Bruno estava no intervalo de seu trabalho, comendo um lanche e observando jovens jogando basquete em uma quadra, quando seu celular vibrou e ele viu uma mensagem:
- “Oi!” – Ele ignorou-a, pois não reconheceu o número.
Quando ia retornar para seu lanche, outra mensagem chegou:
- “Oi, Bruno. Sei que está no seu intervalo e queria
conversar”. – Ele achou que algum colega do trabalho estava lhe passando um
trote e decidiu entrar na brincadeira:
- É mesmo, e quem é você?
- “Sou Geisiane. Conheço sua prima, Sara, e ela me passou
seu número. Algum problema isso?” – Bruno logo desconfiou de Pedro, seu amigo
de longa data e apaixonado por Sara:
- Não, nenhum problema, mas podemos conversar depois, pois
tenho que terminar de comer e voltar ao trabalho.
- “Sem problema,” - ela digitou. – “quando terminar, me
mande uma mensagem. Tchau! – Bruno não respondeu essa última mensagem e
terminou de comer”.
O dia passou e Bruno esqueceu daquela conversa por mensagens
que tivera. Quando chegou em casa e descartou o celular sobre a cama, este
tocou, novamente. Ele apanhou e uma nova mensagem da tal Geisiane estava nele:
- “Oi”. – A conversa da tarde voltou a sua memória e ele
decidiu acabar com aquilo:
- Pedro, eu estou cansado e não tô a fim de brincadeiras. –
Largou o telefone sobre a cama e foi tomar banho. Ao sair do banho, viu uma
nova mensagem na tela:
- “Quem é Pedro?” – Bruno achou que aquilo não tinha mais
graça. Desde que fora traído por Bianca, Bruno se sentia fragilizado e sem
vontade de compromisso. Pedro sempre insistia que ambos saíssem para que ele
conhecesse alguém, mas não era o que Bruno queria, pois tinha o trabalho, seus
livros e seus filmes:
- Tá bom, Pedro. – Ele digitou. – Não quero mais brincar
disso. Se continuar assim, vou falar pra Sara sobre sua urticária. – E seguiu
para a sala, com o celular na mão. Ligou a televisão, quando sentiu ele vibrar
e, com um sorriso maroto no rosto, leu a mensagem:
- “Ah, então Pedro é aquele que está na foto com você. Ele é
afim de Sara? Ele tem urticária?” – A orelha de Bruno esquentou. Isso sempre
acontecia, quando ele sentia que tinha falado demais sobre o que não devia:
- Peraí, se você não é o Pedro, quem é você?
- “Eu já disse, sou Geisiane”. – Ela escreveu novamente o
nome dela. Bruno sentiu sua orelha esquentar mais. – “Vi uma foto na casa de
sua prima e perguntei sobre você e ela me deu seu número”.
Aquilo foi inesperado, pois Bruno estava preparado para um
trote de seu melhor amigo, mas não para uma moça lhe mandando mensagens pelo
celular:
Então você é de verdade? – Ele digitou, sem pensar muito no
que escrever, e lhe retornou uma mensagem com risos, seguido por uma escrita:
- “Você pensou que fosse um trote desse seu amigo que gosta
de sua prima?” – E, antes dele responder, ela continuou. – “Sim, sou real. Eu
sou vizinha de sua prima há bastante tempo e nós nos somos amigas desde
pequenas. Quando fui visitá-la em casa, ela me levou até o seu quarto e pude
ver uma foto sua com ela e esse seu amigo, Pedro. Vocês estavam na piscina do
SESC de Praia Formosa. Ah, caso não saiba, ela também gosta do seu amigo”.
Bruno deu uma risada com aquilo, pois ele sabia disso, mas
digitou:
- Sim, eu sei, mas prometi que não ia me envolver entre os
dois. Então vou deixar que se revelem, um para o outro. – E colocou um emoji
com uma carinha piscando, e continuou. – Mas por que quis falar comigo? – Era a
baixa estima de Bruno falando mais alto, mas veio a resposta:
- “Porque te achei interessante, e à medida que Sara falava
de você, fiquei mais intrigada. Então, você gosta de Tolkien?” – A pergunta foi
inusitada e Bruno gostou de conversar com alguém que lhe perguntasse aquilo:
- Assim, não sou nenhum fã, mas gosto de ler os livros dele.
Tenho Silmarillion, Contos Inacabados, O Hobbit e O Senhor dos Anéis.
