sábado, 5 de abril de 2025

Mensagens

 


Bruno estava no intervalo de seu trabalho, comendo um lanche e observando jovens jogando basquete em uma quadra, quando seu celular vibrou e ele viu uma mensagem:

- “Oi!” – Ele ignorou-a, pois não reconheceu o número. Quando ia retornar para seu lanche, outra mensagem chegou:

- “Oi, Bruno. Sei que está no seu intervalo e queria conversar”. – Ele achou que algum colega do trabalho estava lhe passando um trote e decidiu entrar na brincadeira:

- É mesmo, e quem é você?

- “Sou Geisiane. Conheço sua prima, Sara, e ela me passou seu número. Algum problema isso?” – Bruno logo desconfiou de Pedro, seu amigo de longa data e apaixonado por Sara:

- Não, nenhum problema, mas podemos conversar depois, pois tenho que terminar de comer e voltar ao trabalho.

- “Sem problema,” - ela digitou. – “quando terminar, me mande uma mensagem. Tchau! – Bruno não respondeu essa última mensagem e terminou de comer”.

O dia passou e Bruno esqueceu daquela conversa por mensagens que tivera. Quando chegou em casa e descartou o celular sobre a cama, este tocou, novamente. Ele apanhou e uma nova mensagem da tal Geisiane estava nele:

- “Oi”. – A conversa da tarde voltou a sua memória e ele decidiu acabar com aquilo:

- Pedro, eu estou cansado e não tô a fim de brincadeiras. – Largou o telefone sobre a cama e foi tomar banho. Ao sair do banho, viu uma nova mensagem na tela:

- “Quem é Pedro?” – Bruno achou que aquilo não tinha mais graça. Desde que fora traído por Bianca, Bruno se sentia fragilizado e sem vontade de compromisso. Pedro sempre insistia que ambos saíssem para que ele conhecesse alguém, mas não era o que Bruno queria, pois tinha o trabalho, seus livros e seus filmes:

- Tá bom, Pedro. – Ele digitou. – Não quero mais brincar disso. Se continuar assim, vou falar pra Sara sobre sua urticária. – E seguiu para a sala, com o celular na mão. Ligou a televisão, quando sentiu ele vibrar e, com um sorriso maroto no rosto, leu a mensagem:

- “Ah, então Pedro é aquele que está na foto com você. Ele é afim de Sara? Ele tem urticária?” – A orelha de Bruno esquentou. Isso sempre acontecia, quando ele sentia que tinha falado demais sobre o que não devia:

- Peraí, se você não é o Pedro, quem é você?

- “Eu já disse, sou Geisiane”. – Ela escreveu novamente o nome dela. Bruno sentiu sua orelha esquentar mais. – “Vi uma foto na casa de sua prima e perguntei sobre você e ela me deu seu número”.

Aquilo foi inesperado, pois Bruno estava preparado para um trote de seu melhor amigo, mas não para uma moça lhe mandando mensagens pelo celular:

Então você é de verdade? – Ele digitou, sem pensar muito no que escrever, e lhe retornou uma mensagem com risos, seguido por uma escrita:

- “Você pensou que fosse um trote desse seu amigo que gosta de sua prima?” – E, antes dele responder, ela continuou. – “Sim, sou real. Eu sou vizinha de sua prima há bastante tempo e nós nos somos amigas desde pequenas. Quando fui visitá-la em casa, ela me levou até o seu quarto e pude ver uma foto sua com ela e esse seu amigo, Pedro. Vocês estavam na piscina do SESC de Praia Formosa. Ah, caso não saiba, ela também gosta do seu amigo”.

Bruno deu uma risada com aquilo, pois ele sabia disso, mas digitou:

- Sim, eu sei, mas prometi que não ia me envolver entre os dois. Então vou deixar que se revelem, um para o outro. – E colocou um emoji com uma carinha piscando, e continuou. – Mas por que quis falar comigo? – Era a baixa estima de Bruno falando mais alto, mas veio a resposta:

- “Porque te achei interessante, e à medida que Sara falava de você, fiquei mais intrigada. Então, você gosta de Tolkien?” – A pergunta foi inusitada e Bruno gostou de conversar com alguém que lhe perguntasse aquilo:

- Assim, não sou nenhum fã, mas gosto de ler os livros dele. Tenho Silmarillion, Contos Inacabados, O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Recentemente comprei o anel de Barahir, o Um Anel e o cachimbo de Bilbo Bolseiro.

- “E ainda diz que não é fã?” – Ela digitou, seguido de risadas. – “Queria não ser fã como você, pois tudo que tenho são os livros de O Senhor dos Anéis. O que seria Silmarillion e Contos Inacabados?”

Bruno explicou detalhadamente cada um desses livros de Tolkien, estendendo a conversar ao mencionar C.S. Lewis e George R.R. Martin. Quando foi ver já era tarde e ele nem havia comido, antes de ir dormir:

- Então, a conversa está maravilhosa, mas preciso me recolher, pois tenho de acordar cedo para o trabalho. – Bruno digitou. – Conversamos quando eu voltar do trabalho?

- “Eu mando mensagem para você, no mesmo horário que mandei hoje, pode ser?” – Geisiane digitou e Bruno respondeu com um jóinha. – “Durma bem”.

Ele respondeu a mesma coisa e depois pensou que poderia ter escrito mais coisas, só que, se prolongasse mais a conversa, terminaria ficando com sono no trabalho.

Quando acordou, Bruno tomou café e pensou se tudo aquilo não teria sido alguma brincadeira de Sara ou mesmo, persistindo, de seu amigo Pedro. Com isso, ligou primeiro para Pedro, que atendeu ao telefone sonolento:

- “Alô? Quem incomoda de madrugada?”

- Você sabe que sou eu. – Bruno respondeu. – Aqui, você me zoou ontem, não foi? Com aquela pegadinha da garota mandando mensagens.

- “Que porra de pegadinha, Bruno? Aqui, você acorda os galos para cantarem? Que horas são? Porra, são oito horas da manhã! Aqui, me liga depois da uma hora da tarde e a gente conversa”. – E desligou o telefone, sem esperar Bruno falar alguma coisa. Sendo assim, Bruno ligou para Sara, pois sabia que ela deveria estar na faculdade naquele horário:

- “Ei, primo. O que manda?” – Ela atendeu ao telefone e Bruno foi direto:

- Você me passou algum trote ontem com uma suposta amiga chamada Geisiane? – E do outro lado se ouviu um grito histérico.

- “Então Geisi te ligou mesmo? Ai, que maravilhoso. Ela é uma pessoa ótima, Bruno. Tenho certeza que você vai gostar dela”.

- Então não foi trote? Ela existe?

- “Lógico que existe, idiota”, Sara falou, “Aqui, eu tenho que ir pra sala. Depois nos falamos. Beijos”. – E também desligou sem esperar Bruno responder.

“Ela é real”, pensou Bruno para si mesmo.

Bruno foi ao trabalho, mas ficou esperançoso de ter com quem falar ao final do dia.

Quando chegou em casa, ficou preocupado se tomaria banho antes ou depois de conversar com Geisiane e, temeroso de ficar muito tarde, foi tomar um banho. Quando saiu, verificou que no celular tinha uma nova mensagem dela:

- “Oi?”

- Oi. Desculpa, fui tomar um banho para não me preocupar com isso enquanto conversamos. – Ele respondeu, e ela seguiu:

- “Que bom. Banhos fazem bem. Relaxam o corpo e a alma. Agora me diga: DC ou Marvel?”

Bruno riu sozinho em casa. Ele não podia acreditar que entraria nesse debate:

- Depende, pois se estamos falando do cinema, infelizmente a Marvel anda disparada na frente. E olha que não estou contando os clássicos como Superman de Christopher Reeve e Batman de Michael Keaton.

- “Eu não vou aos cinemas. Leio quadrinhos de ambos, mas, sinceramente, acho insuperável o Sandman de Neil Gaiman”. – E a conversa rendeu por horas, com comparações de escritas de Gaiman e Alan Moore, a fase Image Comics dos anos de 1990. Sin City de Frank Miller e os vários reboots da DC Comics, os que deram certo, como Crise nas Infinitas Terras, e o que deram errado, como Os Novos 52.

Os dias se passaram e Bruno percebeu que Geisiane era uma menina incrível. Quando chegou o final de semana, ele e Pedro foram à um barzinho e, por horas, Bruno falou de Geisiane.

Quando completou um mês de conversa, Bruno sugeriu que fosse conhecer Geisiane, mas ela achou melhor não, justificando que estava em um período muito importante da faculdade.

Depois dessa conversa, Geisiane ficou dias, semanas sem falar com Bruno, deixando-o achar que falara algo errado:

- O que aconteceu, Sara? Por que Geisiane não me manda mensagens? Eu tenho mandado mensagens para ela, mas ela não me responde. – Pedro falou à prima, em um tom desesperado. Parecendo nervosa, Sara disse:

- “Bruno, eu não posso falar, pois prometi a Geisi que a deixaria falar contigo. Mas calma, ela vai entrar em contato com você”. – Aquilo não acalmava Bruno, pois ele começou a pensar outras coisas, piores do que ela não querer falar com ele.

Então, em um sábado, veio uma mensagem:

- “Ei, sumido”, com risos na sequência. Os olhos de Bruno brilharam e seu coração disparou:

- O que aconteceu com você? – Ele questionou.

