para ir ao seu camarim.
Carlos e Rogério acharam aquilo estranho e inesperado, pois acreditavam que
George Farewell era parte do sistema e não interagia como os humanos. As
pessoas pareceram não perceber aquilo. Então, os dois seguiram George até o
camarim.
Chegando
lá, George sentou-se na cadeira de frente para um grande espelho com luzes à
volta. Na mesa sob o espelho, havia pós compactos, pincéis e batons, parecendo
um cenário de filme de cabaré. George começou dizendo que esperava por eles, ali.
Ele estava ali há anos e sabia que, um dia, surgiriam pessoas como eles dois. Carlos
e Rogério continuaram sem entender o que George dizia, então ele lhes explicou
que ambos não pareciam passageiros, ou seja, pessoas que estavam ali somente
para curtir um momento, mas para aproveitar tudo que poderiam vivenciar. Carlos
concordou com ele, mas Rogério ficou com um pé atrás e questionou há quanto
tempo George estava ali. Farewell não soube dizer, mas não lembrava mais da
vida que tinha fora dali, pois o local era maravilhoso para vier, diferente do
mundo real, onde os problemas viviam correndo atrás deles, fossem problemas
financeiros, de saúde, crises maritais, entre outros problemas.
Um alerta
surgiu para Rogério, enquanto Carlos parecia interessado naquela conversa.
Então, Rogério pediu licença à George e saiu com irmão, explicando a ele que
conhecia aquele homem. Seu nome era Jeremiah Tucker, ele era um dos criadores
da Máquina e estava há cinco anos preso no interior dela. Sua família acreditava
que ele tivera morte cerebral e, por isso, era mantido por máquinas. O alerta para
a Máquina fora criado por causa de Tucker, bem como os Schutzstaffel
anacrônicos. De acordo com o que Rogério lera, Tucker decidiu que o mundo real
era problemático demais e, por isso, decidiu que a Máquina traria um pouco de
paz para todos se sentirem menos pressionados pelos problemas. Ele estava se divorciando
da esposa, pois sua empresa não alavancava. Reclamou muito das pessoas não o
ouvirem por causa de sua cor e de ter nascido no Bronx, em Nova York. Então um
amigo dele, Terence Stompson, que estudara com ele no Massachussetts Institute
of Technology, decidiu patrociná-lo e, assim surgiu a Máquina dos Sonhos.
Ambos
fundaram a DreMac, Inc. e começaram vendendo a Máquina às Forças Armadas
estadunidenses, depois venderam para a Nasa, pois esses desejavam fazer a
viagem até Marte e precisavam de que seus astronautas tivessem uma viagem
relaxante e, com isso, seu negócio cresceu. Só que, um dia, Tucker decidiu
entrar na Máquina e nunca mais saiu. A filha de Jeremiah, Mamu Tucker, era tão
talentosa quanto o pai e decidiu que não o tiraria do seu sonho, mas criaria
formas de vigilância constante, principalmente para encontrar o próprio pai.
Cada mundo dos sonhos tinha um sistema de vigilância disfarçado de alguma
forma. O problema que o pai dela era o criador da Máquina, então ele conhecia
atalhos e formas de migrar entre os sonhos e mudar de identidade, sem precisar
selecionar na Máquina. Era alguém que vivia incógnito e sempre que percebia
pessoas para ficarem imersas como ele, tentava convencê-las, mas raramente
esses permaneciam tanto tempo quanto Tucker.
Rogério
não queria mais ouvir sobre tudo aquilo, acreditando que seu tempo dentro da
Máquina já havia passado. Saiu do camarim e chamou Carlos, que desejava
continuar ali, conversando e descobrindo mais coisas com George Farewell, ou
melhor, Jeremiah Tucker.
Devido a
constante insistência do irmão, Carlos levantou e foi embora com ele.
No
caminho que faziam, os dois discutiram muito e chegaram a brigar, caindo na calçada
de frente para a ponte Torenluis. Rogério se levantou e Carlos continuou
deitado ali, na umidade da calçada, que brilhava à lus dos postes. Então o “bonde”
chegou.