Recentemente comprei o anel de Barahir, o Um Anel e o cachimbo de Bilbo
Bolseiro.
- “E ainda diz que não é fã?” – Ela digitou, seguido de
risadas. – “Queria não ser fã como você, pois tudo que tenho são os livros de O
Senhor dos Anéis. O que seria Silmarillion e Contos Inacabados?”
Bruno explicou detalhadamente cada um desses livros de
Tolkien, estendendo a conversar ao mencionar C.S. Lewis e George R.R. Martin.
Quando foi ver já era tarde e ele nem havia comido, antes de ir dormir:
- Então, a conversa está maravilhosa, mas preciso me
recolher, pois tenho de acordar cedo para o trabalho. – Bruno digitou. –
Conversamos quando eu voltar do trabalho?
- “Eu mando mensagem para você, no mesmo horário que mandei
hoje, pode ser?” – Geisiane digitou e Bruno respondeu com um jóinha. – “Durma
bem”.
Ele respondeu a mesma coisa e depois pensou que poderia ter
escrito mais coisas, só que, se prolongasse mais a conversa, terminaria ficando
com sono no trabalho.
Quando acordou, Bruno tomou café e pensou se tudo aquilo não
teria sido alguma brincadeira de Sara ou mesmo, persistindo, de seu amigo
Pedro. Com isso, ligou primeiro para Pedro, que atendeu ao telefone sonolento:
- “Alô? Quem incomoda de madrugada?”
- Você sabe que sou eu. – Bruno respondeu. – Aqui, você me
zoou ontem, não foi? Com aquela pegadinha da garota mandando mensagens.
- “Que porra de pegadinha, Bruno? Aqui, você acorda os galos
para cantarem? Que horas são? Porra, são oito horas da manhã! Aqui, me liga
depois da uma hora da tarde e a gente conversa”. – E desligou o telefone, sem
esperar Bruno falar alguma coisa. Sendo assim, Bruno ligou para Sara, pois
sabia que ela deveria estar na faculdade naquele horário:
- “Ei, primo. O que manda?” – Ela atendeu ao telefone e
Bruno foi direto:
- Você me passou algum trote ontem com uma suposta amiga
chamada Geisiane? – E do outro lado se ouviu um grito histérico.
- “Então Geisi te ligou mesmo? Ai, que maravilhoso. Ela é
uma pessoa ótima, Bruno. Tenho certeza que você vai gostar dela”.
- Então não foi trote? Ela existe?
- “Lógico que existe, idiota”, Sara falou, “Aqui, eu tenho
que ir pra sala. Depois nos falamos. Beijos”. – E também desligou sem esperar
Bruno responder.
“Ela é real”, pensou Bruno para si mesmo.
Bruno foi ao trabalho, mas ficou esperançoso de ter com quem
falar ao final do dia.
Quando chegou em casa, ficou preocupado se tomaria banho
antes ou depois de conversar com Geisiane e, temeroso de ficar muito tarde, foi
tomar um banho. Quando saiu, verificou que no celular tinha uma nova mensagem
dela:
- “Oi?”
- Oi. Desculpa, fui tomar um banho para não me preocupar com
isso enquanto conversamos. – Ele respondeu, e ela seguiu:
- “Que bom. Banhos fazem bem. Relaxam o corpo e a alma.
Agora me diga: DC ou Marvel?”
Bruno riu sozinho em casa. Ele não podia acreditar que
entraria nesse debate:
- Depende, pois se estamos falando do cinema, infelizmente a
Marvel anda disparada na frente. E olha que não estou contando os clássicos
como Superman de Christopher Reeve e Batman de Michael Keaton.
- “Eu não vou aos cinemas. Leio quadrinhos de ambos, mas,
sinceramente, acho insuperável o Sandman de Neil Gaiman”. – E a conversa rendeu
por horas, com comparações de escritas de Gaiman e Alan Moore, a fase Image
Comics dos anos de 1990. Sin City de Frank Miller e os vários reboots da DC
Comics, os que deram certo, como Crise nas Infinitas Terras, e o que deram
errado, como Os Novos 52.
Os dias se passaram e Bruno percebeu que Geisiane era uma
menina incrível. Quando chegou o final de semana, ele e Pedro foram à um
barzinho e, por horas, Bruno falou de Geisiane.
Quando completou um mês de conversa, Bruno sugeriu que fosse
conhecer Geisiane, mas ela achou melhor não, justificando que estava em um
período muito importante da faculdade.