- “Ah, passei um pouco mal. Mas estou bem melhor agora”.

- Eu fiquei desesperado, pois não tive notícias suas por três semanas.

- “Ah, nem foi tanto assim”, ela brincou. “Pronto, já estou aqui”.

Os olhos de Bruno estavam marejados e ele sorria por poder conversar com Geisiane, novamente. Como ela parecia querer terminar o assunto por ali, ele deu continuidade com a conversa em outro ponto.

Mais dois meses passaram. Às vezes, Geisiane se ausentava por algumas semanas, mas sempre voltava e os dois continuaram a conversar.

Quando chegou um período de férias para Bruno, ele prometeu a si mesmo que faria uma surpresa para Geisiane, e como sabia que Pedro tinha um affair por Sara, o convenceu a acompanhá-lo.

Compraram as passagens de trem, pois Geisiane e Sara moravam no interior de Minas Gerais, e embarcaram logo de manhã cedo. Ao chegarem na cidade das duas, Bruno e Pedro se dirigiram à casa de Sara, onde se hospedariam, como ele avisou a prima enquanto esperavam embarcar no trem:

- Ótima forma de me avisar que estava vindo pra cá. – Disse Sara, quando os rapazes entraram na sua casa. Pedro deu um sorriso e a cumprimentou, já Bruno foi direto ao assunto:

- Onde Geisi mora?

- Boa tarde pra você também, primo. – Disse Sara e, de forma mais séria continuou. – Olha, não sei o que você está espertando aparecer assim por aqui, mas Geisi não está muito bem esses dias.

- O que você está dizendo? – Questionou Bruno, preocupado. – Nos falamos outro dia...

Antes que Bruno continuasse, Sara o interrompeu:

- Bruno, eu não posso falar pela Geisi, mas eu tenho que lhe prevenir que nada é exatamente o que você pensa. Você conhece uma menina maravilhosa pelas mensagens que trocam. Eu acho melhor que continue assim. O trem passa no final da tarde, vamos à estação e você compra a passagem de volta, e vocês continuam conversando por mensagem, como tem sido.

Bruno não podia aceitar aquilo e, nervoso, falou:

- Ou você me fala onde Geisi mora ou vou bater de porta em porta até descobrir a casa dela. Pedro, você vem comigo? – Pedro havia sentado na mesa para comer algo, que estava sendo servido pela mãe de Sara, e não pode responder de boca cheia, mas olhou para ambos de forma espantada. Ainda nervoso, Bruno continuou. – Tudo bem, pode ficar aí. Boa tarde, tia Amélia. – Sua tia o cumprimentou com um abano de cabeça e ele seguiu para a porta, mas Sara o parou:

- Tudo bem. Eu te levo até lá. Só que, Bruno, você tem conversado com ela e tem imaginado uma pessoa que não conhece em definitivo...

- Você não sabe o que eu penso, Sara...

- Eu li as mensagens de vocês dois, Bruno. Geisi me mostrou, pois somos amigas desde a infância. Não sei o motivo, mas ela está gostando muito de você, mesmo. Se você fizer algo com ela que eu não gostar, te chuto de lá com mais facilidade do que chuto um galo que tenta me atacar, entendeu?

Bruno sentiu a seriedade e a ameaça na voz de Sara. Então, de forma calma, pediu:

- Me leve até a casa dela, por favor. – Sara virou pra mãe dela e disse que estava levando Bruno até a casa de Geisiane, e os dois saíram. Chegando até o portão da casa de Geisiane, Sara gritou:

- Tia Lavínia, sou eu, a Sara. Tô com meu primo aqui, podemos entrar. – Lavínia apareceu na porta e olhou para os dois, no portão:

- Então você é o Bruno, o príncipe encantado da minha Geisiane. Que bom conhecer você, meu filho. Sim, podem entrar. Shazam tá preso lá no fundo.

Bruno pensou, “o cachorro dela se chama Shazam!”, e deu um sorriso bobo. Lavínia viu o sorriso no rosto dela e falou:

- Tá rindo por causa do nome do cachorro? É, Geisiane é viciada naqueles quadrinhos que os tios dela e os irmãos trazem quando vem pra casa. Chamava o cachorro de BB, dizendo que era o Billy Batson, daí, quando ficou grande começou a chamar de Shazam. Sempre achei besteira, mas o pai dela acha divertido. Fazer o quê?!

Os três entraram pela casa humilde da família de Geisiane, pois o quarto dela ficava no fundo, perto da cozinha e com a porta de frente para o banheiro:

- Geisi, Sara tá aqui e ela te trouxe uma surpresa. – Gritou a mãe, do corredor, com voz animada. Ao chegarem, ela abriu a porta e os três entraram no quarto.

Geisiane estava deitada em uma cama de hospital, com um respirador no nariz. Ela olhou para as três pessoas que entraram no quarto e se assustou ao ver Bruno ali. Com dificuldade para falar, ela disse:

- Bruno, o que você... faz aqui. – Ela tentou se colocar em uma posição melhor e sua mãe correu para ajudá-la. – Eu não sabia... que você... viria. – Bruno tentou não demonstrar surpresa e falou:

- Surpresa. Vim passar minhas férias com você. – E terminou com um sorriso no rosto. Depois de ajeitar a filha na cama, Lavínia se retirou e levou Sara com ela, que olhou seriamente para Bruno. Quando as duas saíram, ele se sentou ao lado da cama e olhou os monitores que mediam os batimentos cardíacos e a respiração de Geisiane:

- O que você tem? – Ele perguntou, sem pensar, e quando pensou na pergunta que fizera, continuou. – Desculpa, eu não tenho o direito...

- Você tem todo o direito. – Disse Geisiane, com a respiração um pouco melhor, e continuou respondendo à pergunta dele. – Os médicos não sabem ainda o que tenho, mas de tempos em tempos, preciso ir à Belo Horizonte e passo por uma baterias de exames.

- Por isso você não me respondia por semanas...

- Não tinha como lhe responder, pois eu ficava isolada no hospital. Perguntei ao meu médico se tinha como falar com você, mas ele disse que o isolamento era necessário e o celular, de acordo com ele, carrega o maior número de germes do mundo. – Ela sorriu e, sentindo um prazer naquele sorriso, Bruno falou:

- Eles não podiam esterilizar? – E os dois riram juntos. Então ele continuou. – Por que não me contou? Por que não me disse sobre você?

- Eu não sabia como falar. – Geisiane respondeu. – Pelas mensagens, eu achava melhor manter somente a pessoa que você conheceu, que gosta do mesmo que você.

- Mas eu saberia entender e, quem sabe, viria antes te ver...

- Eu não queria que você meu Ciclope.

- Seu Ciclope. – Ele pareceu com raiva, mas levantou a cabeça com um sorriso. – Eu estou mais para Aragorn e você é minha Arwen. – E ambos riram.

A conversa prosseguiu com Geisiane contando mais sobre ela, foi quando Bruno perguntou:

- Quando foi que você viu minha foto?

- Ah, isso foi há uns meses, quando ela trouxe uns álbuns de família aqui em casa. Desculpa ter mentido sobre ter ido à casa dela.

- Eu deveria ter percebido. Sara nunca deixaria uma foto minha exposta. A não ser que fosse para espantar mosquitos. – E o dois riram, novamente. De repente, surgiu na porta Sara e perguntou do que os dois estavam rindo e Bruno disse. – Estávamos falando mal de você. – Geisiane começou a rir e, com isso, uma tosse persistente tomou conta dela, ouvindo àquilo, sua mãe correu para ajuda-la:

- Eu posso ajudar em alguma coisa? – Bruno questionou, preocupado. Lavínia disse:

- Não, meu querido. Acho melhor vocês voltarem depois. – E Sara começou a puxar Bruno para fora do quarto, que sentia lágrima saindo dos seus olhos. Quando estavam na rua, a caminho de casa, Sara percebeu como Bruno parecia abalado e falou, de forma otimista:

- Não precisa ficar assim. Amanhã ela estará melhor e vocês poderão continuar a conversa de onde pararam. – Mas aquilo não pareceu melhorar as coisas, pois Bruno permaneceu cabisbaixo. Quando entraram na casa de Sara, Bruno foi logo para o quarto, deixando todos na sala, com Sara contando o que ocorreu.

No quarto, aos prantos, Bruno chorou até cair no sono.

Quando acordou, o dia estava amanhecendo e reparou que Pedro dormia na cama próximo da sua. Trocou de roupa e saiu para tomar o café da manhã, encontrando seus tios na cozinha. Conversou um pouco com eles e, assim que terminou saiu da casa, indo até a casa de Geisiane, onde testemunhou o tamanho de Shazam, que era um enorme cão caramelo, que latia com força, fazendo Lavínia vir à porta:

- O que houve, rapaz? – E viu que Bruno estava no portão. – Ah. Oi, Bruno. Peraí, que vou prender Shazam lá atrás. – Ela entrou e retornou com uma corrente que prendeu na coleira do cachorro e o levou para o terreno atrás da casa. Logo voltou ao portão, abrindo-o:

- Desculpa aparecer tão cedo. – Se desculpou Bruno, no que Lavínia disse:

- Se preocupa não, filho. Aqui todos nós acordamos cedo. O pai de Geisiane, daqui a pouco, tá saindo pro trabalho. Vem me ajudar a servir o café da manhã dela. – E Bruno entrou na casa. Chegando na cozinha, viu o pai de Geisiane e o cumprimentou. Viu a bandeja do café da manhã de Geisiane sobre a pia e ajudou a levar para o quarto. Lá chegando, viu que Geisiane estava lendo a minissérie Odisseia Cósmica, em formato encadernado, e falou:

- Já tá pensando em encarar Darkseid cedo assim? – Geisiane deixou a revista de lado e olhou para ele, com um sorriso no rosto, o que deixou sua mãe feliz, também:

- Seu mingau, querida. – Bruno viu aquela pasta branca e perguntou o que tinha, no que Lavínia respondeu. – é um creme de tapioca, mas sem leite e com água. Os médicos acham melhor que ela não consuma leite ou qualquer derivado. Também tem uns biscoitos água e sal, pois não pode consumir pão.

