terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Homenagem a Heath Ledger (1979-2008)

Bem, sei que isso não tem muito a ver com meus contos, mas o Batman faz parte da minha vida, então nada mais apropriado de prestar uma homenagem à Heath Ledger, que faleceu no dia 23/01/2008, e viverá no cinema o maior dos vilões do Batman, O Coringa (Joker, em inglês).
Vamos começar assim, desde muito novo sou fã do Batman. Minha primeira revistinha foi um gibizinho, não lembro todas as histórias, mas tinha uma aventura do Robin, na faculdade, onde ele conhecia outras pessoas fantasiadas, foi muito legal. Eu vivia querendo uma fantasia do Batman, mas minha madrinha não tinha noção de quem era quem (complicado isso, né?), ela me comprou uma roupa do Robin. Para mim não era problema, pois eu era fã dos dois, adorava o seriado com Adam West e Burt Ward (hoje condeno aquilo com todas as minhas forças) e o desenho animado, que aparecia o Batmirim e a Batmoça. Batman tinha sempre uma saída para tudo, não importava a situação, e aquilo ficou enraizado em mim, até comprar a número um da Editora Abril e ver uma aventura completamente diferente. Com argumento de Denny O'Neil e arte de Neal Adams, o Batman visitava o Beco do Crime, onde seus pais foram mortos, e depois visita a mulher que cuidou dele naquela noite, uma médica chamada Dra. Leslie Thompkins. Aquilo foi completamente diferente para mim, pois nunca havia imaginado algo parecido no Batman (estava acostumado com aquela visão do Batman camp). Fiquei fascinado com aquilo. Daí então comecei a acompanhar mais e mais o Batman, não ligando para os outros, até que saiu Crise nas Infinitas Terras, onde uma revolução aconteceu na DC Comics e vários personagens tiveram seu começo recontado, dentre ele Batman. Com argumento de Frank Miller e arte de David Mazzucchelli, Batman: Ano Um foi único para mim. Nada se comparava àquilo, O Batman era sombrio, solitário, um guerreiro urbano com nenhum super poder, somente alguns objetos no seu cinto e sua força de vontade. Mal sabia eu que algo melhor estava pra durgir e se chamava Batman: O Cavaleiro das Trevas (Batman: The Dark Knight Returns). Com desenhos e argumento de Frank Miller (o mesmo de Batman: Ano Um) e colorização de Lynn Varley, uma visão completamente nova surgia do Batman. Ele estava velho e havia se aposentado da guerra contra o crime, mas não aguentou e terminou voltando ao uniforme, só que termina enfrentando o "escoteiro da liberdade", o Superman, em um final apoteótico (lógico, isso é um resumaço). Daí então o Batman fez 50 anos, houve um relançamento das duas séries desenvolvidas por Miller, e foi lançado o filme Batman, com direção de Tim Burton, estrelando Michael Keaton (Batman), Kim Basinger (Vicky Vale) e Jack Nicholson (Coringa).
Sou sincero ao dizer que condenei ao falarem que o baixinho Michael Keaton faria o personagem, mas depois que vi o filme, fiquei satisfeito (na época). O filme era tenso, tinha um clima bem sombrio, mas o Batman era um coadjuvante, o persoangem principal era o Coringa, sendo que nem precisava, pois a interpretação de Jack Nicholson foi única (para a época). Depois vieram outros filmes, mas para encurtar a história, em 2005 entrou em cartaz o filme que ditaria um novo rumo a franquia do Batman no cinema: Batman Begins.