Depois dessa conversa, Geisiane ficou dias, semanas sem
falar com Bruno, deixando-o achar que falara algo errado:
- O que aconteceu, Sara? Por que Geisiane não me manda
mensagens? Eu tenho mandado mensagens para ela, mas ela não me responde. –
Pedro falou à prima, em um tom desesperado. Parecendo nervosa, Sara disse:
- “Bruno, eu não posso falar, pois prometi a Geisi que a
deixaria falar contigo. Mas calma, ela vai entrar em contato com você”. –
Aquilo não acalmava Bruno, pois ele começou a pensar outras coisas, piores do
que ela não querer falar com ele.
Então, em um sábado, veio uma mensagem:
- “Ei, sumido”, com risos na sequência. Os olhos de Bruno
brilharam e seu coração disparou:
- O que aconteceu com você? – Ele questionou.
- “Ah, passei um pouco mal. Mas estou bem melhor agora”.
- Eu fiquei desesperado, pois não tive notícias suas por
três semanas.
- “Ah, nem foi tanto assim”, ela brincou. “Pronto, já estou
aqui”.
Os olhos de Bruno estavam marejados e ele sorria por poder
conversar com Geisiane, novamente. Como ela parecia querer terminar o assunto
por ali, ele deu continuidade com a conversa em outro ponto.
Mais dois meses passaram. Às vezes, Geisiane se ausentava
por algumas semanas, mas sempre voltava e os dois continuaram a conversar.
Quando chegou um período de férias para Bruno, ele prometeu
a si mesmo que faria uma surpresa para Geisiane, e como sabia que Pedro tinha
um affair por Sara, o convenceu a acompanhá-lo.
Compraram as passagens de trem, pois Geisiane e Sara moravam
no interior de Minas Gerais, e embarcaram logo de manhã cedo. Ao chegarem na
cidade das duas, Bruno e Pedro se dirigiram à casa de Sara, onde se
hospedariam, como ele avisou a prima enquanto esperavam embarcar no trem:
- Ótima forma de me avisar que estava vindo pra cá. – Disse Sara,
quando os rapazes entraram na sua casa. Pedro deu um sorriso e a cumprimentou,
já Bruno foi direto ao assunto:
- Onde Geisi mora?
- Boa tarde pra você também, primo. – Disse Sara e, de forma
mais séria continuou. – Olha, não sei o que você está espertando aparecer assim
por aqui, mas Geisi não está muito bem esses dias.
- O que você está dizendo? – Questionou Bruno, preocupado. –
Nos falamos outro dia...
Antes que Bruno continuasse, Sara o interrompeu:
- Bruno, eu não posso falar pela Geisi, mas eu tenho que lhe
prevenir que nada é exatamente o que você pensa. Você conhece uma menina
maravilhosa pelas mensagens que trocam. Eu acho melhor que continue assim. O
trem passa no final da tarde, vamos à estação e você compra a passagem de
volta, e vocês continuam conversando por mensagem, como tem sido.
Bruno não podia aceitar aquilo e, nervoso, falou:
- Ou você me fala onde Geisi mora ou vou bater de porta em
porta até descobrir a casa dela. Pedro, você vem comigo? – Pedro havia sentado
na mesa para comer algo, que estava sendo servido pela mãe de Sara, e não pode
responder de boca cheia, mas olhou para ambos de forma espantada. Ainda
nervoso, Bruno continuou. – Tudo bem, pode ficar aí. Boa tarde, tia Amélia. –
Sua tia o cumprimentou com um abano de cabeça e ele seguiu para a porta, mas
Sara o parou:
- Tudo bem. Eu te levo até lá. Só que, Bruno, você tem
conversado com ela e tem imaginado uma pessoa que não conhece em definitivo...
- Você não sabe o que eu penso, Sara...
- Eu li as mensagens de vocês dois, Bruno. Geisi me mostrou,
pois somos amigas desde a infância. Não sei o motivo, mas ela está gostando
muito de você, mesmo. Se você fizer algo com ela que eu não gostar, te chuto de
lá com mais facilidade do que chuto um galo que tenta me atacar, entendeu?
Bruno sentiu a seriedade e a ameaça na voz de Sara. Então,
de forma calma, pediu:
- Me leve até a casa dela, por favor. – Sara virou pra mãe
dela e disse que estava levando Bruno até a casa de Geisiane, e os dois saíram.