- Você se acostuma, principalmente quando comeu isso quase a vida toda. – Argumentou Geisiane.

- Bem, se é assim. ‘bora comer esse creme! – Concluiu Bruno, com um sorriso.

Ele ficou ali assistindo Geisiane terminar de comer seu creme de tapioca e comer os biscoitos. Quando ela terminou, pediu para ele esperar, pois sua mãe precisava leva-la ao banheiro. Quando voltou, deitou na cama e os dois começaram uma conversa prolongada, que somente foi interrompida por Lavínia, avisando que o almoço estava servido. Na bandeja de Geisiane vieram dois pratos. A comida era bem semelhante, mas Geisiane somente comia arroz com caldo de feijão e ovo cozido, amassado. Os dois comeram com satisfação e, novamente, após o almoço, Geisiane foi levada por sua mãe ao banheiro. Estranhando aquilo, Bruno resolveu argumentar à Geisiane:

- Seu sistema digestivo funciona tão rápido assim? – Ela olhou para ele e riu:

- Não. Eu vou ao banheiro para ver se está tudo funcionando bem, pois, às vezes, demora dias para eu fazer o número dois. – E Bruno sorriu, envergonhado.

Os dois prosseguiram com a conversa durante mais algumas horas, até que Sara apareceu e falou:

- Esqueceu que você está na minha casa? E que trouxe seu amigo com você?

- Na verdade, estou dando a oportunidade de vocês dois se acertarem. – Pontuou Bruno. – Já passou da hora de vocês dois dizerem que um gosta do outro. – Mal bruno terminou de falar e Pedro apareceu na porta:

- Peraí, como é que é? Você gosta de mim? – Pedro perguntou, com ar confuso. – Por que nunca me falou?

- Pelo mesmo motivo de você nunca ter me falado, seu bocó. – Disse Sara, nervosa, e saiu do quarto. Pedro ficou mais confuso ainda, sem entender nada e viu Geisiane na cama:

- Oi, eu sou Pedro. O melhor amigo desse boca grande. – Geisiane sorriu e respondeu:

- E eu sou Geisiane, a namorada desse boca grande. – Bruno olhou para ela, surpreso e com um sorriso que parecia rasgar seus lábios:

- Bem, acho melhor irmos atrás dela. Amanhã eu venho, cedo. – E, antes de sair, Geisiane o puxou e deu um beijo nele. Ele sentiu os lábios delicados e ressecados dela. Foi uma sensação maravilhosa e única para ele.

Bruno parecia andar nas nuvens, enquanto seu amigo parecia estar fazendo uma conta de trigonometria impossível de solucionar. Quando chegaram na casa de Sara, Pedro foi a procura dela e encontrou-a na varanda do fundo da casa e ficou lá por algum tempo. Bruno sentou na sala, onde seus tios estavam assistindo as notícias da noite. Depois foi atrás de Pedro e Sara e, ao chegar lá, os viu se beijando:

- Finalmente! – falou em tom alto, para lhes chamar a atenção, e riu. Os dois olharam para ele, envergonhados. Bruno então gritou. – Geisi, os dois finalmente se beijaram! – E puderam ouvir os latidos de Shazam, ao longe. Se aproximou do primo e do melhor amigo e os três conversaram sobre os acontecimentos do dia e, quando Bruno contou sobre o beijo, Sara disse:

- Fico muito feliz por vocês dois, primo.

- E eu por vocês dois, prima. – Correspondeu Bruno.

Ficaram ali, por horas, conversando, enquanto o novo casal trocava carícias nas mãos ou beijos discretos, para não deixar Bruno se sentindo “segurando vela”. Era bem tarde quando foram dormir e Bruno logo pregou os olhos, acordando menos cedo no outro dia.

Foi à cozinha e não viu a sua tio ou seu tio, se servindo com café e pão. Quando terminou, foi em direção ao portão e viu que ele estavam ali, conversando com Lavínia, o que deixou Bruno preocupado:

- Ei ,filho, vim ver você. – Começou Lavínia a falar. – Olha, Geisiane passou mal e precisou ir com urgência, pro hospital. Meu filho veio, de madrugada, de Colatina, e a levou até o hospital daqui. Agora estão esperando para transferi-la para Belo Horizonte. Ela escreveu isso pr’ocê, antes de passar muito mal. – entregou o bilhete para Bruno. – Agora preciso ir, pois vou com ela.

- Posso ir junto? – Bruno questionou, em um rompante.

- Infelizmente não, querido. Faça suas preces pra Deus, pra que ela melhore e volte logo. – Deu um sorriso sem graça e saiu. Bruno apertou o bilhete com força, na mão e ficou sem chão. Seu tio o ajudou a entrar e o colocou no sofá da casa. Sua tia e seu tio falavam com ele, mas pareciam distantes. Temerosos, foram acordar Sara e contaram a ele o que aconteceu e ela correu para a sala, vendo o primo em um transe agoniante. Não tentou falar com ele, mas chamou Pedro, que acordou exasperado e, com um certo esforço, pegou o amigo com o tio deste e o levou para a varanda. Trouxeram água, que Bruno bebeu, sem nem perceber o que bebia. Pedro tentou atrair a atenção de Bruno, fazendo-o olhar nos olhos:

- ‘cê tá me ouvindo? – Ele falou várias vezes, até que Bruno pareceu entender o que o amigo dizia. – Fala comigo, Bruno?!

- Ela foi pro hospital e eu não posso vê-la hoje. – Bruno balbuciou. – Ela me deixou uma carta. Por que ela me deixou uma carta? Eu não posso perdê-la. Me fala que eu não vou perdê-la, por favor! Eu preciso dela, Pedro. – E Bruno tentou se levantar e correr, mas Pedro o segurou com força. Sara chorava. – Não, não chore, Sara. Ela vai voltar. A carta... por que ela me escreveu uma carta? – Bruno gritou, desesperadamente, com lágrimas transbordando de seus olhos. Ele, então, caiu de joelhos, mas com impacto amortecido, pois Pedro ainda o segurava. Chorou copiosamente.

O resto do dia, Bruno passou sem comer nada e bebia água, pois se via forçado a isso. Sara e Pedro não saíram do seu lado nenhum minuto, mesmo quando almoçaram e jantaram. Então, uma mensagem chegou ao celular de Bruno:

- “Me desculpa, filho, mas Geisiane está com os anjos!” – Aquelas palavras atingiram Bruno como um raio mortal. Ele gritou e fez a tela do seu celular trincar, com a raiva que sentia. Percebendo o que ocorrera, Sara e Pedro o abraçaram com força, em prantos, também.

No dia seguinte, era uma segunda-feira e Bruno, entristecido, foi até a ferroviária e comprou uma passagem de volta, sem esperar Pedro ou Sara. Quando voltou para a casa de sua prima, viu Shazam solto, atrás do portão da casa e se aproximou dele, falando:

- Sinto muito, Shazam. Mary Marvel não vai voltar mais! – E, parecendo entender o rapaz do outro lado do portão, o cachorro não latiu, somente olhando para ele, com olhos meigos.

Bruno retornou para a casa dos tios e arrumou sua bagagem, partindo para a ferroviária, sem se despedir de ninguém.

Ele sabia que trem somente chegaria às três horas da tarde, mas preferia ficar ali, esperando sua ida de volta para casa.

Quando eram dez horas da manhã, Sara e Pedro chegaram à ferroviária:

- O que você pensa que está fazendo? – questionou Pedro. – Tá indo embora e me deixando aqui?

- Você está bem, agora. Você e Sara se entenderam, finalmente. – Respondeu Bruno.

- Mas você não vai esperar para ir ao enterro de Geisiane? Não vai se despedir dela? – Argumentou Sara.

- Me despedir do que, Sara? De um corpo que um dia pertenceu a alma mais linda que eu já conheci. Daquela pessoa maravilhosa que ousou um dia me enviar uma mensagem e conseguiu me conquistar como ninguém mais? Não consigo! Preciso voltar para casa.

- Você está sendo egoísta! – Sara falou, com raiva e lacrimejando. – Seu covarde e egoísta!

- Pode falar o que desejar de mim. – Bruno falou, de forma rancorosa. – Pode me chamar do que quiser, mas eu sei o que senti por ela e o que ela sentia por mim. Somente nós dois sabíamos o que sentíamos um pelo outro, e suas palavras não vão mudar isso.