Dirigido pelo diretor de filmes independentes, Christopher Nolan, com roteiro do consagrado David S. Goyer, Batman voltava ao cinema com sua origem sendo contada desde o princípio. Seu treinamento, seu traje, seu carro, tudo é mostrado. É um verdadeiro filme de origem, com vilões bem trabalhados, desde os gangsters até os vilões diabólicos. Atrás da máscara surge o ator Christian Bale. Com sua versatilidade para fazer personagens, Bale consegue dar ao Batman três personalidades: Bruce Wayne playboy, Bruce Wayne e Batman. A idéia de Nolan foi perfeita, uma Gotham mais próxima da realidade, bandidos mais reais, explicações plausíveis, tudo que pudesse ser "real".
O final do filme já nos mostrava uma prévia do estava por vir: O Batman recebe do então Tenente James Gordon uma carta de baralho, com um "Curinga" estampado.
Daí então começaram as especulações: Quem seria o Coringa? Que estaria por trás da maquiagem branca? Então, em agosto de 2006, é confirmado que Heath Ledger seria o novo Coringa.
Ledger tinha uma carreira em ascenção, começando em Hollywood com "10 Coisas Que Odeio Em Você" - uma adaptação da peça de William Shakespeare "A Megera Domada" -, ao lado de Julia Stiles e Joseph Gordon-Levitt, passando por "O Patriota", com Mel Gibson, "Coração de Cavaleiro", com Paul Bettany e Mark Addy, "A Última Ceia", com Billy Bob Thornton e Halle Berry, "Honra e Coragem", com Djimon Hounsou e Kate Hudson, "Ned Kelly", com Orlando Bloom, Geoffrey Rush e Naomi Watts - onde fez o papel título -, "O Devorador de Almas", repetindo a parceria com Mark Addy, "Os Reis de Dogtown", com Emile Hirsch, Rebecca De Mornay e Johnny Knoxville - ele faz o Skip, um surfista que patrocina os percursores do skate como conhecemos hoje, está completamente diferente - e "Os Irmãos Grimm", com Matt Damon e Monica Bellucci. Em 2005, recebeu o convite do diretor Ang Lee para fazer o filme que mudaria de vez sua carreira, "O Segredo de Brokeback Mountain", que contava a história de dois vaqueiros que tinham um caso homossexual. Com este filme concorreu ao Oscar® de Mehor Ator Coadjuvante.
Depois de tanto, recebeu o convite para viver o maior vilão dos quadrinhos, um ser tão insano que seria impensável alguém fazer, a não ser que fosse louco como ele.
Ledger se declarou não ser fã de quadrinhos, ao contrário, detestava, mas sabia que o personagem seria o desafio ideal para sua carreira. Declarou que "seu" Coringa seria o mais sombrio já visto.
Foi dito e feito, em dezembro de 2007, surge o primeiro trailer de The Dark Knight, o novo filme do Batman, e nele surge o Coringa de Heath Ledger.

"Why So Serious?" se tornou a pergunta do momento, mas para mim foi "Let's place smile in this face!". Todas as duas demonstram o grau de insanidade hilária do Coringa.
No trailer ele detona Gotham City, destrói o sinal criado para chamar o Batman, causa um verdadeiro caos. Vimos o que está por nos esperar em ínfimos 02:07.
Mas neste mês, perdemos Ledger, não foi definido ainda a causa mortis, mas definitivamento ele se foi.
Deixou muitas pessoas tristes com sua ida para o Elísio, entre elas o diretor Christopher Nolan, que num desabafo para a revista Newsweek, falou o quanto Heath Ledger ajudou a ele no trabalho em The Dark Knight.
A seguir, graças aos administrados do Blog BHQ+, Régis Soares e Pedro Pã, disponibilizarei a reportagem de Nolan. Um agradecimento dele, por ter trabalhado com um ator tão versátil e admirador de todos os tipos de trablahadores que estão a sua volta.
Obrigado Régis, por ter me permitido colocar esta reportagem aqui (na íntegra):

Nolan Escreve sobre Ledger

postado por Régis Soares - Repórter às 2:25 PM, no Blog BHQ+

Escrevendo para a revista Newsweek, o diretor de "Batman Begins" e "Batman O Cavaleiro das Trevas", Chistopher Nolan, manifestou-se em relação ao falecimento de Heath Ledger, citando o contato que teve com o ator durante as filmagens do novo longa do Morcego. A tradução da crônica você lê na íntegra aqui:


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Um Carisma Natural como a Gravidade
Por Christopher Nolan