Chegando até o portão da casa de Geisiane, Sara gritou:
- Tia Lavínia, sou eu, a Sara. Tô com meu primo aqui,
podemos entrar. – Lavínia apareceu na porta e olhou para os dois, no portão:
- Então você é o Bruno, o príncipe encantado da minha Geisiane.
Que bom conhecer você, meu filho. Sim, podem entrar. Shazam tá preso lá no
fundo.
Bruno pensou, “o cachorro dela se chama Shazam!”, e deu um
sorriso bobo. Lavínia viu o sorriso no rosto dela e falou:
- Tá rindo por causa do nome do cachorro? É, Geisiane é
viciada naqueles quadrinhos que os tios dela e os irmãos trazem quando vem pra
casa. Chamava o cachorro de BB, dizendo que era o Billy Batson, daí, quando
ficou grande começou a chamar de Shazam. Sempre achei besteira, mas o pai dela
acha divertido. Fazer o quê?!
Os três entraram pela casa humilde da família de Geisiane,
pois o quarto dela ficava no fundo, perto da cozinha e com a porta de frente
para o banheiro:
- Geisi, Sara tá aqui e ela te trouxe uma surpresa. – Gritou
a mãe, do corredor, com voz animada. Ao chegarem, ela abriu a porta e os três
entraram no quarto.
Geisiane estava deitada em uma cama de hospital, com um
respirador no nariz. Ela olhou para as três pessoas que entraram no quarto e se
assustou ao ver Bruno ali. Com dificuldade para falar, ela disse:
- Bruno, o que você... faz aqui. – Ela tentou se colocar em
uma posição melhor e sua mãe correu para ajudá-la. – Eu não sabia... que
você... viria. – Bruno tentou não demonstrar surpresa e falou:
- Surpresa. Vim passar minhas férias com você. – E terminou
com um sorriso no rosto. Depois de ajeitar a filha na cama, Lavínia se retirou
e levou Sara com ela, que olhou seriamente para Bruno. Quando as duas saíram,
ele se sentou ao lado da cama e olhou os monitores que mediam os batimentos
cardíacos e a respiração de Geisiane:
- O que você tem? – Ele perguntou, sem pensar, e quando
pensou na pergunta que fizera, continuou. – Desculpa, eu não tenho o direito...
- Você tem todo o direito. – Disse Geisiane, com a
respiração um pouco melhor, e continuou respondendo à pergunta dele. – Os médicos
não sabem ainda o que tenho, mas de tempos em tempos, preciso ir à Belo
Horizonte e passo por uma baterias de exames.
- Por isso você não me respondia por semanas...
- Não tinha como lhe responder, pois eu ficava isolada no
hospital. Perguntei ao meu médico se tinha como falar com você, mas ele disse
que o isolamento era necessário e o celular, de acordo com ele, carrega o maior
número de germes do mundo. – Ela sorriu e, sentindo um prazer naquele sorriso,
Bruno falou:
- Eles não podiam esterilizar? – E os dois riram juntos.
Então ele continuou. – Por que não me contou? Por que não me disse sobre você?
- Eu não sabia como falar. – Geisiane respondeu. – Pelas mensagens,
eu achava melhor manter somente a pessoa que você conheceu, que gosta do mesmo
que você.
- Mas eu saberia entender e, quem sabe, viria antes te ver...
- Eu não queria que você meu Ciclope.
- Seu Ciclope. – Ele pareceu com raiva, mas levantou a
cabeça com um sorriso. – Eu estou mais para Aragorn e você é minha Arwen. – E ambos
riram.
A conversa prosseguiu com Geisiane contando mais sobre ela,
foi quando Bruno perguntou:
- Quando foi que você viu minha foto?
- Ah, isso foi há uns meses, quando ela trouxe uns álbuns de
família aqui em casa. Desculpa ter mentido sobre ter ido à casa dela.