Nervosa e decepcionada, Sara saiu da ferroviária, deixando Pedro e Bruno para trás. Pedro então argumentou:

- Bruno, nos conhecemos há anos e sei muito bem que você está se segurando aí dentro. Acha certo ir embora agora? Se for isso mesmo, sabe que não vou te impedir. – E Bruno balançou a cabeça, afirmativamente, sem dizer nenhuma palavra. E, vendo isso, Pedro saiu e encontrou Sara na Praça, indo os dois embora para a casa dela.

A ferroviária encheu de pessoas e o trem chegou na hora marcada. Bruno embarcou e se sentou em sua cadeira, sozinho e, a medida que ia se afastando da estação, começava a chorar, constantemente, até cair no sono.

Ele somente acordou quando chegou a Estação Ferroviária que deveria desembarcar. Pegou um táxi e retornou para casa. Ao desfazer a bagagem, viu o celular com a tela trincada e, junto deste, estava o bilhete de Geisiane, que ele ainda não havia lido. Pegou ele e começou a ler:

“Ei, meu lindo Aragorn.

“Estou aqui, deitada nessa cama, em mais uma de minhas crises – por isso, desculpa pelos garranchos – e só consigo pensar em seus lábios.

“Obrigado por ter me feito feliz e espero que eu tenha lhe feito feliz, também.

“A vida são momentos feitos de pequenas felicidades que compõe nossas vidas e, quando juntadas, se tornam grandiosas.

“A minha primeira pequena felicidade foi quando você me respondeu, pela primeira vez.

“A segunda pequena felicidade, foi quando você chegou de surpresa e me aceitou como eu sou.

“A terceira pequena felicidade, foi o nosso primeiro beijo e, sinceramente, espero que essa crise passe logo para que tenhamos várias outras pequenas felicidades e, no final, formemos a maior felicidade que qualquer um nunca teve.

“Da sua eterna Arwen”.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A Máquina dos Sonhos

Leonid Afremov

 A Máquina dos Sonhos.

Era o verdadeiro desejo de consumo de todos, pois, de acordo com os comerciais que se via, levava você para onde desejasse e você poderia viver nesse lugar o quanto quisesse.

Carlos sempre desejou ter um desses aparelhos nas mãos, ainda mais quando viu o cenário de Amsterdã, durante o final da década de 1950, quando explodiu o jazz na cidade. As ruas iluminadas por postes antigos, passando sobre a ponte Torenluis, com bicicletas. Ele pensava embarcar nessa viagem como um beatnik, curtindo à noite e permanecendo o máximo que pudesse, mas ele era um professor e não ganhava o suficiente para adquirir aquele aparelho, que era somente acessível para pessoas com uma renda alta.

Então, seu irmão Rogério, que trabalhava com desenvolvimentos de sistemas avançados, chegou na casa de Carlos e trouxe, com ele, uma Máquina dos Sonhos.

Sabendo do desejo do irmão mais velho de experimentar o aparelho, Rogério recebeu uma para fazer um experimento e dar sua análise sobre o aparelho e, com isso, decidiu dividir a experiência com seu irmão, por isso decidiu viajar para levar até ele.

Quando abriram a caixa do aparelho, ele tinha quatro ventosas brancas para serem colocadas nas têmporas da cabeça. No manual estava escrito que as ondas correriam entre as duas ventosas, levando-os ao local que desejassem. Junto das ventosas, estava um aparelho com uma tela pequena e um pequeno teclado numérico abaixo. No manual havia uma lista mostrando para onde cada número os levaria e, no número cinco estava o desejo de Carlos. Rogério acreditava que o irmão desejaria ir ao número cinquenta, que era um mundo de super-heróis, mas Carlos insistiu em irem para o sonho número cinco.

Daí escolheram seus trajes. Carlos logo escolheu o estilo beatnik, com uma camisa de gola alta preta, um colete cinza por cima, um chapéu fedora da mesma cor e uma calça com pregas cinza, também. Decidiu se parecer com vinte anos, mas mantendo o bigode e o cavanhaque. Já Rogério escolheu algo parecido, mas sem o colete, sem o chapéu e usando calças jeans.

Carlos estava ansioso pela experiência, mas Rogério o preveniu com o alerta sobre o aparelho, pois dizia que a pessoa não poderia interromper o sonho de outra, caso essa não quisesse, pois poderia causar um problema neural sério. Carlos fingiu entender o que seu irmão dizia, mas não se importou e logo colocou as ventosas nas têmporas. Rogério fez o mesmo e ativou o aparelho, embarcando os dois em um mundo glorioso de sonhos.

Carlos percebeu que conseguia sentir tudo. O ar úmido, a garoa que caía, o pouco calor emitido pelos postes. Era uma grande imersão em um novo mundo de sonhos. Reparou em si mesmo no vídeo de uma vitrine próxima e viu uma pessoa que não via há anos a sua frente, lembrando-se de uma foto que havia tirado anos atrás. Quando olhou para seu irmão, ele mais parecia o co-fundador da Apple, Steve Jobs. Ele achou aquilo engraçado e sentiu a própria risada, algo que não ocorria em um sonho normal.

Os dois andaram pelas ruas e repararam em algo estranho, haviam homens que pareciam membros da Schutzstaffel, algo totalmente anacrônico com o período que estavam, e questionou isso com seu irmão, que lhe explicou que eram códigos de proteção do sistema, estavam ali, pois pessoas estavam abusando do uso da Máquina. Carlos passou por eles e os cumprimentou em alemão, o que o espantou, pois ele nunca havia falado o idioma. Rogério lhe disse que isso era algo da Máquina, também, assim todos podiam interagir, sem o problema de fronteiras.

Uma das coisas que Carlos mais reparou eram cartazes com o nome “George Farewell, trombonista do Jazz”, e queria muito assistir à apresentação, pois havia reparado nisso nos comerciais e era um de seus desejos e, com isso, ele e Rogério foram a um bar para assistir ao músico.

O ambiente era intimista, com luz fraca, um bar largo, com um bartender atrás servindo drinques. As mesas eram redondas e pequenas, com quatro cadeiras cada. As pessoas fumavam, conversavam e dava para sentir tudo, até mesmo o ambiente contagiante do local. Os dois se sentaram em uma das mesas e pediram ao garçom duas bebidas. Carlos pediu uma cerveja e quando Rogério pediu uma água, o garçom achou estranho e Carlos olhou desconfiado para ele. Então, depois de engolir seco, Rogério disse uísque com água. Quando o garçom partiu para pegar as bebidas, Carlos disse que Rogério precisava relaxar e aproveitar.

A bebida de ambos chegou e, junto, George Farewell subiu ao palco, com seu trombone na mão direita. Então ele começou a tocar a música, que parecia adentrar no interior de Carlos. Ele sentia as notas musicais que soavam do trombone, como se preenchesse todo seu íntimo. Ele sentia aquela imergência tomando conta dele.

Quando o músico acabou, foi na direção dos dois e chamou-os para ir ao seu camarim. Carlos e Rogério acharam aquilo estranho e inesperado, pois acreditavam que George Farewell era parte do sistema e não interagia como os humanos. As pessoas pareceram não perceber aquilo. Então, os dois seguiram George até o camarim.

Chegando lá, George sentou-se na cadeira de frente para um grande espelho com luzes à volta. Na mesa sob o espelho, havia pós compactos, pincéis e batons, parecendo um cenário de filme de cabaré. George começou dizendo que esperava por eles, ali. Ele estava ali há anos e sabia que, um dia, surgiriam pessoas como eles dois. Carlos e Rogério continuaram sem entender o que George dizia, então ele lhes explicou que ambos não pareciam passageiros, ou seja, pessoas que estavam ali somente para curtir um momento, mas para aproveitar tudo que poderiam vivenciar. Carlos concordou com ele, mas Rogério ficou com um pé atrás e questionou há quanto tempo George estava ali. Farewell não soube dizer, mas não lembrava mais da vida que tinha fora dali, pois o local era maravilhoso para vier, diferente do mundo real, onde os problemas viviam correndo atrás deles, fossem problemas financeiros, de saúde, crises maritais, entre outros problemas.

Um alerta surgiu para Rogério, enquanto Carlos parecia interessado naquela conversa. Então, Rogério pediu licença à George e saiu com irmão, explicando a ele que conhecia aquele homem. Seu nome era Jeremiah Tucker, ele era um dos criadores da Máquina e estava há cinco anos preso no interior dela. Sua família acreditava que ele tivera morte cerebral e, por isso, era mantido por máquinas. O alerta para a Máquina fora criado por causa de Tucker, bem como os Schutzstaffel anacrônicos. De acordo com o que Rogério lera, Tucker decidiu que o mundo real era problemático demais e, por isso, decidiu que a Máquina traria um pouco de paz para todos se sentirem menos pressionados pelos problemas. Ele estava se divorciando da esposa, pois sua empresa não alavancava. Reclamou muito das pessoas não o ouvirem por causa de sua cor e de ter nascido no Bronx, em Nova York. Então um amigo dele, Terence Stompson, que estudara com ele no Massachussetts Institute of Technology, decidiu patrociná-lo e, assim surgiu a Máquina dos Sonhos.