O bonde
era o meio de sair dali. Era a passagem de retirada da Máquina dos Sonhos.
Quando a porta abriu, saiu do interior um homem da altura de Carlos, bem musculoso
e peludo, carrancudo, fumando charuto, que questionou onde eles estavam. O homem
usava uma máscara e vestia uma spandex azul e amarelo que Carlos e Rogério
reconheceram. Ele, novamente, questionou aos dois onde estava, no que Carlos
lhe disse que era Amsterdam, na década de 1950. O homem disse que o Professor
Xavier havia lhe dito a verdade, era possível descer em outros sonhos. Atrás
dele desceu uma moça ruiva, usando uma máscara amarela e um vestido bem curto
de cor verde, que chamava o homem pelo nome de Jacques. Ele a chamou de Amèlie
e disse que o Professor Xavier que ele conhecera, havia falado a verdade. Eles
poderiam usar outros trajes e ficar ali. Então Amélie disse a Jacques que eles
precisavam voltar, pois tinham filhos e uma empresa que tocavam juntos. Carlos
reconheceu em Jacques algo que via em si mesmo, ou seja, alguém que desejava
fugir da própria realidade. Amèlie segurou no braço de Jacques e começou a
puxá-lo para dentro do bonde, mencionando que antes era um Blackbird SR-71.
Rogério e
Carlos observaram os dois retornarem para o interior do veículo. Então, Rogério
falou com o irmão que eles precisavam ir, também. Xingando o irmão, Carlos o
abandonou ali e correu de volta para o bar. Chegando lá, percebeu que estava
fechado e viu os Schutzstaffel se aproximando dele e decidiu falar com ele,
novamente. Os dois interagiram com ele e o questionaram se Carlos havia visto
algo estranho. Ele disse que não. Os dois seguiram em frente, então.
Carlos
seguiu pela rua, vendo pessoas passarem por ele, rindo e conversando. Então, do
interior de um beco escuro, ele viu alguém o chamar. Lógico que achou aquilo
suspeito, mas não acreditava que alguém lhe faria mal ali e foi na direção do
chamado e reconheceu George.
Questionou
a ele se já havia se disfarçado de Professor Xavier, E Tucker confirmou aquilo.
Ele via na aura das pessoas uma vivência sofrida e lamuriosa e, por isso,
tentava convencê-las que permanecer ali seria uma libertação. Sentindo uma
proximidade, Carlos lhe contou sobre ele e o que vivia.
Ele
contou que era um professor e não conseguia progredir por causa de sua própria
estática. Não conseguiu se firmar em nenhum relacionamento, pois sempre causava
os problemas que resultavam no término da relação. Tinha problemas financeiros,
pois insistia em comprar coisas que não fariam a mínima diferença em sua vida,
somente porque deseja ter aquilo. Ele causava os próprios problemas e a Máquina
era a melhor forma de fugir da própria vida que era sua consequência. Mas, ao
falar aquilo, Carlos começou a refletir e pensar no que Rogério havia lhe
falado sobre a história de Tucker. Permanecer ali seria uma solução temporária,
pois traria problemas para sua família, fora dali. Ele seria um estorvo maior
do que do lado de fora, e percebeu que tinha de ir pegar o bonde.
Foi aí
que decidiu contar para Tucker tudo que Rogério lhe contava, mas Jeremiah
pareceu lhe ignorar, como se aquilo já teria sido dito inúmeras vezes, mas ele
não se importava. Carlos não queria ser assim. Então olhou para George Farewell
e se despediu dele, indo para a ponte. George olhou para ele, incrédulo e,
vendo os Schutzstaffel se aproximando, sumiu na escuridão. Quando Carlos os viu
também, disse que Jeremiah Tucker estava naquele beco, e seguiu para a ponte.
Lá chegando, não demorou muito, o bonde chegou e ele embarcou, despertando em
sua casa, com seu irmão e sua mãe esperando por ele. Quando viram que ele
despertara, o abraçaram, felizes por ele não ter ficado preso dentro da
Máquina.
Carlos sabia
que aquela experiência havia sido algo memorável, mas não esperava nunca mais
voltar, pois sonhos são fantasias, pura imaginação.