- Eu deveria ter percebido. Sara nunca deixaria uma foto
minha exposta. A não ser que fosse para espantar mosquitos. – E o dois riram,
novamente. De repente, surgiu na porta Sara e perguntou do que os dois estavam
rindo e Bruno disse. – Estávamos falando mal de você. – Geisiane começou a rir
e, com isso, uma tosse persistente tomou conta dela, ouvindo àquilo, sua mãe
correu para ajuda-la:
- Eu posso ajudar em alguma coisa? – Bruno questionou,
preocupado. Lavínia disse:
- Não, meu querido. Acho melhor vocês voltarem depois. – E Sara
começou a puxar Bruno para fora do quarto, que sentia lágrima saindo dos seus
olhos. Quando estavam na rua, a caminho de casa, Sara percebeu como Bruno
parecia abalado e falou, de forma otimista:
- Não precisa ficar assim. Amanhã ela estará melhor e vocês
poderão continuar a conversa de onde pararam. – Mas aquilo não pareceu melhorar
as coisas, pois Bruno permaneceu cabisbaixo. Quando entraram na casa de Sara,
Bruno foi logo para o quarto, deixando todos na sala, com Sara contando o que
ocorreu.
No quarto, aos prantos, Bruno chorou até cair no sono.
Quando acordou, o dia estava amanhecendo e reparou que Pedro
dormia na cama próximo da sua. Trocou de roupa e saiu para tomar o café da
manhã, encontrando seus tios na cozinha. Conversou um pouco com eles e, assim que
terminou saiu da casa, indo até a casa de Geisiane, onde testemunhou o tamanho
de Shazam, que era um enorme cão caramelo, que latia com força, fazendo Lavínia
vir à porta:
- O que houve, rapaz? – E viu que Bruno estava no portão. –
Ah. Oi, Bruno. Peraí, que vou prender Shazam lá atrás. – Ela entrou e retornou
com uma corrente que prendeu na coleira do cachorro e o levou para o terreno
atrás da casa. Logo voltou ao portão, abrindo-o:
- Desculpa aparecer tão cedo. – Se desculpou Bruno, no que
Lavínia disse:
- Se preocupa não, filho. Aqui todos nós acordamos cedo. O
pai de Geisiane, daqui a pouco, tá saindo pro trabalho. Vem me ajudar a servir
o café da manhã dela. – E Bruno entrou na casa. Chegando na cozinha, viu o pai
de Geisiane e o cumprimentou. Viu a bandeja do café da manhã de Geisiane sobre
a pia e ajudou a levar para o quarto. Lá chegando, viu que Geisiane estava
lendo a minissérie Odisseia Cósmica, em formato encadernado, e falou:
- Já tá pensando em encarar Darkseid cedo assim? – Geisiane deixou
a revista de lado e olhou para ele, com um sorriso no rosto, o que deixou sua
mãe feliz, também:
- Seu mingau, querida. – Bruno viu aquela pasta branca e
perguntou o que tinha, no que Lavínia respondeu. – é um creme de tapioca, mas
sem leite e com água. Os médicos acham melhor que ela não consuma leite ou
qualquer derivado. Também tem uns biscoitos água e sal, pois não pode consumir
pão.
- Você se acostuma, principalmente quando comeu isso quase a
vida toda. – Argumentou Geisiane.
- Bem, se é assim. ‘bora comer esse creme! – Concluiu Bruno,
com um sorriso.
Ele ficou ali assistindo Geisiane terminar de comer seu creme
de tapioca e comer os biscoitos. Quando ela terminou, pediu para ele esperar,
pois sua mãe precisava leva-la ao banheiro. Quando voltou, deitou na cama e os
dois começaram uma conversa prolongada, que somente foi interrompida por
Lavínia, avisando que o almoço estava servido. Na bandeja de Geisiane vieram
dois pratos. A comida era bem semelhante, mas Geisiane somente comia arroz com
caldo de feijão e ovo cozido, amassado. Os dois comeram com satisfação e,
novamente, após o almoço, Geisiane foi levada por sua mãe ao banheiro.
Estranhando aquilo, Bruno resolveu argumentar à Geisiane:
- Seu sistema digestivo funciona tão rápido assim? – Ela olhou
para ele e riu:
- Não. Eu vou ao banheiro para ver se está tudo funcionando
bem, pois, às vezes, demora dias para eu fazer o número dois. – E Bruno sorriu,
envergonhado.
Os dois prosseguiram com a conversa durante mais algumas
horas, até que Sara apareceu e falou:
- Esqueceu que você está na minha casa? E que trouxe seu
amigo com você?
- Na verdade, estou dando a oportunidade de vocês dois se
acertarem. – Pontuou Bruno. – Já passou da hora de vocês dois dizerem que um
gosta do outro. – Mal bruno terminou de falar e Pedro apareceu na porta:
- Peraí, como é que é? Você gosta de mim? – Pedro perguntou,
com ar confuso. – Por que nunca me falou?