Ambos fundaram a DreMac, Inc. e começaram vendendo a Máquina às Forças Armadas estadunidenses, depois venderam para a Nasa, pois esses desejavam fazer a viagem até Marte e precisavam de que seus astronautas tivessem uma viagem relaxante e, com isso, seu negócio cresceu. Só que, um dia, Tucker decidiu entrar na Máquina e nunca mais saiu. A filha de Jeremiah, Mamu Tucker, era tão talentosa quanto o pai e decidiu que não o tiraria do seu sonho, mas criaria formas de vigilância constante, principalmente para encontrar o próprio pai. Cada mundo dos sonhos tinha um sistema de vigilância disfarçado de alguma forma. O problema que o pai dela era o criador da Máquina, então ele conhecia atalhos e formas de migrar entre os sonhos e mudar de identidade, sem precisar selecionar na Máquina. Era alguém que vivia incógnito e sempre que percebia pessoas para ficarem imersas como ele, tentava convencê-las, mas raramente esses permaneciam tanto tempo quanto Tucker.

Rogério não queria mais ouvir sobre tudo aquilo, acreditando que seu tempo dentro da Máquina já havia passado. Saiu do camarim e chamou Carlos, que desejava continuar ali, conversando e descobrindo mais coisas com George Farewell, ou melhor, Jeremiah Tucker.

Devido a constante insistência do irmão, Carlos levantou e foi embora com ele.

No caminho que faziam, os dois discutiram muito e chegaram a brigar, caindo na calçada de frente para a ponte Torenluis. Rogério se levantou e Carlos continuou deitado ali, na umidade da calçada, que brilhava à lus dos postes. Então o “bonde” chegou.

O bonde era o meio de sair dali. Era a passagem de retirada da Máquina dos Sonhos. Quando a porta abriu, saiu do interior um homem da altura de Carlos, bem musculoso e peludo, carrancudo, fumando charuto, que questionou onde eles estavam. O homem usava uma máscara e vestia uma spandex azul e amarelo que Carlos e Rogério reconheceram. Ele, novamente, questionou aos dois onde estava, no que Carlos lhe disse que era Amsterdam, na década de 1950. O homem disse que o Professor Xavier havia lhe dito a verdade, era possível descer em outros sonhos. Atrás dele desceu uma moça ruiva, usando uma máscara amarela e um vestido bem curto de cor verde, que chamava o homem pelo nome de Jacques. Ele a chamou de Amèlie e disse que o Professor Xavier que ele conhecera, havia falado a verdade. Eles poderiam usar outros trajes e ficar ali. Então Amélie disse a Jacques que eles precisavam voltar, pois tinham filhos e uma empresa que tocavam juntos. Carlos reconheceu em Jacques algo que via em si mesmo, ou seja, alguém que desejava fugir da própria realidade. Amèlie segurou no braço de Jacques e começou a puxá-lo para dentro do bonde, mencionando que antes era um Blackbird SR-71.

Rogério e Carlos observaram os dois retornarem para o interior do veículo. Então, Rogério falou com o irmão que eles precisavam ir, também. Xingando o irmão, Carlos o abandonou ali e correu de volta para o bar. Chegando lá, percebeu que estava fechado e viu os Schutzstaffel se aproximando dele e decidiu falar com ele, novamente. Os dois interagiram com ele e o questionaram se Carlos havia visto algo estranho. Ele disse que não. Os dois seguiram em frente, então.

Carlos seguiu pela rua, vendo pessoas passarem por ele, rindo e conversando. Então, do interior de um beco escuro, ele viu alguém o chamar. Lógico que achou aquilo suspeito, mas não acreditava que alguém lhe faria mal ali e foi na direção do chamado e reconheceu George.

Questionou a ele se já havia se disfarçado de Professor Xavier, E Tucker confirmou aquilo. Ele via na aura das pessoas uma vivência sofrida e lamuriosa e, por isso, tentava convencê-las que permanecer ali seria uma libertação. Sentindo uma proximidade, Carlos lhe contou sobre ele e o que vivia.

Ele contou que era um professor e não conseguia progredir por causa de sua própria estática. Não conseguiu se firmar em nenhum relacionamento, pois sempre causava os problemas que resultavam no término da relação. Tinha problemas financeiros, pois insistia em comprar coisas que não fariam a mínima diferença em sua vida, somente porque deseja ter aquilo. Ele causava os próprios problemas e a Máquina era a melhor forma de fugir da própria vida que era sua consequência. Mas, ao falar aquilo, Carlos começou a refletir e pensar no que Rogério havia lhe falado sobre a história de Tucker. Permanecer ali seria uma solução temporária, pois traria problemas para sua família, fora dali. Ele seria um estorvo maior do que do lado de fora, e percebeu que tinha de ir pegar o bonde.

Foi aí que decidiu contar para Tucker tudo que Rogério lhe contava, mas Jeremiah pareceu lhe ignorar, como se aquilo já teria sido dito inúmeras vezes, mas ele não se importava. Carlos não queria ser assim. Então olhou para George Farewell e se despediu dele, indo para a ponte. George olhou para ele, incrédulo e, vendo os Schutzstaffel se aproximando, sumiu na escuridão. Quando Carlos os viu também, disse que Jeremiah Tucker estava naquele beco, e seguiu para a ponte. Lá chegando, não demorou muito, o bonde chegou e ele embarcou, despertando em sua casa, com seu irmão e sua mãe esperando por ele. Quando viram que ele despertara, o abraçaram, felizes por ele não ter ficado preso dentro da Máquina.

Carlos sabia que aquela experiência havia sido algo memorável, mas não esperava nunca mais voltar, pois sonhos são fantasias, pura imaginação.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A história de Sadako

 "Este é o nosso grito. Esta é uma oração. Paz no mundo”.


Sadako Sasaki tinha dois anos de idade em 6 de agosto de 1945, quando a bomba atômica “Little Boy” foi lançada pelo bombardeiro Enola Gay sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, que possuía uma população de aproximadamente 350.000 pessoas.

Sadako e sua família moravam a pouco mais de um quilômetro e meio do hipocentro da bomba. Uma luz branca e ofuscante brilhou pela cidade, e um enorme estrondo foi ouvido a quilômetros de distância. Imediatamente, incêndios eclodiram por toda a cidade e chuva negra radioativa começou a cair do céu. Sadako, como sua mãe e irmão, escapou dos incêndios. A avó de Sadako estava saindo com seus familiares, quando retornou para recuperar algumas heranças de família e nunca mais foi vista. O pai de Sadako não estava em Hiroshima quando o ataque ocorreu, se juntando à sua família depois.

Como muitos outros que vivem em Hiroshima, pós-Segunda Guerra Mundial, a família Sasaki lutou contra doenças, dificuldades financeiras, escassez de alimentos e incerteza de futuro. Eles sofreram e lamentaram a perda da avó de Sadako e quando ela ficou doente com leucemia, chamada de doença da bomba atômica, pois o câncer provavelmente foi causado pela chuva negra que caiu sobre Sadako no dia do bombardeio.

Aos doze anos de idade, Sadako precisou, então, ser internada em um hospital, onde permaneceu otimista e resiliente. Mesmo doente, Sadako continuou trazendo felicidade e alegria para sua família e amigos. Ela ficou muito feliz quando o Red Cross Youth club deu a ela e outras crianças no hospital origamis garça (Tsuru). A intenção dos origamis era ajudar as pessoas que estavam doentes a ficarem boas novamente. O pai de Sadako, a estava visitando quando ela lhe perguntou: “Por que eles nos enviaram garças em origami, pai?”, no que ele respondeu contando uma antiga lenda.

No folclore japonês diz que uma garça pode viver por mil anos, e uma pessoa que dobra em origami para cada ano de vida de uma garça terá seu desejo atendido. A história das garças de origami inspirou Sadako. Ela tinha uma nova paixão e propósito de ter seu desejo de estar bem novamente ao realizar a dobradura de mil garças de origami. Assim, ela começou a coletar centenas de pedaços de papel para fazer suas garças.

Com o passar do tempo, Sadako encheu seu quarto de garças de origamis coloridos e de todos os tamanhos. Ao finalizar o milésimo origami de garça, Sadako pediu para ficar bem novamente, mas, infelizmente seu desejo não se realizou, pois ela permaneceu doente, mas não perdeu a fé, voltando a dobrar mais origamis de garça, pedindo que a dívida de seu pai fosse perdoada, cada uma de tamanho diferentes, às vezes, quase do tamanho de um grão de arroz.

Sadako faleceu aos doze anos, cercada de seus familiares e de 1.300 garças de origami.

Quando Sadako percebeu o quão doente ela estava, teve muitos pensamentos e perguntas. Ela se preocupava com sua família, e se as pessoas se lembrariam dela. Sadako se perguntou: “Como posso tornar o mundo um lugar melhor enquanto estou viva?”

Ela queria deixar o mundo um lugar pacífico e compartilhou esses pensamentos e sentimentos com seus amigos e familiares. Embora Sadako não conhecesse seu impacto no mundo quando morreu, ela fez do mundo um lugar melhor. O espírito resiliente de Sadako e suas garças de origami inspiraram seus amigos e colegas de classe a arrecadar dinheiro para um monumento para Sadako e as crianças que perderam avida como resultado dos bombardeios atômicos a Hiroshima e Nagasaki. Desde 1958, milhares visitaram a estátua de Sadako no Parque Memorial da Paz de Hiroshima. A figura de Sadako levanta uma grande garça de papel no alto. Inscrita ao pé da estátua de Sadako está uma placa que diz: “Este é o nosso grito. Esta é a nossa Oração. Paz no mundo”.



terça-feira, 2 de março de 2021

O Pastor

 Durante anos eu fui um leitor ferrenho de romances de ficção e um desses foi O Alquimista, de Paulo Coelho.