Uma noite, enquanto eu estava na rua LaSalle em Chicago, tentando organizar uma filmagem de "O Cavaleiro das Trevas", um assistente de produção passa de skate bem em frente à minha linha de visão. Silenciosamente, eu amaldiçoei o momento que Heath andou de skate pelo set pela primeira vez, totalmente caracterizado e de maquiagem. Eu me irritei ao pensar na reação dos fãs de Batman a um Coringa skatista, mas o resultado daquilo foi a proliferação de skatistas entre os jovens membros da equipe. Se você perguntasse àqueles garotos por que resolveram trazer seus skates para o trabalho, eles responderiam com sinceridade que não sabiam. Isso é o verdadeiro carisma - tão invisível e natural quanto a gravidade. Isso é o que Heath tinha.

Heath estava se consumindo com tanta criatividade. Estava em cada gesto dele. Ele uma vez me disse que preferia esperar um tempo entre cada trabalho até que estivesse faminto criativamente. Até que ele precisasse daquilo de novo. Ele trouxe aquela atitude para o set todos os dias. Não há muitos atores que possam fazer você se sentir envergonhado de quão freqüênte sejam suas reclamações sobre ter o melhor emprego do mundo. Heath era um deles.

Uma vez ele e outro ator estavam filmando uma cena bem complexa. Nós tínhamos dois dias para filmar e ao fim do primeiro dia, eles realmente se encontraram em cena e Heath ficou preocupado já que poderia perder o momento caso o processo fosse parado. Ele queria ficar e terminar. É difícil pedir à equipe para trabalhar até tarde, quando se sabe que há tempo suficiente para fazer aquilo no dia seguinte. Mas todos pareciam entender que Heath tinha algo especial naquela hora e que tínhamos que capturar antes que desaparecesse. Meses mais tarde, eu fiquei sabendo que quando Heath deixou o set naquela noite, ele secretamente agradeceu a cada membro do grupo por trabalhar até tarde. Secretamente. Sem tentar aparecer, mas apenas sendo grato pela chance de criar o que lhe fora dado.

Aquelas noites nas ruas de Chicago estavam cheias de dublês. Podem ser momentos entediantes para um ator, mas Heath estava fascinado, ansioso por aceitar nosso convite para subir no carro de produção com a câmera enquanto perseguíamos outros veículos numa cena de tráfego intenso - não era só a emoção do passeio, mas a de fazer parte dele. De tudo. Ele trouxe seu laptop com ele no carro e nós tivemos uma exibição em alta velocidade de dois de seus trabalhos em andamento: curtas-metragem que ele mesmo havia feito que eram excitantes e atormentadores. Sua exuberância me fez sentir atordoado e sem rumo. Eu nunca me senti tão velho quanto a vez que assisti Heath explorando seus talentos. Aquela noite eu fiz uma oferta a ele - sabendo que ele não me deixaria na mão - que ele se sentisse à vontade para vir ao set quando tivesse uma noite de folga para que pudesse ver o que tínhamos em projeto.

Quando se chega à sala de edição depois de filmar um longa, você sente a responsabilidade que tem para com um ator que confiou em você e Heath nos deu tudo que tinha. Quando comecei a cortar o filme, eu já podia imaginar cada tomada escolhida, cada corte feito. Eu podia visualizar o dia de exibição quando mostraríamos a ele o trabalho finalizado - sentado três ou quatro fileiras atrás dele, observando os movimentos de sua cabeça para ter pistas do que ele estaria pensando sobre o que fizemos e entregamos. Agora aquela exibição nunca vai acontecer. Eu o vejo todos os dias na ilha de edição. Eu estudo seu rosto, sua voz. E eu sinto uma terrível falta dele.
De volta à LaSalle Street,eu voltei-me para meu diretor-assistente e disse a ele que apagasse a memória do garoto skatista da minha mente quando percebi - é Heath, fazendo um woolly, que atrai meus olhos, aqui na noite de folga dele, aceitando meu convite. Não posso evitar o sorriso que ele me provoca.

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