- Pelo mesmo motivo de você nunca ter me falado, seu bocó. –
Disse Sara, nervosa, e saiu do quarto. Pedro ficou mais confuso ainda, sem
entender nada e viu Geisiane na cama:
- Oi, eu sou Pedro. O melhor amigo desse boca grande. –
Geisiane sorriu e respondeu:
- E eu sou Geisiane, a namorada desse boca grande. – Bruno olhou
para ela, surpreso e com um sorriso que parecia rasgar seus lábios:
- Bem, acho melhor irmos atrás dela. Amanhã eu venho, cedo. –
E, antes de sair, Geisiane o puxou e deu um beijo nele. Ele sentiu os lábios
delicados e ressecados dela. Foi uma sensação maravilhosa e única para ele.
Bruno parecia andar nas nuvens, enquanto seu amigo parecia
estar fazendo uma conta de trigonometria impossível de solucionar. Quando chegaram
na casa de Sara, Pedro foi a procura dela e encontrou-a na varanda do fundo da
casa e ficou lá por algum tempo. Bruno sentou na sala, onde seus tios estavam
assistindo as notícias da noite. Depois foi atrás de Pedro e Sara e, ao chegar
lá, os viu se beijando:
- Finalmente! – falou em tom alto, para lhes chamar a
atenção, e riu. Os dois olharam para ele, envergonhados. Bruno então gritou. –
Geisi, os dois finalmente se beijaram! – E puderam ouvir os latidos de Shazam,
ao longe. Se aproximou do primo e do melhor amigo e os três conversaram sobre
os acontecimentos do dia e, quando Bruno contou sobre o beijo, Sara disse:
- Fico muito feliz por vocês dois, primo.
- E eu por vocês dois, prima. – Correspondeu Bruno.
Ficaram ali, por horas, conversando, enquanto o novo casal
trocava carícias nas mãos ou beijos discretos, para não deixar Bruno se
sentindo “segurando vela”. Era bem tarde quando foram dormir e Bruno logo
pregou os olhos, acordando menos cedo no outro dia.
Foi à cozinha e não viu a sua tio ou seu tio, se servindo
com café e pão. Quando terminou, foi em direção ao portão e viu que ele estavam
ali, conversando com Lavínia, o que deixou Bruno preocupado:
- Ei ,filho, vim ver você. – Começou Lavínia a falar. –
Olha, Geisiane passou mal e precisou ir com urgência, pro hospital. Meu filho
veio, de madrugada, de Colatina, e a levou até o hospital daqui. Agora estão
esperando para transferi-la para Belo Horizonte. Ela escreveu isso pr’ocê,
antes de passar muito mal. – entregou o bilhete para Bruno. – Agora preciso ir,
pois vou com ela.
- Posso ir junto? – Bruno questionou, em um rompante.
- Infelizmente não, querido. Faça suas preces pra Deus, pra
que ela melhore e volte logo. – Deu um sorriso sem graça e saiu. Bruno apertou
o bilhete com força, na mão e ficou sem chão. Seu tio o ajudou a entrar e o
colocou no sofá da casa. Sua tia e seu tio falavam com ele, mas pareciam distantes.
Temerosos, foram acordar Sara e contaram a ele o que aconteceu e ela correu
para a sala, vendo o primo em um transe agoniante. Não tentou falar com ele,
mas chamou Pedro, que acordou exasperado e, com um certo esforço, pegou o amigo
com o tio deste e o levou para a varanda. Trouxeram água, que Bruno bebeu, sem
nem perceber o que bebia. Pedro tentou atrair a atenção de Bruno, fazendo-o
olhar nos olhos:
- ‘cê tá me ouvindo? – Ele falou várias vezes, até que Bruno
pareceu entender o que o amigo dizia. – Fala comigo, Bruno?!
- Ela foi pro hospital e eu não posso vê-la hoje. – Bruno balbuciou.
– Ela me deixou uma carta. Por que ela me deixou uma carta? Eu não posso perdê-la.
Me fala que eu não vou perdê-la, por favor! Eu preciso dela, Pedro. – E Bruno
tentou se levantar e correr, mas Pedro o segurou com força. Sara chorava. –
Não, não chore, Sara. Ela vai voltar. A carta... por que ela me escreveu uma
carta? – Bruno gritou, desesperadamente, com lágrimas transbordando de seus
olhos. Ele, então, caiu de joelhos, mas com impacto amortecido, pois Pedro
ainda o segurava. Chorou copiosamente.