Eu era um assíduo leitor de Paulo Coelho, que comecei a ler graças a minha amiga Daniella Navarro, mas deixei de lado tem ano. Só que, a influência de O Alquimista foi grande na minha vida. Então, determinado dia, decidi escrever o conto que vocês lerão abaixo (com algumas modificações, pois eu reescrevi ele). Boa leitura!

O Pastor


Um jovem pastor sempre conduzia suas ovelhas do campo para a cidade mais próxima, onde ele tosquiava e vendia a lã delas. Isso garantia sua sobrevivência por uma longa parte de seu ano, até a próxima safra. Na cidade, ele já se supria de mantimentos para sobreviver ao inverno. No mercado, sempre quem lhe atendia era a filha do dono. Uma jovem de beleza contagiante e um sorriso de despertar o coração do mais frio guerreiro. Ela sempre o tratava com afago e carinho, sempre lhe perguntando como estavam os anhos e se o seu rebanho tinha dado lá o suficiente para seu sustento.

A preocupação da jovem parecia tão legítima, que o jovem pastor estava encantado com ela. O senhor que tosquiava suas ovelhas e carneiros era seu único conhecido na cidade. Ele não o chamava de amigo, pois não tinha um laço mais próximo com aquele homem, mas era com quem conversava enquanto ele trabalhava. Sempre perguntava ao senhor se ele conhecia algum pretendente para a jovem filha do dono do mercado, e a resposta era sempre a mesmo, não, pois os homens ficavam surpresos e perplexos com a jovem, devido sua capacidade de articular e isso os intimidava.

O jovem pastor não se sentia intimidado, mas era tímido demais para abordá-la.

Certa vez, enquanto desfrutava de um pouco de schrobbeler[1] e uma fatia de pão com queijo de cabra e um pedaço de salame, na praça da cidade, enquanto esperava o tosquiar de suas ovelhas e carneiros, o jovem pastor desfrutava da leitura de um livro que ele sempre carregara com ele. Já o havia lido inúmeras vezes àquele livro, mas era sua única distração durante o pastoreio, nas noites do campo em que passava. Ao seu lado estava seu fiel amigo, um pastor holandês, que sempre o acompanhava e cuidava das ovelhas e carneiros, enquanto ele descansava. Então ouviu uma voz doce questioná-lo sobre o nome do animal. Ele levantou a cabeça do livro e viu o admirável e maravilhoso semblante da filha do dono do mercado. Aos raios do sol tardio, ela era ainda mais admirável. Sua pele alva, brilhava à luz do sol. Seus olhos pareciam duas pedras de topázio azul das mais lindas e seus cabelos negros reluziam de forma hipnotizante e, quando ela os mexia, exalava o mais inebriante odor de tulipas na primavera. Ela se sentou ao seu lado e antes que pudesse dizer o nome do seu companheiro, ela perguntou o que ele lia, então ele lhe permitiu que ela visse o título do livro. Mesmo com a capa desgastada do tempo, ela viu e se admirou, pois já havia lido àquele livro. Ela então falou de outros livros que lera, pois seu pai lhe dava tal liberdade, coisa que outras moças não tinham.

Como mercador, seu pai tinha de viajar as outras cidades e negociar com as pessoas as mercadorias para vender e ele sempre trazia um livro para ela, o que a fazia ter um conhecimento amplo sobre várias coisas. Ele já tinha lido desde romances de ficção até livros mais didáticos. O jovem pastor não entendia nada do que ela dizia, mas estava admirado demais para dizer que era leigo nos assuntos que ela tanto proferia. Só pensava em se casar com ela e criar uma família.

O fim da tarde chegava e a jovem então se despediu dele, beijando sua face de forma graciosa. O rapaz estava interessadíssimo nela e, quando voltou ao seu conhecido para pegar o dinheiro da lã, este disse que observou aos dois. Falou que ele tinha sido o primeiro a dar total atenção à jovem, pois nenhum outro ousara algo assim. O jovem pastor não sabia o que dizer, então pegou o dinheiro, alugou um quarto para passar à noite e, após as compras, partiria cedo.

No outro dia, foi ao mercado, mas, pela primeira vez, quem o atendeu foi o dono do mercado, pois a jovem ainda repousava. Comprou seus mantimentos, alugou uma carroça para levar as compras e partiu. Não esperava a hora de poder voltar para a cidade, pois pretendia propor algo à jovem.

O ano passou. Como o jovem pastor era sozinho e a maior parte do seu suprimento era alimento que perdurava doze meses, além da ração para seus caprinos e comida para seu cachorro, ele não precisava retornar à cidade. Quando chegou a época do tosquiar de suas ovelhas e carneiros, o rapaz então, ansioso, voltou à cidade, mas algo estava diferente, pois as ruas estavam vazias. Quando chegou no local para tosquiar suas ovelhas e carneiros, o seu conhecido também não estava lá. Como tinha liberdade para poder deixar seus caprinos em um cercado, ele o fez e se dirigiu ao centro da cidade, onde uma grande aglomeração estava saindo da igreja local, pois um casamento estava ocorrendo ali. Ao chegar mais, perto pensando que aquele seria o local ideal para dizer à jovem filha do dono do mercado o que sentia, ele a viu saindo da igreja, de vestido de noiva, com um homem bem-apessoado ao lado. Era um homem mais alto do que ela, com a pele bronzeada, forte e com aparente vigor. Ouviu comentários que diziam que a moça dera sorte, pois casara-se com o filho de um grande fazendeiro, que tinha uma grande produção de leite e vendia para fora do país, até. Mas o jovem não se importava com aquilo, somente olhou para o sorriso no rosto dela e o sorriso no rosto dele e pensou que ali poderia estar ele.

Amoado e triste, o jovem pastor foi para a praça central e testemunhou, a distância, a jovem saindo com seu esposo em uma carroça com uma comitiva logo atrás, indo à festa que estava planejada. Sabia que não teria como sair dali naquele dia, pois precisava do dinheiro do aparo de suas ovelhas e carneiros para passar mais um ano. Sentou no banco da praça e ficou ali, remoendo seus sentimentos, somente tendo seu cachorro como companhia. Pensou até em alugar um quarto para ficar distante daquilo tudo, mas pensou que a dona da pousada também deveria estar naquela comitiva para a festa. Então, de repente, ouviu uma voz que lhe perguntou por que não participava dos festejos do casamento.

A jovem, que estava à sua frente, também tinha a pele bem bronzeada, os cabelos eram cachos amorenados que caíam sobre seus ombros. Suas vestes eram diferentes das vestes que estava acostumado a ver das jovens que ali perambulavam. Ela se sentou ao seu lado e voltou a questioná-lo, então ele lhe disse que não havia motivos para festejar, pois a jovem que se casava era a mulher com quem ele pretendia se casar. Então a jovem lhe questionou se ela sabia disso, e ele disse que não. Aquela conversa o estava aborrecendo, pois desejava ficar ali, com sua própria raiva. A moça então lhe disse que ela também não tinha motivos para comemoração, pois o rapaz era um prometido dela. Eles haviam jurado que um dia se casariam, mas quando o pai dele enriqueceu com as vendas de leite das vacas que tinha, esqueceu dela. Há cinco meses ele havia conhecido a filha do dono do mercado e ambos iniciaram algo que terminou naquele casamento.

A jovem lhe contou que a família dela tinha carneiros e ovelhas, mas não prosperava como a família do homem que se casava naquele dia. Então o jovem pastor também disse que tinha ovelhas e carneiros e estava na cidade para poder tosquiá-las. Então uma conversa se iniciou entre ambos que perceberam ser muito parecidos entre si. Quando sentiu vontade de comer, o rapaz tirou seu pão com queijo e salame, oferecendo um pedaço à jovem, além de um cálice de licor adocicado, e ambos apreciaram juntos e continuaram a conversa.

O final da tarde chegou e o jovem pastor achou que passou muito rápido. Viu que as pessoas já retornavam para suas casas e, antes de se despedir, pediu à jovem que o encontrasse no outro dia, ali na praça. Ela não entendeu a proposta, mas aceitou o convite.

No dia seguinte, a jovem o encontrou, como combinado, e então ele lhe explicou que sua vida era complicada, pois ele morava distante e somente voltava uma vez ao ano para a cidade, mas que queria conhece-la melhor. Então pediu que ela o esperasse, pois ele gostara muito dela e não queria perde-la. Os olhos esverdeados da jovem pareciam duas jades brilhantes e ela disse que sentia o mesmo por ele e que sim, o esperaria. Então ela o beijou suavemente no rosto e partiu. Agora o jovem pastor tinha que ir até o seu conhecido para o tosquiar de suas ovelhas e carneiros. Lá ele perguntou sobre a família da moça que conhecera e o homem explicou que eles eram pessoas humildes, mas lutadoras e batalhadoras, como ele. O homem viu um brilho nos olhos de esmeraldas do rapaz e sabia que ali era nutrido uma esperança. Depois de pagá-lo, o jovem foi ao mercado e o dono lhe atendeu, fez suas compras e partiu, esperançoso que no próximo ano teria sua futura noiva à espera.


