sábado, 9 de janeiro de 2010

Doppelgänger – Parte 1

Há muito tempo comecei a escrever sobre Walter Costa. Eu começaria com um romance, aonde ele e sua parceira, Priscilla, investigam um caso sobrenatural de uma ladrão de faces. O nome do romance seria Doppelgänger, mas não consegui levar a frente, pois queria saber mais sobre o DHPP de Vitória – ES, mas não tive acesso, então desisti.

A ideia era escrever Doppelgänger e dar continuidade as histórias de Walter sozinho, sem Priscilla, que morreria durante um caso. Walter se tornaria um investigador particular e trabalharia com sua antiga colega de faculdade, Cynthia, em casos que beirariam o fantástico. Mas deixei de lado, me dedicando mais a Marcelle Anthemimus, minha vampira.

Daí então comecei este lance de contos com Em Busca do Conhecimento e pensei: Por que não lançar minhas histórias desta forma? Foi então que decidi dividir meus escritos (com exceção de A Grega e Udjat) em contos.

Agora fiquem com a primeira parte de Doppelgänger, e boa leitura.

Doppelgängerdoppelgaenger

Doppelgänger

Era noite no Centro da cidade e um grito se fez ouvir em um dos becos escuros. Um ser encapuzado saiu correndo do local, e quando os mendigos que lá transitavam, em busca de local para dormir, entraram viram um corpo inerte e sem face.

Walter e Priscilla estavam de plantão no DHPP naquela noite sinistra. Não era o que mais eles gostavam, mas não tinham escolha. Quando o telefone tocou, Priscilla atendeu, era um policial que falava de um assassinato no Centro:

- Encontraram um corpo sem rosto em um beco ao lado do Theatro Carlos Gomes. – Falou Priscilla para seu parceiro. Os dois haviam se tornado companheiros de trabalho, assim que Priscilla havia entrado para a Polícia Civil. “Walter já tem anos de experiência, então nada melhor do que juntá-los”, assim falou-lhes seu chefe. De lá para cá, ambos já haviam investigado vários assassinatos, alguns sem fechar, devido falta de provas ou de melhores condições para comprovar o crime.

Walter e Priscilla desceram para o Gol branco que estava parado na frente do DHPP. O carro pertencia a Walter e era uma das poucas coisas que lhe pertencia de verdade, já que morava de aluguel, pois não podia comprar uma apartamento, já que a maior parte de seu dinheiro ia para a pensão que pagava para as filhas, que moravam com a mãe no Rio de Janeiro, e outra boa parte para a bebida, um vício no qual ele não queria largar.

Mesmo filho de um coronel aposentado, Walter Costa nunca quis depender do pai para nada. No seu quarto período de faculdade de Direito na Universidade Federal, se apaixonou por uma estudante de pedagogia que estava cursando o segundo período. Terminou engravidando-a. Largou a faculdade e foi fazer a prova da Polícia, para poder sustentar a família que estava surgindo. O pai achava aquilo um absurdo, mas Walter não deu ouvidos. Após terem a segunda filha, sua esposa o largou para ir morar no Rio, aonde se casou com outra pessoa. Mas ela não abriu mão da pensão das filhas, dizendo a ele que isso serviria para os estudos delas. Depois que foram para o Rio, Walter não mais as viu e sempre fica sabendo de algo, ao conversar com sua ex, que mais briga com ele do que outras coisas.

Quando Walter e Priscilla chegaram ao local, um pequeno grupo de pessoas cercava o local e um fotógrafo batia fotos:

- As cobras. – Falou Walter, em tom baixo, mas aborrecido. – Será que esses fotógrafos são zumbis? – Ele reconheceu o rapaz, trabalhava em um dos jornais locais. Pensou em espantá-lo, mas Priscilla o conteve:

- Vamos nos ater a investigação! – Se dirigindo ao policial. – Relate o que aconteceu.

- Bem, eu estava no meu posto ali na frente, quando ouvi um grito e vim ver o que estava acontecendo. Alguns mendigos já se encontravam em volta do corpo, balbuciando que não tinham culpa de nada. Foi quando eu vi aquela... Coisa, caída no chão, inerte e sem face. Tinha pele, mas não tinha olhos, nem nariz, nem boca, nem orelhas e nem cabelo. Ao sei se é homem ou mulher, pois perece que não tem nada.

- Como assim? – Se aproximou Walter, num tom mais baixo, para não chamar a atenção do fotógrafo.

- Não sei lhe dizer, não tem seios, mas também não parece ter pênis.

Aquilo parecia intrigante. Não demorou muito para o rabecão chegar e levar o corpo.

- Precisamos ir ao DML. – Walter falou a Priscilla, enquanto ele dirigia. – Temos que ver o que está acontecendo.