O resto do dia, Bruno passou sem comer nada e bebia água,
pois se via forçado a isso. Sara e Pedro não saíram do seu lado nenhum minuto,
mesmo quando almoçaram e jantaram. Então, uma mensagem chegou ao celular de
Bruno:
- “Me desculpa, filho, mas Geisiane está com os anjos!” –
Aquelas palavras atingiram Bruno como um raio mortal. Ele gritou e fez a tela
do seu celular trincar, com a raiva que sentia. Percebendo o que ocorrera, Sara
e Pedro o abraçaram com força, em prantos, também.
No dia seguinte, era uma segunda-feira e Bruno, entristecido,
foi até a ferroviária e comprou uma passagem de volta, sem esperar Pedro ou
Sara. Quando voltou para a casa de sua prima, viu Shazam solto, atrás do portão
da casa e se aproximou dele, falando:
- Sinto muito, Shazam. Mary Marvel não vai voltar mais! – E,
parecendo entender o rapaz do outro lado do portão, o cachorro não latiu,
somente olhando para ele, com olhos meigos.
Bruno retornou para a casa dos tios e arrumou sua bagagem,
partindo para a ferroviária, sem se despedir de ninguém.
Ele sabia que trem somente chegaria às três horas da tarde,
mas preferia ficar ali, esperando sua ida de volta para casa.
Quando eram dez horas da manhã, Sara e Pedro chegaram à ferroviária:
- O que você pensa que está fazendo? – questionou Pedro. – Tá
indo embora e me deixando aqui?
- Você está bem, agora. Você e Sara se entenderam,
finalmente. – Respondeu Bruno.
- Mas você não vai esperar para ir ao enterro de Geisiane?
Não vai se despedir dela? – Argumentou Sara.
- Me despedir do que, Sara? De um corpo que um dia pertenceu
a alma mais linda que eu já conheci. Daquela pessoa maravilhosa que ousou um
dia me enviar uma mensagem e conseguiu me conquistar como ninguém mais? Não
consigo! Preciso voltar para casa.
- Você está sendo egoísta! – Sara falou, com raiva e
lacrimejando. – Seu covarde e egoísta!
- Pode falar o que desejar de mim. – Bruno falou, de forma
rancorosa. – Pode me chamar do que quiser, mas eu sei o que senti por ela e o
que ela sentia por mim. Somente nós dois sabíamos o que sentíamos um pelo
outro, e suas palavras não vão mudar isso.
Nervosa e decepcionada, Sara saiu da ferroviária, deixando
Pedro e Bruno para trás. Pedro então argumentou:
- Bruno, nos conhecemos há anos e sei muito bem que você
está se segurando aí dentro. Acha certo ir embora agora? Se for isso mesmo,
sabe que não vou te impedir. – E Bruno balançou a cabeça, afirmativamente, sem
dizer nenhuma palavra. E, vendo isso, Pedro saiu e encontrou Sara na Praça,
indo os dois embora para a casa dela.
A ferroviária encheu de pessoas e o trem chegou na hora
marcada. Bruno embarcou e se sentou em sua cadeira, sozinho e, a medida que ia
se afastando da estação, começava a chorar, constantemente, até cair no sono.
Ele somente acordou quando chegou a Estação Ferroviária que
deveria desembarcar. Pegou um táxi e retornou para casa. Ao desfazer a bagagem,
viu o celular com a tela trincada e, junto deste, estava o bilhete de Geisiane,
que ele ainda não havia lido. Pegou ele e começou a ler:
“Ei, meu lindo Aragorn.
“Estou aqui, deitada nessa cama, em mais uma de minhas
crises – por isso, desculpa pelos garranchos – e só consigo pensar em seus
lábios.
“Obrigado por ter me feito
feliz e espero que eu tenha lhe feito feliz, também.
“A vida são momentos feitos
de pequenas felicidades que compõe nossas vidas e, quando juntadas, se tornam
grandiosas.
“A minha primeira pequena
felicidade foi quando você me respondeu, pela primeira vez.
“A segunda pequena
felicidade, foi quando você chegou de surpresa e me aceitou como eu sou.
“A terceira pequena
felicidade, foi o nosso primeiro beijo e, sinceramente, espero que essa crise
passe logo para que tenhamos várias outras pequenas felicidades e, no final, formemos
a maior felicidade que qualquer um nunca teve.