[1]  Schrobbeler - licor condimentado holandês adocicado e herbário. Tem gosto de alcaçuz como um aviso para aqueles que não gostam desse sabor.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

A Pequena Tigresa


Baagh[1] se sentia extremamente valente e amava explorar os arredores do local que sua genitora, Maan[2], construíra para ela e seus irmãos. Quando não brincava com eles, enquanto sua mãe saía para a caça, ela decidia explorar o ambiente. Seu objetivo era ser tão feroz e destemida quanto sua mãe.

Um dia, enquanto sua genitora caçava, Baagh viu, à distância, uma toca estranha e maior do que a dela, então decidiu se aproximar. Desde que sua genitora lhe permitiu sair da toca, Baagh já viu de todos os tipos de seres, mas, em geral, eles andavam como ela. O ser acinzentado, sentado na relva perto daquela enorme toca, além de não se apoiar com todos os membros, tinha uma lanugem somente no topo da cabeça e era bem pouca. Além do que, parecia bem menor do que ela. “Será que era por estar sentando?”, pensou Baagh, “E que jeito estranho de sentar”. Mas, enquanto pensava nisso, o ser estranho pareceu vê-la e, em uma linguagem estranha, chamou Baagh.

Baagh era corajosa, mas aprendera a ser precavida. Sua genitora sempre lhe disse para não se aproximar de outros seres, pois eles poderiam ser capazes de machucá-la, já que era jovem demais. Então, de forma furtiva, ela se aproximou do ser de poucos pelos. Seu cheiro era suave e o tom cinza de sua pele era diferente dos outros. Aquele ser passou as mãos em seus pelos e ela se sentia acariciada, mas de forma macia. Não era como a língua de sua mãe, quando esta lhe banhava, mas sim algo suave e delicado. Então Baagh decidiu retribuir, mas como não sabia articular com os membros frontais, igual àquele ser, decidiu fazer como sua mãe, que sempre lhe falou que uma lambida era uma forma de carinho. O sabor daquele ser era adocicado, algo que Baagh nunca experimentara antes. Quando ela terminou de lambê-lo, ouviu um grito estridente vindo dele. Ela viu que arranhou a pele daquele ser débil com sua língua. Surgiu um outro ser, saindo da grande toca, o que assustou Baagh que correu para o interior da floresta. Ela retornou para sua toca, mas preferiu não falar nada para os outros ou para sua genitora.

Dias se passaram e Baagh e seus irmãos aproveitavam o tempo livre para aprender práticas com sua mãe, além de tentar descobrir quem seria o dominador daquela tribo. Ela sempre vencia. Quanto àquela toca gigante e os seres que lá viviam? Baagh preferiu esquecê-los. Mas eles não tinham esquecido dela.

Em determinado dia, enquanto Baagh, seus irmãos e sua genitora descansavam no interior da toca, um cheiro estranho permeou o ar. Quando despertaram, parecia que Gagan[3] havia decido ao chão. Uma grande escuridão, em pleno dia, tomara a entrada da toca e sua genitora gritou para que eles corressem para fora. Então ouviu-se os estrondos. Parecia Garjan[4] rugindo com Gagan, depois de Bijalee[5] iluminar os céus, antes de Varsha[6] empapar seu corpo, mas eram mais contínuos e repetitivos. Maan, a genitora, percebeu que eles estavam cercados por algo tão iluminado quanto Bijalee e que emitia um ardor que Baagh nunca sentira antes. Mesmo com toda luminosidade, Baagh reconheceu os seres altos que lembravam o pequeno que ela encontrara. Eles apontavam, para sua genitora, objetos finos. Ela ouviu sua genitora suplicando a eles para que se afastassem e a deixassem fugir com Baagh e seus irmãos. Baagh também tentou dizer a eles que ela não havia feito por mal, então viu Maan olhar para ela de forma assustada e ela explicou o que ocorrera. Quando Maan se virou para explicar para aqueles seres o que ocorrera, Garjan surgiu daqueles objetos finos e atingiu Maan, que caiu.

Baagh já havia testemunhado o decesso, pois era algo comum matar para se alimentar. Maan sempre trazia seres abatidos para alimentar a ela e seus irmãos, então conhecia o odor que saía de sua genitora. Aquilo a aturdiu, pois não esperava algo assim. Se sentiu culpada com aquilo, mas quando viu estava cercada por aqueles seres que se apoiavam em dois membros. Ela olhou para os irmãos, acuados e temerosos. Eles também sabiam o que acontecera com Maan. Se sentindo valente e desejando proteger seus irmãos, ela avançou nos seres e com suas garras, atingiu um dos membros deles e o viu caindo então, do nada, um objeto pesado atingiu sua cabeça e ela caiu, desmaiada.

Quando Baagh despertou estava no interior de um objeto com um cheiro estranho e ranhoso. Ela passou seu membro frontal nele e o barulho era horrível e a sensação era fria. Viu seus irmãos em outras daquelas coisas, igual a dela. Com o passar dos dias, viu pessoas indo e vindo e observando a ela e seus irmãos. Um tempo depois, um outro grupo daqueles seres surgiu e pareceu brigar com os que lhe haviam capturado, então depois de um tempo ouvindo o grunhido deles, viu ela e os irmãos serem carregados dali. Não demorou muito, aqueles objetos em que estavam foram abertos e eles se viram em um maior e com mais espaço, mas ainda não era a toca deles. Seus irmãos iam e vinham e, quando chegou a vez de Baagh, ela relutou. Temia aqueles seres pelo que haviam feito a sua genitora, não queria mais proximidade deles. Ela tentou arranhar – como fizeram antes – e até morder, mas eles tinham a vantagem de serem maiores e usaram algo semelhante ao objeto que tirou a vida de Maan, mas o barulho fora diferente e ela adormeceu.

Baagh acordou momentos depois, com seus irmãos gritando por ela. Nunca se sentira assim antes. Estava tonta e mal conseguia se apoiar em seus membros. Mas aquilo não durou muito e, em pouco tempo, ela já estava bem, mas sentia uma dor perto de sua cauda. Seus irmãos falaram que sentiam a mesma dor.

O tempo passou devagar e Baagh e seus irmãos cresceram juntos. Os seres que os mantinham ali, lhes davam alimentos, mas Baagh sempre lhes falavam que Maan não toleraria que eles se acomodassem. Alguns terminaram fazendo, mas ela ainda tentava manter sua ferocidade. Sempre que os seres precisavam leva-la, a atingiam com aquele objeto que a fazia dormir.

Um determinado dia, Baagh e seus irmãos viram aquela toca abrir e eles saíram para um ambiente totalmente novo e diferente do que estavam habituados. Alguns de seus irmãos pareciam gostar do contato com os seres em dois membros, mas não Baagh, que preferiu desaparecer naquela selva e nunca mais ter contato com nenhum deles.



[1] Baagh (बाघ) = tigre

[2] Maan (मां) = mãe

[3] Gagan (गगन) = céu

[4] Garjan (गर्जन) = trovão

[5] Bijalee (बिजली) = relâmpago

[6] Varsha (वर्षा) = chuva

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O Pomar

Esta história que eu inventei, foi nos verões que passava com meu irmão e meus primos em Piúma, litoral sul do Espírito Santo, que é uma zona rural. Eu criei depois de assistir O Jardim Secreto (1993) e tentei criar uma lenda urbana sobre um pomar e, sempre que podia, contava aos meu primo Attila e meu irmão, Armando Junior. Lógico que dei uma reformulada na história, mas a ideia permaneceu. Esperem que gostem!


O POMAR

Esta é uma história que contavam na região rural, ao sul do Espírito Santo. Dois irmãos e seu primo, todos os verões, iam para uma cidadezinha bem rural. O primo destes dois irmãos tinha uma casa, que conseguia hospedar, praticamente, toda a família deles. Mas os três eram como unha e carne. Iam para o rio tomar banho, jogavam bola no areal, perto da casa e iam, caçavam passarinhos juntos, pescavam juntos e iam a chácara da vizinha desfrutar do farto pomar que ela tinha.

No pomar da vizinha tinha laranjais, limoeiros, pés de carambola, goiabeiras, pequenos – mas fartos – amoreiras, jamelões, fruta-pão, jaqueiras, cajazeiras, cajueiros, mamoeiros, cacaueiros, ananás e abacateiros. Era uma grande variedade de frutas que ela permitia que eles desfrutassem até certo horário do dia. Um dia, sentados em uma área atrás da casa, se aquecendo perto do fogão de lenha em um dia chuvoso e desfrutando das frutas que colheram antes, o mais velho dos três meninos perguntou porquê não podiam colher frutas quando a noite caía e ela lhes contou:

- Quando éramos mais jovens, eu e marido ainda namorávamos, decidimos entrar no pomar, à noite, para ficar longe das vistas de nossas famílias. Foi um grande erro, pois o lugar ganhava vida depois do surgir da lua. Sons tenebrosos podem ser ouvidos, as árvores parecem querer te engolir. É o momento de descanso delas, então não é bom interromper.

Quando voltaram para casa, os três comentavam da história que a dona do pomar contara. O mais velho se sentia confiante, dizia não ter medo de nada. O irmão dele, tentava imitá-lo, mas ouvia-se o tremular de sua voz. Já o caçula dos três não fingia a temerança e não achava certo desafiar as recomendações. Então o mais velho o chamou de medroso e disse que entraria naquele pomar na próxima noite e queria ver quem o seguiria. Seu irmão, que o admirava, falou que iria com ele, mesmo com medo. O primo deles não se sentia tão confiante para isso.