Ao chegarem no DML, se dirigiram ao setor de necropsia:

- Daniel, o que temos?

- Vieram direto pra cá?

- Eu preciso saber o que tá rolando. Fala. – Então eles se aproximaram do corpo.

- É a coisa mais estranha que já vi. Digo que é um corpo humano, pois é bípede e tem aparência de humano, mas além de não ter cabelo, olhos, boca, orelhas e nariz, não tem mamilos, umbigo, digitais, poros, unhas, pelos e nem órgão genital. Pela altura, poderia sugerir homem, mas é complicado dizer que sim. É difícil até definir a idade. – Olhou para Walter e Priscilla, assustado. – Com o que vocês trombaram?

- Sinceramente que eu também gostaria de saber! – Foi o que Walter falou, mais intrigado do que assustado.

No dia seguinte, quando estavam saindo para ir embora, o chefe de Walter e Priscilla os chamou:

- Que relatório é esse que deixaram na minha mesa?

- Ontem aconteceu um assassinato no Centro e... – Walter foi interrompido pelo seu chefe.

- É, isso eu vi, mas que negócio é esse de sem face? Que papo é esse?

- Se o senhor quiser é só ligar para o DML e... – agora foi a vez de Priscilla ser cortada.

- Olha, eu não quero saber se o DML vai ou não me dizer, eu quero que vocês me expliquem isso daqui melhor.

- Está tudo aí, chefe, não excluímos nenhum acontecimento. Quando chegamos ao local, o corpo estava coberto por um pano, para um fotógrafo não ficar batendo fotos. Dirigimos-nos ao DML, aonde foi constatado que a vítima não tinha nenhuma impressão de ter sido humana ou não, a não ser pela forma de seu corpo. Não sabíamos o sexo, mas pela altura, suspeitamos ser homem.

- Isso é impossível!

- Nós também pensamos nisso. – Priscilla falou. – Mas eu decidi fazer uma pesquisa pela internet sobre algo parecido e não encontrei nada...

- Estou sentindo um “mas” aí, Priscilla. – Argumentou o chefe apreensivamente, Walter olhou para ela sem entender. – Desembucha menina!

- Bem, eu não encontrei nenhum crime que parecesse com isso, mas encontrei alguma coisa sobre doppelgänger!

- E o que seria isso?

- Um ser que imita o corpo de sua vítima, antes dela morrer.

- Espera aí, um ser... Sobrenatural? – Perguntou o chefe incrédulo, enquanto Walter olhava, absorto nas idéias de sua parceira. Priscilla balançou a cabeça afirmativamente. – Você enlouqueceu, Ciprianno? Descartem esta idéia. Não quero saber de comentários aqui dentro sobre monstros ou seja lá o que isso for. Resolvam o caso ou o fechem, entenderam? – Ambos balançaram a cabeça. – Agora saiam da minha sala.

Priscilla parecia envergonhada e Walter, ao seu lado, não parecia ligar para isso. Ela queria ter ficado calada e não ter soltado suas teorias e estudos, mas este sempre fora seu problema.

Quando mais nova, Priscilla Ciprianno sempre fora uma menina muito curiosa. Seu pai a incentivava, comprando-lhe vários livros e levando-a na Biblioteca Estadual, que apesar de um acervo pequeno, sempre pareceu interessante para ela. Quando cursou o Ensino Médio, era a primeira da classe, sendo verdadeiro orgulho do pai. Mas ele meio que se decepcionou quando ela falou em fazer a prova da Polícia. “Será um novo desafio para mim, pai. Assim, eu poderei ajudá-lo a pagar minha faculdade.”, ela lhe explicou assim que se tornou policial. Em breve, era detetive e trabalhava ao lado de Walter Costa. Pena que seu pai não vivera para testemunhar àquilo, morrera um ano antes, devido a um tumor.

Desde que se tornara parceira de Walter, quase sempre ouvia ele dizer, “não poderia ter parceira melhor.”, mas naquele momento ele nada falava. “diga algo, maldição!”, ela pensou. Quando se sentaram, ele ainda parecia estar divagando com os próprios pensamentos. Ela ligou o monitor e então ele falou:

- Aonde você leu sobre isso, Priscilla?

- Naquela enciclopédia virtual...

- Mas qualquer um pode escrever naquilo, não é?

- Sim, mas depois que eu li, joguei o nome em um site de buscas e encontrei várias outras referências, que quase diziam a mesma coisa.

- O que é quase, não pode ser usado como base de investigação. Você, melhor do que qualquer outro, sabe disso.

- Foi somente uma teoria, Walter, nada demais.

- Mesmo sendo uma teoria, podemos investigar. – Ela deu um sorriso. – Eu não estou dizendo que acredito nisso, mas não temos nada e eu não gosto de joões-ninguém mortos no meu turno.