No outro dia, depois de jogarem bola com os meninos da região, irem tomar banho no rio e pescarem, o mais velho disse que naquela noite eles iriam entrar no pomar. De forma reticente, seu irmão abanou a cabeça confirmando, já o primo caçula continuava incerto. Ao cair da noite, eles perceberam que os mais velhos estavam na sala, conversando e decidiram sair pelas portas dos fundos. Seguiram de cabeça baixa pela garagem e, sem fazer muito barulho, saíram pelo portão.

Adentraram pelo portão de madeira da chácara e ouviram o latido do cachorro que eles conheciam. Deram biscoitos para ele ficar quieto e seguiram em frente. Quando estavam de pé no portal da horta, o mais novo falou que dali ele não passaria e, novamente, o mais velho o chamou de medroso e puxou seu irmão – que parecia querer desistir, também – para dentro do pomar. Eles estavam de lanternas acesas, os três, mas o mais velho e seu irmão foram tão fundo no pomar que o breu tomou conta do lugar, sem conseguir enxergar o brilho da lanterna de seu primo. Então, de repente, sons guturais começaram a ser ouvidos, os dois sentiram espinhos dos limoeiros arranhando suas pernas e braços e, de repente, suas lanternas falharam. Do lado de fora do pomar, o primo deles ouvia os gritos dos dois e se desesperou. Correu para a casa de seus pais, chamando-os para irem ao pomar. Ele terminou acordando a dona da chácara e seu marido. Percebendo o que tinha ocorrido, os pais dos meninos foram até uma guarita, que ficava do outro lado da pista, no sopé de um morro e chamaram os guardas para ajudarem nas buscas.

Os pais, o dono da chácara e dois policiais, munidos de lanternas, entraram no pomar, mas estava muito escuro para poderem ir mais fundo. No outro dia, bem cedo, antes de sair para a roça, o dono da chácara entrou no pomar, para ver se encontrava os dois meninos perdidos, mas nada achou, além de suas lanternas e o boné que o mais velho usava. Ele levou o que achou até a casa do seu vizinho e entregou o que achou para os pais. Inconformados com isso, chamaram várias pessoas para buscar pelo pomar. Por dias procuraram, mas nada acharam.

Depois disso, ninguém nunca mais visitou o pomar. Ele se encontra abandonado, mas dizem que, à noite, ainda pode se ouvir os gritos assustadores dentro dele.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Uma estória simples

Bem, esta... estória - se assim posso chamá-la - foi escrita há... muito tempo por mim, por isso, peço desculpas se existe um exagero de um adjetivo e seu advérbio, mas é como eu a imaginei.


UMA ESTÓRIA SIMPLES

Um simples escritor chegou a um simples vilarejo aonde, simplesmente, desejava morar. Ele havia comprado uma simples casa, em uma simples rua e, um simples dia, viu uma simples jovem linda passar diante do seu simples portão e ela lhe deu um simples sorriso. Ele simplesmente se apaixonou pela jovem naquele simples momento que a viu. Descobriu aonde ela morava e, todos os dias, lhe mandava simples flores com uma simples mensagem: “Eu, simplesmente, estou apaixonado por você”. Foram dias, semanas, meses, mas ele nunca achou que era recíproco. Então, em um simples dia, ele decidiu, simplesmente, terminar com a sua vida. Ele foi enterrado no simples cemitério, atrás da simples igreja daquele simples vilarejo e, em uma simples lápide, estava escrito: “Um simples escritor que, simplesmente, decidiu deixar de viver”. Mas, todos os dias, com o passar do tempo, aquela simples jovem era vista colocando simples flores no túmulo do rapaz e um dia puderam a ouvir falar: “Se você tivesse simplesmente dito que me amava, simplesmente estaríamos juntos”.

O Porto

 Meus sonhos, minhas inspirações. Mais um conto para vocês - este é bem mais curto -, mas que achei interessante compartilhar. Espero que goste... e comentem!


O PORTO

Ele despertou em uma praça. Não lembrava o próprio nome, mas lembrava que estivera ali com seu filho. Que morava em uma ilha, nas proximidades, que tinha um barco e, ele e seu filho tinham ido para o porto comprar suprimentos... mas não lembrava do próprio nome. Algo estava confuso.

Saiu para procurar pelo filho e foi fazendo os passos que fizera antes. Primeiro, passou no bar que os dois tinham parado para beber e comer algo, mas não encontrou ninguém. Na medida que procurava as pessoas que conhecia, não encontrava ninguém, mas percebeu que o bar estava todo molhado. Saiu do bar e foi até o mercado, onde tinha ido comprar suprimentos. Suas compras ainda estavam no balcão, mas o rapaz que ficava no caixa não estava ali. Andou pelo local, gritando o nome do próprio filho, mas não o localizou. A preocupação começou a assolar sua cabeça. Desesperado, saiu do mercado, pensando, “depois venho pegar os suprimentos”, e foi até o posto policial, para pedir ajuda. Entrou no posto policial e não viu ninguém. “Não pode”, ele pensou, “Sempre tem um policial que possa nos atender”. Andou por todo o local e, como no bar, somente poças de água no chão.

Voltou para as ruas, gritando pelo nome do filho ou mesmo por ajuda. “Por que não lembro do meu nome?”, ele se questionou. Era impressionante, pois aquela era uma vila portuária e as pessoas, à noite, saíam para se divertir, mas não tinha ninguém, como se, do dia para a noite, aquilo se tornara uma cidade fantasma. O que mais o impressionava é que aparentava ter chovido na vila, mas ele não estava molhado. Sua cabeça latejava, “diga seu nome”, ele pensava – ou acreditava que estava pensando. Procurou em cada viela, em cada beco escuro e nada. “Filho, onde está você?”, ele gritou, quando voltou a praça, “Aonde está todo mundo!”. Então ele ouviu uma voz bem baixinha, “pai?”, e perto do chafariz, coberto com o casaco do pai, estava o jovem de 12 anos, “o que aconteceu?”, ele questionou. “Venha, temos de pegar as compras e voltar, sua mãe e suas irmãs devem estar preocupadas”. Os dois se deram as mãos e foram ao mercado. Chegando lá, perceberam poças d’água espalhadas pelo local. “Cadê todo mundo, meu pai?”, questionou o filho. Ele preferiu não responder, pegou o pacote de compras no balcão e saiu, em direção ao porto.

Chegando no pequeno barco, de relance, ele acreditou ver um rosto difuso nas sombras, uma mulher, que lhe sorriu, mas não era um sorrido cordial, ele percebeu algo de maligno. Seguiu com o barco, remando de volta para casa. Ao desembarcar na ilha, sua cabeça começou a latejar fortemente. “Pai, você está bem?”, perguntou o filho. “Pegue as compras e vamos para casa”, ele respondeu. Atracou a pequena embarcação e andaram em direção da própria casa. A cabeça do homem latejava cada vez mais. “O que está acontecendo comigo?”, ele se questionou, “E por que não me recordo do meu nome?”. Pensou em questionar ao filho, mas não queria parecer fraco diante da criança. Ele precisava se mostrar forte, era o homem da família. Ao entrar em casa, gritou por uma saudação, “Mulher, chegamos!”. A esposa veio, com ar de preocupação no semblante. “O que aconteceu com vocês?”, ela perguntou, “Passaram o dia todo fora. Saíram para as compras bem cedo e só retornaram agora. O que houve?”. Ele não quis responder, mas precisava se sentar, pois sua cabeça latejava muito e ele sentia uma tontura surgir. A esposa então disse, “Ezekiel, o que houve?”. “Ezekiel. Este é meu nome” e, então, veio a sua memória o que ocorrera naquele dia.

Conversara com sua esposa, bem cedo, que levaria o menino para fazer as compras dos suprimentos. Ambos pegaram o pequeno barco e ele colocou o filho para remar. “Você precisar criar músculos neste corpo franzino”, ele disse, “já está na idade de poder sair comigo para pescar”. Assim que ensinou o filho a amarrar a embarcação no porto, subiram para a cidade, mas, na beira da escada estava uma mulher maltrapilha. Ela lhe pediu um pouco de comida, mas ele preferiu ignorá-la. “Não dê atenção”, disse ao menino. A mulher lhe agarrou na roupa e ele a rejeitou. Ela novamente segurou na barra de sua calça e ele disse “vá arranjar um marido para sustenta-la. Não tenho e nunca terei nada para ti”, e quando ia retirar a mão dela de sua calça, ela o segurou e seu filho com uma força que ele não esperava que ela tivesse e a ouviu dizer:

- Por não ajudar, se amaldiçoará! Nunca se lembrará até seu nome alguém mencionar, e quando isso ocorrer a pessoa irá se desfazer “. – Repentinamente, ele viu sua esposa se tornando líquido. Roupas, olhos, cabelo, pele. Tudo virou líquido. Ele se desesperou, gritando e, correndo em sua direção, veio seu filho dizendo, “Pai, minhas irmãs. Elas viraram água”. O pescador lembrou o que ocorrera então. Como havia nascido e crescido naquele vilarejo, conhecia a todos e, com isso, aqueles que vinham em seu socorro ou que gritavam seu nome, terminavam se tornando líquido. A bruxa os amaldiçoara. A ele e seu filho, e nada poderiam fazer.